18.10.06

Iniciação ao Treking de montanha

Vale dos domingueiros

No Domingo lá fui, finalmente, estrear-me no treking de montanha nos Picos da Europa. Fui com uns alunos já experientes de quase 20 anos na questão. Já subiram a quase todos os picos, mas alguns ainda resistem, não tanto pela dificuldade do cume mas por questões metrológicas ou simplesmente por outras prioridades. É o caso deste que queríamos subir, ao lado do Vale dos domingueiros, e que não me lembro o nome.

Este tipo de actividades por aqui é do mais comum. E atraí gente de toda a Espanha e de toda a Europa. Não tem alturas muito espectaculares (máximos de 2750 m) mas tem uma quantidade e variedade de picos espectaculares, alguns dos quais tecnicamente estimulantes e com desníveis assinaláveis. E para escalada tem o famosíssimo “Naranjo de Bulnes” (na foto), um paredão enorme, no maciço central.

Há cabanas, covas e refúgios para passar as noites, mas a maioria dos picos pode-se subir e descer numa jornada.

Lá fomos nós, numa parte do maciço oriental, já parte da federação Cantabra de Alpinismo (de Santander), a cerca de 1 ½ daqui. Queríamos subir a um pico que não alcançamos, pois subimos lento e os meus parceiros tinham um misto de cansaço e pressa para vencer os últimos cumes. Pelo meio passamos muita rocha, uns vales lindos e umas vistas fabulosas lá em cima. Até houve direito a uns “aéreos” fáceis. Aéreos são passagens verticais de escalada. Fizemos um desnível de cerca de 1500 m, para um percurso de cerca de 10 km ida e volta, grande parte do caminho sem caminhos ou sequer trilhos. E como já tinha ouvido, a descida é bem mais dura do que subir. Não só pelo cansaço acumulado, mas também pelo perigo.

Adorei. Para mim, que não tenho pretensões de alpinista, a satisfação é estar ali. Andar por ali. Ver as vistas. Respirar fundo, Fazer exercício “natural”. Desfrutar de estar em espaços abertos e (quase) desocupados da pressão humana.

Voltarei.
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12.10.06

Sugestões culturais...

Livros
Nunca li muito. Muitos livros, especifique-se. Devo andar na média de uns dez por ano (extra os profissionais), e desses nem metade são ficção. Sou da era mais “visual”. Em duas horas tenho acesso a uma história com palavras, imagem e som! Quase dá para dizer que não dá para competir com isso...mas dá! Ler, por si só, compete com isso. O que o leitor perde em estímulos externos ganha em actividade interna. Em interpretação e imaginação. E não é preciso ser um grande leitor para saber que a riqueza de um romance escrito raramente pode ser alcançada por um filme, mesmo pensando nos melhores.

Isto a propósito de quê?

Acabei de ler mais um. O outro de Gonçalo Cadilhe. O seu primeiro. Planisfério pessoal. A sua volta ao mundo por terra e mar. Pouco mais que as crônicas publicadas pelo expresso ao longo de quase dois anos.

É um gajo lúcido e despretensioso, que construiu e se encontrou nesse estilo de vida, através do qual se descobre a si e ao mundo. E o mais engraçado é que ele não faz nada o tipo “aventureiro”. É quase um betinho! É surfista, mas isso não aparece nas crónicas. Básicamente é um português de classe média, um gajo absolutamente normal, que não estava disposto a ter um emprego das nove ás cinco e se tem devotado ás viagens que tanto gosta. E esse empenho acaba por lhe render frutos. O fruto do reconhecimento e do sucesso. A retribuição.

A viagem está bem passada a escrito. Não é poema nem prosa da mais elevada, mas tem uns quantos momentos bem inspirados. Não é um roteiro pelos locais mais turisticos do mundo, mas também passa por alguns. Não é o prototipo de acção, tensão e emoção permanente, mas tem os seus momentos quentes. Não é uma contemplação ingénua, idealista nem critica, mas também contém um pouco disso tudo. É, acima de tudo, a vivência pessoal do autor. E é interessante. Para mim foi uma delica. Fez-me viajar com ele. E sobretudo deu-me ganas de viajar mais. O que é que se pode querer mais?

