Lusitania
Estar longe, sobretudo sendo emigrante, faz-nos ver outras coisas. E faz-nos ver a mesmas coisas de outras formas. E sobretudo ter saudades. E até poder relembrar como boas coisas que ignorávamos como tal.
Mas venho por este meio perguntar-vos, amigos, o que é ser português?
Ontem, falando com um de vós, me dizias (na brincadeira que nunca o é totalmente) que traía a pátria…não podia negar quem sou…a minha cultura…
É isso que eu sou: português?
Devo declarar o que já sabeis: não sou um patriota. Não fui educado, nem na escola nem fora dela, para os valores da pátria, nem da nação. E dou graças por isso.
Essa coisa das pátria-estado-nação é coisa do passado! Nasceu lá no antigo regime da idade media, com os príncipes a quererem terra e poder autónomos, até da Santa igreja. Muitas guerras depois teve um apogeu no século XIX, e matou-se com as grandes guerras do século XX. E já vamos no século XXI!
Vivemos na fase da tão propalada “globalização”. E isso para mim, mais que bom, é óbvio. Hoje contam muito mais os “grandes blocos” que qualquer país. E mesmo os grandes blocos estão bem apertadinhos na “aldeia global”. E curto isto. Hoje, mais ainda com a W.W.W., temos acesso a quase tudo em qualquer local, pelo que os regionalismos tendem a ser menos importantes. A terra agora, e cada vez mais, é “virtual”. E é bom. Assim posso viver em Espanha, ser português, viver uma filosofia Hindu, numa sociedade ocidental, etc. Condiciona-nos o tempo, mas não tanto o espaço. Vale tudo, é só escolher.
Mais que nunca vale a velha frase do Platão (ou seria do Sócrates?): “Não sou ateniense nem grego, mas simplesmente um cidadão do mundo.” Sempre gostei e cada vez mais.
Mas ainda assim digo-me…português! Porquê? O que raios é isso?
Sair ao fim de semana e beber Vodka ou Whisky? Com Coca-Cola? Mandar uns sniffs de coca ou pelo menos fumar uns charros? Ouvir 90% da musica anglo-sáxónica. Ver 99% do cinema estrangeiro? Seguir os media sob modelos (e franchising) estrangeiro? Comer em fast-food de nome e comida iguais aos de NY e Tóquio? Trabalhar para multinacionais estrangeiras sob as suas orientações e modelos? Locomover-se em transportes concebidos e produzidos além fronteiras? Vestir roupa de marca italiana, americana, espanhola…made in China! Ter as mesmas causas e preocupações ideológicas que qualquer outros Europeu? Ter um sistema politico e jurídico made by francos e germânicos sobre tradições românicas? Burocracia e falta de bom senso normativo? Ser da mesma religião que espanhóis e italianos? Ver telenovelas e outros programas brasileiros? Fazer surf ou jogar Catan? Ser exímio no Sudoko e na Play Station? Adorar futebol e sexo? Ter um blog?
É isso ser português?
Talvez ser português seja dizer mal e ter pena de nós mesmos…
Para falar a verdade não sinto que esteja fora. Se fora significa estar fora de alguma coisa importante, certamente que não inclui estar fora de Portugal.
E sinto-me mais alcobacense que português. E mesmo isso não muito. Mais que pertencer a Portugal pertenço à nossa nobre língua. Mas valorizo muito mais a qualidade de vida e o trabalho. E cada amizade. E a família!
Sim, digo: sou português. Sem vergonha. Até com algum orgulho. Gosto de Portugal, seja lá o que isso for. E nada disso não me parece muito importante.
A vós, portugueses em Portugal, desejo-vos tudo do melhor. E se vocês estiverem tão bem como vos desejo, Portugal, que nada mais é que os seus portugueses, será brutal!
Mas pergunto-vos, amigos portugueses, o que é ser português?!?
Se tivesse de me responder apelaria à tão nossa palavra: saudade. É ter saudade de ser o que poderíamos ser e não somos, nunca fomos e nunca seremos. E ainda assim sabermos que ser assim nem é mau de todo…
Já antes escrevi sobre isto: Portugal já não é português!E também está interessante aqui. Leia artigo completo







