28.8.06

Era doce mas acabou-se...

Férias

Tive um ano extremamente desgastante. Muitas e profundas mudanças, que me consumiram em esforço de adaptação e no intento de responder aos novos desafios que assumi, que no macrocosmo são minúsculos, mas no meu cosmo são macro.

Já estava mesmo necessitado de um belo descanso e de distracção. Estava quase...“sensível”, e qualquer um mais próximo que me conhece bem percebeu isso. Os mais atenciosos respeitaram e até ajudaram.

As duas semaninhas na lusitânia souberam-me muito bem.

Matei muitas saudades de muita gente querida com quem queria estar. Principalmente família e amigos. E de lugares também.

O aconchego da avó, da casa dos papás, da sempre bela Nazaré. Da minha querida Costa Azul. Das amenas noites de Alcobaça. Dos meus passeios “higiénicos” pela baixa de Lisboa e os seus alfarrabistas. Até deu para visitar a Praia Grande num dia de bom surf, que fechei com a contemplação do pôr-do-sol em Ribeira D`ilhas clássico.

Faltaram-me mais duas semanas para fazer mais, mais tempo, mais vezes, com mais calma. Faltou-me mais tempo para algumas pessoas, sobretudo amigos. Faltou-me estar num casamento onde até teria gostado de ir. Faltaram-me dois dias desejados para parar no sofá em frente da TV, absolutamente passivo. Faltou-me descansar de facto. Parar mesmo.

Foi pouco, mas foi muito bom.

No antes e no entretanto ainda tivemos o prazer de receber dois casaizinhos: Pedro e a principesca Davina; e agora: Carlos “Ruim” e a imperturbável Isabel.

E agora de volta à luta, que à sua maneira é muito mais realizadora. Prevejo e desejo que seja um ano de expansão e estabilização. Provavelmente tanto ou mais desgastante que este.
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22.8.06

Crónica de uma viagem

Sud Express

Viajo no Sud-express. Apanho este comboio assumindo uma situação que ainda não assimilei: sou "emigra".

A viagem começa antes mesmo do embarque. E já me vai lembrando que Portugal ainda não está no 1º mundo. Até já temos computadores e Internet, mas muitos dos operadores (e clientes) deste país profundamente estatalizado, ainda trabalha numa produtividade do século onde se formaram: o século XX português, que, na maioria dos casos, foi o equivalente ao século XVIII de outros países ditos mais desenvolvidos.

O vendedor disse-me que já não havia bilhetes no comboio de hoje, pelo que lhe pedi um para o dia seguinte. Passado uns minutos, já mentalizado para mais um dia de férias na terrinha, apareceu-me com o bilhete para hoje…

Somos uma comunidade transeunte composta principalmente por emigrantes e jovens a fazer o “interail”. A maioria dos outros passageiros deve mais facilmente identificar-me com um desses jovens cada vez mais iguais, que também já fui há dez anos atrás. Mas agora, depois já em andamento, estou consciente que estarei mais bem integrado na categoria do emigrante. O "emigra" português, essa casta tão especial.

Viajo uma vez mais neste corpo expedicionário que leva de Portugal em direcção à Europa. Em direcção…porque a sensação que dá é que Portugal é um país desaparecido num seu próprio “quadrado das bermudas”, entre Europa, as Américas e Africa. Pelo menos temos um bom posto de observação! E é uma contemplação desta boleia que aqui deixo.

Passou há pouco por mim um "portuga" daqueles que nos dá orgulho. Bigode, cabelo moreno encaracolado, baixinho e gordito, mas aperaltado com vaidade e com maneiras de pintarola. “Á pois!”. Fala muito. E ri. Para mim é uma versão mais autêntica e melhorada do Ron Jeremy, embora não tenha chegado a exames mais detalhados!

Nesta viagem (alucinógénica?!) traçamos uma transversal do país, de Lisboa a Vilar Formoso. Do nosso mais “in” ao nosso mãos “out”. “Out” de abandono e atraso.