Entretanto voltei ao que lia antes: Memórias de Adriano, da M. Youcenar. Outro genero. Outra pretensão. Outra categoria.
E por falar em sugestões culturais: ontem vi "Os Borgia", a última grande produção espanhola. Um retrato de um papa e o seu clã. Um papa espanhol. Como diria o meu amigo José: "assim somos os espanhóis: ambiciosos, sanguinários, depravados!"
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29.9.06

Historial de tábuas...só para surfistas!

A prancha mágica

Comecei a fazer bodysurf pelos meus 8 anos, na Nazaré. Aos 12 tive a minha prancha de bodyboard (umas azuis, sem laminado…rsrsr). Aos 13 anos (ainda nos anos 80!!!) tive a minha primeira prancha de surf. Uma Hot Butterhead (Australiana) que o “Grilo”, o surfista mais antigo da Nazaré e amigo dos meus pais, comprou a um “bife” e revendeu aos meus pais, para mim! Era uma 6´5 toda azul, grossa e larga, round tail, V entre as quilhas… era uma prancha qu enaqueles tempos se usava para ondas médias e grandes. E foi nela que aprendi nos dois primeiros anos. E a minha irmã ainda fez nela as primeiras ondas. Hoje pagava para voltar a tê-la.

Depois comprei uma Pólen numa surfshop da Nazaré. O motivo da escolha foi o “airbush”, mas acabou por ser uma boa escolha. Era moldada pelo melhor shaper português de sempre, e fundador da própria marca: Fernando Horta (já falecido).

Depois dessa já tive umas 10 mais. E surfei com umas 20. Várias delas de segunda mão, que isto das pranchas é como nos carros: mal se compra já desvalorizou quase metade. Comprei a "pros" em campeonatos, a amigos, a fábricas de pranchas sob medida, em lojas de segunda mão...

Quando comecei só havia pranchas de surf e body board. Era simples.

No inicio dos anos 90, por influência de uam nova geração de surfistas profissionais (a do kelly Slater) que apareceu a fazer manobras muito radicais, as pranchas ficaram muito finas, estreitas, e com muito rocker. Óptimas para surfistas profissionais, jovens, leves, com óptima técnica, que conseguiam não só aproveitar a energia da onda, mas também gerar força própria, mantendo essas pranchas em movimento contínuo. Mas para um surfista médio, ou, pior ainda, para um surfista fora de forma e fraca técnica (como eu, por exemplo) essas pranchas não eram boas. Remavam pouco e afundavam o rail. Não funcionavam nada bem. E isso começou a abrir-me a cabeça para outras possibilidades. E não só a mim.

Entretanto começaram a (re)aparecer os “longboard” que rapidamente adquiriram estatuto e categorias competitivas. Mas era uma coisa de surfistas antigos, fora de forma que queriam surfar ondas pequenas. Das “longboard” desdobraram-se as “Malibu”, que básicamente são “longbords” mais curtos e menos volumosos. Por volta de 1992, o Tom Curren surfou um “heat” num campeonato em Biarritz com uma prancha “fish” biquilha do inicio dos anos 70, que eram as precursoras das biquilha que estiveram de moda no final dessa década. Como até ganhou o dito heat (contra Matt Hoy) lançou a moda dessas pranchas, as quais inclusivamente testou no Hawai em ondas relativamente grandes. Essa moda tem vindo a ganhar cada vez mais espaço, e está hoje no auge. Pranchas pequenas (até 6´0), com o tail largo em forma de rabo de peixe e vários tipos e números diferentes de quilhas (de 2 a té 4). São pranchas muito rápidas e soltas em ondas pequenas! Essas pranchas abriram espaço para toda uma moda de pranchas “retro” que são imitações puras ou adaptadas de modelos antigos, a maioria dos anos 70 e 80. As dos anos 70 são sobretudo exercicios de estilo e nostalogia. As dos 80 são pranchas normais, de alta performance, que são demandadas por surfistas que querem manobrar bastante, mas sem a fundarem! Junte-se a tudo isso os modelos “híbridos”, que mesclam características de alguns desses modelos, e ainda o facto de a industria estar a sofrer uma revolução com a introdução de novos materiais e métodos de construção, e chega-se a este situação actual em que há muitas possibilidades de modelos absolutamente diferentes disponíveis, o que é bom, mas que faz o pessoal andar meio perdido perante tanta opção, pois a maioria não tem nem $ nem tempo para experimentar nem uma pequena fracção do que há para aí.