Partimos do nosso litoral, a nossa faixa de solo fértil onde plantamos cada vez mais prédios, servidos por um número cada vez maior de novos e velhos caminhos, que mesmo assim ainda são insuficientes. A nossa ex-agricultura das hortas de subsistência, perde-se num labirinto cada vez maior, aparentemente sem fim, onde é impossível percorrer um minuto sem ver sinais de humanidade. Sempre sonhei e viajei à procura das praias, florestas e campos sem sinais de ocupação, onde o olhar se perde no horizonte, sem perceber confrontos e apertos entre irmãos. Aquelas paisagens que se vêm ás vezes nos filmes “amaricanos”. Imagino os problemas urbanísticos e burocráticos de correntes da nossa (des)ordenação do território.

Já vamos com uma hora de caminho e ainda é dia. O corredor ao lado das cabines está lotado. Quase todos são homens na faixa dos 40 a 60 anos, com inegável aspecto de emigrante trabalhador. A maioria olha para fora, para as imagens das mil e uma aldeias e vilas que passam depressa pelo ecrã deste cinema itinerante. A maioria deste cenário é pouco ou nada bonito. Mas é nosso. É, ainda e sempre a nossa casa. Talvez por isso a mirada de muitos indica que já estão a cultivar a saudade de mais este adeus. Junto-me a eles. Na mirada e no sentimento.

Perante estes homens naturalmente me inclino interiormente em respeito. Não só porque agora sou um deles, mas porque sei que à maioria não sorriu a minha sorte. Estes trabalhavam muito e duro para sobreviverem, eles lá fora e as famílias cá dentro. Agradeço mentalmente as suas remessas do estrangeiro sem as quais o país teria entrado em bancarrota. E também por isso tento manter a tolerância o número crescente de brasileiros, chineses, ucranianos e pretos de sul incerto que estão representados neste comboio como reflexo perfeito do que se vê no país e em toda a Europa.

Alguns homens conversam animados. Ouço: “antigamente os emigrantes até a mobília traziam! As malas pareciam arcas!” E riem…

Passa por mim mais um homem de bigode. Está vestido de fato de treino, não oficial, da selecção. Mas não é isso que me para o pensamento. São os seus cabelos lisos, esbranquiçados, que acentuam a expressão de cansaço e desilusão. Traz-me o imaginário dos cinquentões frustrados por uma vida adulta que não correspondeu ás expectativas de uma juventude entusiasta, cheia de esperança, do Maio de 68 e do 25 de Abril. Esta imagem traz-me pena, compaixão e medo. Fico triste.

O comboio serpenteia agora os pequenos montes do interior beirão, feitos de pedra cinza corroída pelos fungos negros. Ás vezes, nas curvas, vejo a locomotora lá à frente a puxar por todos nós. É lindo. Aqui e ali uma aldeola e muitas casas perdidas feitas de pedra que os nossos avós tiraram dos quintais para os tornar um pouco mais criativos. Não resultou. Os citadinos, com seu iludido saudosismo da “província”, acham que adoram! Aqui já percebo a fronteira óbvia com Espanha. É feita de um terreno pedregoso e infértil que não atrai, e que atrai cada vez menos. Está abandonado. Na fronteira, que é absolutamente natural, tudo muda. Começa o planalto espanhol. É ainda mais seco, mas menos pedregoso. E é também o motivo das cidades vermelhas, cor de argila feita tijolo que faz as cidades quentes parecerem de fogo. E os espanhóis, com politicas mais certeiras, o mesmo dinheiro da UE que nós desperdiçamos, e tantas vezes recorrendo aos rios que também são nossos, estão a tornar o árido produtivo. Mas ainda resta muito km sem ver vivalma o que para mim é agradável à vista, mas nunca ali poderia viver pois é demasiado longe do mar.

O pintarolas de camisa vermelha e sapato quadrado em pele branca e o amigo fumam um cigarrinho 5 cm abaixo de um autocolante vermelho a dizer: não fumar. Daqui a pouco lançam as beatas pela janela onde está um autocolante a dizer: não atirar objectos pela janela. A beata estava bem apagada, não há-de ser ela a provocar um fogo…Olham para um espanhol que os vê e avisa e dizem: “Tu quietemã. No hay problemas!” E riem…

São 20h30m . O vagão restaurante (esqueça os filmes, está mais para taberna) está intransitável. Não arrisco, até porque o empregado do estabelecimento está a refilar alto e com maus modos, queixando-se dos próprios clientes! Pelo caminho de volta, por entre as cabines percebe-se a variedade do farnel: muitas “taparueres” cheias de sandes de panado, pernas de frango, latas de sardinha, e coisas com ar a caseiro que não adivinho o que serão. Tudo regado a tintol e sobretudo cervejinha, que é cada vez mais rainha.

Como bom português ignorei absolutamente o nº do bilhete e sentei-me no primeiro lugar desocupado que encontro onde só estão mulheres. Duas francesas e uma de parte incerta. Mais tarde tenho de mudar porque chega o dono. O meu lugar também está ocupado. Agora sai ele. Na nova cabina está uma senhora brasileira que fantasio ter um certo ar a dominadora sexual. Aproveita para mandar os últimos beijos antes de passar a fronteira e perder a “rede” nacional. Demora um pouco pois coloca muito mais que as despedidas em dia. Ouço-a e recordo como os brasileiros são muito mais carinhosos que nós no trato pessoal. Pelo menos nos mais superficiais. Outra mulher, à minha frente, diz-me para esticar as pernas no banco, para o compartimento parecer mais cheio e não entrar mais ninguém. A filha está semi deitada ao meu lado, com as pernas para cima. Diz que é uma posição de ióga. Deve ser. Chegam mais duas passageiras, que pelo menos eram giras. A mulher e a filha queixam-se. Está lotado. Para mim melhorou. Estamos cinco nacionalidades agora. Falamos do óbvio: "...os portugueses são so melhores do mundo em línguas. Falam tudo e todos ententem...". Até os analfabetos, penso eu para mim.

Um outro brasileiro, com pelo menos 60 anos e ar frágil de velho tolo, passa pela terceira vez pela cabina e repete os números: 71 –123. De facto é aqui o 71. Mas o vagão 122 é o outro a seguir. Não se sabe porque os vagões não estão pela ordem dos números. O 123 está no seguimento de 121 e antes do 122. Não é de admirar que o senhor não entenda. Todos rimos muito.

Esta é já a viagem mais cheia e caótica onde estive, destronando experiências italianas e excitando a imaginação com uma mistura filmes da índia e cheiros africanos.

Os outros membros desta feira ambulante são os jovens turistas que partilham os mesmos vagões, e são cada vez mais iguais: europeus, americanos e até japoneses. Até os portugueses! Para minha infelicidade o substrato mais numeroso é de franceses. Todos partem dos seus países para ver a Europa, e, principalmente, buscam aventura. Romance. Ou pelo menos sexo! Viajam sem parar e quase sempre em bando, de vários ou de casal, no qual se fecham, pois é essa a dinâmica dos grupos em viagem. E sem conviver com autóctones não se conhece minimamente nada. Acabam por ver muito e conhecer pouco.

Olho para eles e fico a pensar: é este o comboio, antiquado, ruidoso e sujo, que marca a primeira e última impressão de Portugal aos futuros cidadãos do mundo? Será uma opção pela honestidade ou pura falta de bom-senso?

Outros dois jovens que se tratam por “ó moço”, estacionam perto. Uma “garina” passa a pedir licença em todas as línguas que conhece: merci; gracias; por favor (sotaque brasileiro), etc. O tripeiro diz logo: “De nada. Já marchavas, já!”. Como nestas coisas um homem nunca envelhece, um gajo ao lado, com os seus bons 60 anos (e bigode) concordou: “É carapau!”. Passa outra menina linda, de ar nórdico e camisa fina, nitidamente sem soutien deixando em evidências os seios. O “Ron” repassa as mãos no bigode instintivamente, enquanto se revira para acompanhar a passagem da moça, ele como todos nós, de olhos bem postos nas maminhas da bendita. Cumprimenta-se em júbilo com o amigo, felizes como crianças mas com uma luxúria muito adulta, pela bênção que a vida lhes acabou de presentear. E riem…

O “moço” tenta desesperadamente ouvir o relato do jogo da supertaça, mas capta cada vez menos sinal, que as rádios espanholas, muito piores na programação e muitos mais fortes na emissão, são cada vez mais omnipresentes. Parece que o FCP está a ganhar ao Setubal...pena!

O comboio, já em Espanha, continua a encher ainda mais. As espanholas, como as portuguesas, são pequeninas e arrumadinhas. Morenas e sensuais. Mas falam muito alto!