Eu pessoalmente estou desejoso para experimentar um desses híbridos, feito pelo Lufi (dá gosto ver o sucesso que faz por aqui) que é 6´6, triquilha, grossa, pouco rocker à frente, rails bem deitados atrás metade da frente longboard, metade de trás prancha normal… Deve ser óptima para onda pequena até 1m.

Voltando atrás…

Ainda lá na década de 90, quando ainda se compravam muitas pranchas aos estrangeiros nos campeonatos, e as noticias eram via revista de surf, (a mais presente era a Fluir, que chegava com 6 meses de atraso (!) e a Surf Portugal, ainda nos primeiros passos), eu estava muito interessado no surf. Ia aos campeonatos, lia tudo o que podia sobre o assunto, via os raros filmes que apareciam muitas vezes, em câmara lenta, e sobretudo tentava ir o máximo de vezes possível ao Baleal, a minha “Meca” surfistica. Também media as minhas pranchas e procurava falar com shapers e surfar com o máximo de tábuas diferentes para perceber como funcionavam. E percebi. A única coisa que não fiz foi fazer uma. Mas de resto fiquei a perceber bastante bem todos os aspectos de uma prancha de surf, com excepção das quilhas, cujo design ainda me é algo nublouso…

Por essas alturas eu já sabia que queria uma prancha um pouco mais volumosa do que estava na moda. Percebi que precisava de mais volume no rail ao meio para não enterra-lo e cair, pois, no meu caso, faço mais força/peso no pé da frente. O rail atrás deve ser fino e deitado para entrar bem com a pouca força que faço atrás, e prefiro pouco rocker (curva de fundo) à frente para remar melhor, e mais atrás, para ficar mais manobrável…

Mais ou menos quando estava a perceber tudo isso no meu surf e nas pranchas encontrei a minha “prancha mágica”! (Uma variação daquele ensinamento: “quando o discípulo está pronto o mestre aparece”).
A prancha mágica é aquela em que nos encaixamos com facilidade, conforto e que nos dá confiança plena e nos permite extrair o melhor das nossas possibilidades e da onda. Aquela que faz com que o surfista a própria prancha e a onda se conectem com perfeição.

A minha prancha mágica era…muito velha! O meu amigo/treinador tinha-a comprado a um “bife” no Baleal que por sua vez a tinha comprado ao Tom Curren. Entretanto tinha vendido a outro amigo alcobacense que nunca a usou. E já não sei porquê veio parar ás minhas mãos por empréstimo. Estava com alguns buracos mas ainda em razoável bom estado. Restaurei-a a primeira de várias vezes em menos de dois anos! A prancha era de meados dos anos 80. Uma
Channel Island (curiosamente shapeada por Doug Bell, um dos seus shapers empregados). 6´0, 19 ½, 2 ½, o típico shape do Al Merrick, com squash tail e wing, um shape que esse consagradíssimo shaper ainda vende como clássico!

Surfei melhor nessa prancha que em qualquer outra antes ou depois. Sentia-me confiante para take off atrasados e até para surfar supertubos com 1,5-2m. Apesar de ser uma tábua para ondas até metro, entrava com ela sem problemas no Legide com 2 metrões! Nunca enterrava o rail, remava bem…enfim! Era perfeita, para mim!