Já é noite. Muitos dormem e alguns roncam sem dó nem vergonha. Outros tentam não se impacientar com as muitas horas de viagem que têm por adiante. Um quadradinho atafulhado de bagagens é dominado por um amontoado jovial de varias procedências e destinos que, com a guitarra a dar o mote para uns coros acústicos, fazem lembrar as reuniões à volta da fogueira que os amigos tantas vezes improvisam em qualquer noite de Verão. Cantar em grupo é dos Yôgas mais poderosos e instantâneos que podemos praticar. É tão agradável a profunda e serena a sensação se integração…é mágico!

A feira ambulante continua em direcção a Irún-Hendaye, com destinos mais longínquos, ainda além de “Paris Francia”. Saio para escala em Salamanca para a minha conexão em direcção a casa. Casa?!? Sim, também, cada vez mais.

A procissão passa e eu fico feliz por não mais seguir esse cerimonial dos Agostos deste comboio. Saio e aproveito as próximas 4 horas para me colar a outro ritual, este bi-semanal e muitoo mais massificado, mas igualmente cheio das suas regras e rotinas, esperanças e desacertos: o rito dos fins-de-semana à noite! É só juventude com o cio…e a noite de Salamanca é uma bela eucaristia!
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14.8.06

Sugestões para o lazer de Verão...

Livros e filmes...

Estou a ler um livro óptimo: A lua pode esperar, do Gonçalo Cadilhe. Sugiro. De seguida vou ler o anterior dele: Planisfério pessoal.
Outro óptimo que estive a rever (as notas e sublinhados) foi um que li há mais de um ano: Turista espiritual, de Dick Brown. Uma viagem não só física, mais pelas ideias e conceitos de um oriente (Budismos e hinduísmos) já muito ocidentalizado. Divertido, curioso mas céptico q.b. , leve mas nem por isso menos profundo, lucido...
E se a onda é mais cinema, sugiro: Requiem for a dream. Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Um pouco pesado, mas para quem não se incomoda com isso, ótpimo. Talvez aquele que melhor transmite a ideia de como a TV, os ideais ou até a esperança, podem ser tão dependentes, alienantes e devastadores como qualquer droga... E como uma das actizes mais bonitas dos nossos tempos.
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12.8.06

Diário de uma vida banal...

48 horas de mais um Verão...

Episódio 1- Descanso merecido entre amigos e família

Uma animada conversa sobre filosofices com um amigo que inesperadamente apareceu e ficou. Uma outra conversa mais amena, tão rara, sobre vários assuntos nos quais concordamos em quase tudo! Ainda mais raro! Umas horas de sono num quarto e cama sozinho! Ainda mais raro…

Ia tudo tão bem!

Episódio 2- É fácil encontrar o paraíso

O meu amigo acordo-me, mais tarde que o previsto, mas ainda cedo o suficiente para uma surfada matinal! É bom ter amigos assim!

Lá fomos á Praia do Norte que neste dia não estava num dos seus famosos dias de ondas gigantes e assustadoras. Estava pouco mais de meio metro nos "sets", lá bem para o fundo da praia, naquela parte que já só se vê mar e dunas. Pouca gente. A agua transparente esverdeada. A luz brilhava na areia do fundo. Estava muito bom estar ali. O cenário era lindo e o prazer intenso. Comecei a sentir-me muito bem, como tantas outras vezes me senti em situações parecidas nestas praias desta mesma Costa azul! Por momentos deste calibre vale a pena viver e enfrentar muita coisa.

A vida é bela, gritava eu por dentro.

Episódio 3- Um equivoco da merd##!

Episodio 4 – Cowboy do asfalto versão Antonina

Meia hora depois do episodio 3 ter terminado já estava em exibição o episódio 4.

De novo em marcha na estrada para resolver problemas de outros.

Sim, porque problemas, perguntas, nãos, queixas, pedidos, exigências, direitos, criticas, destruição e negatividade em geral é o que de mais comum a maioria das pessoas tem para contribuir neste mundo. Já dar, construir, sim, deveres, respostas soluções e resolução efectiva dos imbróglios da vida é coisa rara que escasseia em quase todos…

Cenário: EN nº1, cruzamento com semáforo na subida da Azóia a chegar a Leiria.

Para abreviar. Não respeitei as regras de trânsito em Portugal. Como se sabe aqui, ao ver o sinal amarelo e perceber que não dá para passar antes do vermelho, acelera-se! Eu resolvi parar! Sou burro mesmo. Nesse entretanto um camião TIR que vinha na faixa ao lado, resolveu mudar de faixa para ultrapassar outro camião e veio na minha direcção em pleno fôlego! Quando me viu a para já só teve tempo de simular uma tentativa de abrandar. Eu vi-o pelo retrovisor (nunca vi o símbolo da Scania tão grande!) e mais me pareceu a um comboio desgovernado a vir na minha direcção. Só tive tempo de soltar o pé do travar e esperar o impacto meio segundo depois. BUUMM! Foi tão forte e rápido que nem me lembro dele. O carro deslizou a grande velocidade 100 metros recta acima até eu o parar contra a berma. O meu pescoço já denotava ter feito um grande esforço, e o meu banco estava todo para trás. O carro tinha 40 cm a menos. Pareceu-me estar tudo bem!

Quando percebi que estava vivo sai e fui resolver a questão! Pormenor: não tinha nenhum documento pessoal (roubados dois dias antes em Lisboa), estava de chinelos (ilícito), não tinha telemóvel nem sabia números das pessoas a quem devia ligar. E a minha mãe estava em Leiria a minha espera pois tinha acabado de chegar de um voo intercontinental! Mas uma hora depois a mãe já estava em casa, e eu tardei nem duas horas a resolver tudo, encaminhar o carro para a oficina, e ir para casa tomar um banhinho refrescante que nessa altura me pareceu um presente do céu!

"Instabilidade é a minha essência diz a roda…"

Shiva me livre!

Episódio 5 – À volta da mesa tudo se resolve

Já me casa, com comidinha, família, amigos e companheira tudo se recompôs num agradável serão, com direito àquela vista maravilhosa que a Nazaré proporciona á noite.

O sono prometia ser recompensador e pôr-me de novo em forma para no dia seguinte repetir tudo de novo!

Episódio 6 – A Vida é bela de novo

Pequeno almoço na melhor varanda que conheço: na Nazaré. Ainda cedo cheguei á praia. Estava muito agradável. Caminhei um Km pela berma e vi-me no meio de uma das paisagens mais bonitas que as praias portuguesas têm para oferecer. Sem casas, sem gente, dunas altas e baixas e um mar verde claro transparente com agua quase morna. Comecei a ouvir só o som da minha respiração e dos meus passos. Parei sentado a comtemplar e ouvi o meu coração. Vi umas ondinhas pequenas e muito divertidas até á beira. Entrei sem fato e sem cordinha. Duas horas da surfada mais divertida que tive nos últimos anos. Mais de 20 ondas, algumas até cravar as quilhas na areia. Lindo. Com a maré cheia demais larguei a prancha e fiz bodysurf no shorebreak durante mais uma hora, ao sabor da corrente. Lindo. Já não me sentia tão absolutamente satisfeito e realizado há bastante tempo. Memórias dos verões dos anos 80 quando os meus dias de verão era puros. O máximo tempo na praia com os amigos. O maior numero de "carreirinhas" possível. O bronze mais bronze que se conseguisse. Ir para casa só depois do por do sol mais bonito do mundo, atrás da Pedra do guelhin, na Nazaré.
Bons tempos. Hoje voltou a ser assim.

Aleluia!

Diria que o dia estava a ser perfeito. Diria. Mas não posso dizer, pois, talvez por não mais ser criança, não consegui evitar ouvir-me a mim mesmo pensar: "o que raios me passará hoje á tarde?!?"

Episódio 7 – Um epilogo sem fim!

Posso dizer o que se passou a seguir. Mais praia e casa. E principalmente não se passou absolutamente nada de interessante e importante. Quer era precisamente o que eu queria.

E amanhã?
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1.8.06

Ser aventureiro!

A realidade é. Ou melhor: vai sendo.

Tudo muda sempre. Tudo muda para ficar exactamente na mesma. Mas muda!

Se alguém tenta não mudar…muda! Porque o seu entorno muda e ninguém é independente do seu contexto! Para estar integrado é preciso estar sempre a acompanhar as mudanças, mudando! Se não fazemos esse esforço evolutivo a vida descarta-nos rapidamente. Desintegra-nos. Primeiro dá-nos a solidão e depois a morte, que são a mesma coisa em fases diferentes.

Há que mudar, portanto.

Para manter o fluxo evolutivo o que é preciso é não criar obstáculos. E os obstáculos são sempre derivados dos medos. Medo do desconhecido, do diferente, do novo, medo da própria mudança!

Os medos paralisam e cristalizam. Os medos fecham-nos. Bloqueiam-nos nos nossos próprios paradigmas que se tornam nos nossos dogmas, que ao não evoluírem se tornam velhos e dispensáveis. Quando nos agarramos às pessoas ou aos nossos conhecimentos (muitas vezes meros preconceitos e superficialidades) e nos seguramos a eles desesperados para não cairmos, ao invés de fazer deles a luz que nos permite ver mais além, outras coisas, outros conhecimentos, estamos a bloquear a nossa própria evolução. Quando, para não ver outras coisas e suas possibilidades, criticamos, por insegurança, tudo o que seja diferente e novo e que não encaixe nos nossos esquemas, então o próprio mundo se afasta de nós.

É preciso manter um espírito aberto. Quase aventureiro.

Não é preciso fazer loucuras, saltar de cabeça, sem rede, em precipícios. Tentar os limites de forma radical, perigosa e até alienante, é um sacrifício que a vida cobra, mas não a todos.

Não é ser instável, nem muito menos trair. Não se trata de confundir e misturar tudo. Não se trata de nos perdermos e sim de nos encontrarmos. Como li algures: “Ao ter um maior conhecimento da diversidade do Universo, o Homem torna-se mais determinado e seguro das suas posições, já que tem noção do porquê de as escolher, bem como da razão pela qual não opta por outras (sendo que as conhece), assim é senhor do mundo que o rodeia, torna-se bem mais estável…não é ser indeciso, é saber decidir, não é ser incapacitado de escolher um lado, é ter a capacidade de saber se está no lado certo. Não é comer tudo, é saber o que se come (e o que não se come)…”

Basta estar curioso. Ser curioso da vida! Estar genuinamente interessado no devir. Interessado em ver e ouvir. Em descobrir. Ter confiança em si para deixar-se surpreender. Saber estar receptivo aos acasos que fazem a evolução. Cultivar o prazer de conhecer o que é diferente, quem é diferente. Perceber que estar integrado e estável no meio da instabilidade requer saber fluir com a instabilidade, ou ainda melhor, ser o seu criador. É preciso estar acessível a experimentar novas formas de estar. E arriscar, um pouco…
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24.7.06

No meio está a virtude

Criatividade, individualismo e grupos

Ontem, numa conversa animada com uma amigo daqui, que é dos gajos mais cultos e inteligentes (e desequilibrados) que já conheci, ouvi uma frase que me fez pensar: “acredito que uma pessoa inteligente e criativa não consegue fazer parte de um partido.” (aqui referia-se a grupo político, mas poder-se-ia estender a qualquer tipo de grupos)

Bem, já se sabe que os grupos tem mais poder e importância que uma pessoas individual (pois são a União de várias pessoas), e que por isso se lhe sobrepõem. E que os interesses do grupo (de várias pessoas) prevalecem sobre os do individuo (uma pessoa só). E que os indivíduos que pertencem a qualquer grupo têm de assumir compromissos e fazer cedências ao seu individualismo para se encaixarem nesse grupo. E que para uma pessoas criativa isso pode ser algo complicado e difícil, pois a criatividade tende a ser espontâneadade e nem sempre se coaduna facilmente nas regras que impõem a ordem nos grupos…

Senti-me tentado a concordar.

Mas depois lembrei-me que os grupos conseguem fazer coisas muito boas que uma pessoa só não consegue. Lembrei-me de muitos grupos onde coabitam muitas pessoas muito inteligentes e criativas, que alimentam esses grupos com a sua inteligência e criatividade. Reparei que há grupos que são, eles mesmos, inteligentes e criativos. Percebi que a criatividade individual não é independente nem antagónica à dos grupos, e muitas vezes até é estimulada e possibilitada por eles…

Ou seja, essa ideia que as pessoas inteligentes e criativas não se coadunam a grupos é apenas e só falsa. É uma ideia que os muito individualistas utilizam para justificar a si mesmo e aos outros que a sua incapacidade de União e integração, se deve ao seu génio incompreendido pelo conservadorismo castrador dos grupos.

Mas…de facto, os grupos muitas vezes são, não apenas uma limitação à expressão individual, mas realmente castradores e repressores da criatividade pessoal.

Assim, nessas lutas de egocentrismos entre os grupos e os indivíduos, como sempre, o meio-termo acaba por tomar o maior espaço. Tende a haver espaço para a maioria das expressões, tanto grupais como individuais. Mas esse espaço nunca é absoluto nem para os individualismos nem para os grupos. Tudo é uma questão de grau e “no meio está a virtude”. Os grupos continuam a dominar simplesmente porque são maiores, até porque que todos fazem inevitavelmente parte de grupos. E se um individualista for muito egocêntrico e tiver algo importante e válido para dar á vida que não se encaixe nos grupos já existentes, tende a autonomizar-se e a… formar o seu próprio grupo!

Eu, mal educado e egocêntrico, provavelmente por genes e cultura, claustrofóbico, não só física mas também emocional e mentalmente, com tendência exacerbada para o individualismo, estou a tentar equilibrar-me, num esforço que creio ser de maturidade e lucidez.

Creio que é lucidez e maturidade perceber que em sociedade, muito mais que sonhos idílicos de “liberdades”, o que realmente existe são as interdependências. União. A União faz a força. Dá força. Ajuda à realização da Vida. Incluindo à realização da vida individual. E até dá um grande gozo encontrar e construir identidades comuns.

Assim, faço um esforço. E ao fazê-lo vou percebendo que as terríveis limitações que eu vi anos grupos afinal são, acima de tudo, as minhas próprias neuroses, psicoses e incapacidades de relacionamento. O meu individualismo era a minha solidão, a minha prisão. À medida que consigo soltar-me e entregar-me mais (não me é muito fácil) percebo que a liberdade se consegue também e sobretudo por integração. E é essa a grande aspiração e natureza do Homem.
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21.7.06

Picos de vários tipos...

Montanhismo

Aos poucos vou entrando no mundo do montanhismo.

Gosto das montanhas. Dos espaços amplos, abertos, desérticos e selvagens. Prometem e permitem alguma aventura, desafio, contemplação, beleza… É como o mar.

E as montanhas também são uma metáfora. Tal como os montanhistas se expressão e descobrem na montanha, conhecendo os seus limites e ultrapassando-os, alcançando metas que talvez não imaginassem, também a vida está plena de “montanhas”. Montanhas muito mais íngremes e imprevisíveis. São picos e encostas que se formam a todo o momento em todos os aspectos da existência.

Por exemplo, no campo dos relacionamentos. E claro, nos amorosos, os mais desejados e altos de todos. Os desafios que se revelam são oportunidades constantes para nos conhecermos melhor. Em detalhe. Aí encontramos todos os nossos condicionamentos, tendências e limites. São montanhas eternamente cobertas por um manto de fogo que chama na sua direcção e que nos obriga a aprender, auto-superar e evoluir. Ou pelo menos mudar.
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19.7.06

Será assim?

Meditações de uma tarde em León

Mais uma vez tentei colmatar uma minha debilidade cultural: o culto ritualista católico. Vulgo: missa.

Adoro catedrais: frescas e amplas. Estava na de León e tinha uns minutos. Aproveitei a missa a decorrer. Entrei.

Pela primeira vez tive pena de não ter mais tempo. Acho que tinha conseguido manter-me o tempo inteiro da cerimónia. Mas só tive tempo para o Sermão! O padre falava claro, não murmurava. E mais: deu SERMÃO! Doutrina, moral. Aleluia. Não só leu porque tinha de ler. Estava mesmo empenhado. Quase irritado. O papa estava para chegar a Valência em uma semana e isso deu-lhe força! É engraçado que, sendo eu aquilo que se chamaria facilmente um relativista, e não comungando em quase nada com o dito no sermão, não consigo ficar indiferente a palavras fortes! Mas isso é outra conversa…

O Sermão era precisamente contra aquilo que o sr. Padre resumia em uma palavra: relativismo! Que na sua boca era outro nome para o próprio diabo! O pecado moderno, que corrompe tudo. A causa de todos os males. De todo o sofrimento e da própria morte (não estou a exegerar). E o que é esse relativismo? É simplesmente o facto de não reverenciarmos a Igreja Católica e os seus dogmas, ensinamentos e valores. Sendo que o valor primordial é a própria Igreja e os seus veículos (padres, patrimónios, etc.). Como é possível que algo que demorou séculos a ser construído e que era um pilar fundamental da sociedade agora seja encarado como algo fora de moda, e apenas uma mais ao lado de muitas outras espiritualidades, concorrente de todo o tipo de paganismos? Valores que eram sagrados agora são postos em causa com toda a leviandade e até ignorados por completo. O bem e o mal já não são ditados uniformemente segundo os preceitos e interesses católicos, e até há quem ache que não existem…Escandâlo!!!Enfim, a cultura e a verdade deixaram de ser manipuladas por mãos católicas, e caíram nas mãos de todos aqueles que a quiserem agarrar! Uma espécie de vale tudo, onde alguns se encontram e onde muitos mais se perdem, no jogo do: “salve-se quem puder”! E não era assim também na epoca dominada pelo catolicismo? Para os saudosistas dessa época não. Deve ser mesmo difícil de aceitar para quem é de dentro da instituição. E ainda deve ser atractivo para muita gente, porque as ancoras dão uma certa estabilidade perante tempestades, neste caso culturais.

É sempre a mesma coisa: quem está institucionalizado não lida bem com a diferença, com o novo. Aliás, acaba de fazer do imobilismo e cristalização a sua própria força! Ou pelo menos tentam.

Mais meditações…

Acho as grandes catedrais incríveis. Grandes, imponentes, frescas. Destacam-se imenso, mesmo em cidades grandes, E ainda muito mais em pequenas.

Fico sempre pouco satisfeito com as explicações de que as grandes catedrais e mosteiros foram construídos por motivos comemorativos e espirituais! Tipo para agradecer uma vitória militar ou uma visão espiritual qualquer…

Caramba! Essas catedrais são imensas! Mesmo para os padrões de hoje. Foram (e seriam, ainda hoje) construções caríssimas. Imagine-se na época medieval! Será que alguém faria uma expo 98 só por um simbolismo comemorativo? E devemos aceitar que naqueles tempos construíam algo que equivale a 10 Expos 98 somente para agradecer uma visão de um santinho? Não. Havia com certeza motivos económicos. Diria mesmo sócio-economicos. Naqueles tempo essa linguagem não se utilizava. A cultura era mais “religiosa” e expressava-se como tal. Mas os factores económicos existiam. E de certo foram preponderantes. Assim como as manobras politicas, o favorecimento de determinadas ordens, etc.

Talvez seja demasiado cínico, relativista e pós-modermo. Mas não me convencem que construíam algo que demorava séculos e envolvia muita gente e recursos só por simbolismos.

O que é certo é que construíram. E ainda hoje esses edifícios são dos maiores, mais imponentes e agradáveis das nossas paisagens. Só de estar ao seu pé já despoletamos um sentimento perfeito do nosso tamanho real: quase nada!
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16.7.06

Ufa!

Semana a 108 á hora...

Chegamso ás 06.00 de segunda. Ás 10 já a Unidade abriu. Acabar de preparar o curso deste Sábado (que correu bastante bem - 16 pessoas!!!), tratar dos impostos, demonstrações de coreografia, aula no jardim...quero um dia inteiro sem nada para fazer!!! Quero estar quieto. Só. Meditando, ou até sendo meditado...
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10.7.06

Bom fim de semana

Muito bom fim de semana

Pratica na medida certa. Surf, perfeito para quem nunca tinha feito. E matar saudades...dos ares lusitanos, de caras antigas que reaparecem, outras que são as do costume, outras novas. Gente de todos os generos, pais e filhotinhos...Praia, bom tempo, descontração, bom ambiente...humm, se fosse sempre assim! Já tou de volta. Em breve REvoltarei!
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