Tinha amigos que riam da minha prancha tão velhinha. Parecia um tronco! Não entendiam. Mas também não tinham de entender…o prazer era todo meu!

Tentei encontrar outra, mas ainda não consegui. Novas são caras. E também há que ir experimentando coisas diferentes. Mas ainda sonho com essa prancha.

Agora estou com uma Lufi que não é má, mas também não é nada de especial. E não a vou reformar tão depressa. Quando tenha $ ou invisto numa CI clássico, como a minha mágica, ou mando fazer à medida, exactamente como eu sei que gosto: 6´3; 20`; 3`, round pin, V suave entre as quilhas…Grossa, larga, rema muito bem, e serve muito bem para todo tipo de ondas até 2 metros. E mais eu não surfo!

Claro que nisto das pranchas, onde a manufactura ainda é rainha, nunca se sabe se a prancha funciona bem ou não até a experimentar, debaixo do pé, na onda…

Espero que se é surfista também possa encontrar a sua prancha “mágica”. É uma sensação muito boa.
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Registos...

Sempre mais além...
Já lá vão dois anos de blog. Ideia que tive depois de ver de um amigo, que aliás tem sido profícuo mas que agora aprofundou o seu “retiro espiritual” acabando com o último blog que tinha.

É uma boa forma de ordenar as ideias, ao escreve-las e publicá-las deixando-as ao exame de uma audiência muito reduzida, mas exigente e que merece respeito. E pelo meio ainda se vai comunicando com quem está longe e deixa saudades. E até conhecendo outras mentes interessantes. Por ventura até mais interessantes que a nossa, não obstante o nossa vaidade...

Entretanto sugeri e incentivei outras pessoas que achei que poderiam ter algo de positivo a acrescentar à blogoesfera. E através dela à esfera de cada um. Afinal, estamos aqui para partilhar e dar ao mundo o que tenhamos de melhor e positivo. Daí surgiram vários bloggers e ainda mais blogs. Bolhas de pensamentos, partilha de experiências e simples momentos…coisas boas.

Recomendo este registo. Um amigo com uma vida interessante, a qual sabe por em escrita e nos dá a honra de compartilhar. Aproveitando-se as suas experiências pessoais, algumas delas bem longinquas, vai dando as suas opiniões sobre vários temas, pessoas e lugares. Aprende-se algo, amplia-se horizontes e extrai-se prazer da simples leitura. Faz parte das minhas leituras diárias. Acredito que dali ainda vai sair um livro. Ou pelo menos algo mais…

Aproveitando para enviar uma grande abraço e muita: Força Jó!
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24.9.06

Consciência eco

Climatecrisis
Embora eu não seja, de todo, um eco freak, e de detestar as modas irracionais baseadas em medos e tantas vezes "anti-humano", acredito que ter atenção a estas questões é importante. Não por idealismos, mas por puro sentido práctico!
Está aí mais uma chamada de atenção e alerta: Site e trailer.
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20.9.06

Domingo no rio

Baixar o Sella!

No fim-de-semana passado fomos realizar (mais um) projecto antigo: baixar o rio sella em canoa.

O rio sella baixa dos Picos da Europa através de regos e vales que a própria água esculpiu. E continua a esculpir! E desagua em Ribadesella, uma pequena e agradável cidade, que neste momento é bastante notória por ser a cidade natal da actual princesa da Astúrias…

Quando chega a Cangas de Onis, já mais a baixo no vale já está perfeito para ser usufruído até por intrometidos inexperientes como eu, a Joana e o Telmo. O Telmo é um portuga que aqui apareceu há duas semanas, formado em educação física, mas que está aqui a dar aulas de português a luso-descendentes! Um gajo fixe…

Nós apanhamos o Rio um pouco mais abaixo, em Arriondas, uma outra cidade que neste momento tem como actividade principal o turismo rural e principalmente as actividades ligadas ao “piraguismo”. Nesta zona há dezenas de empresas que trabalham muito bem todo este tipo de actividades: piraguismos de vários géneros; quads por trilhos de montanha e rio; treking; escalada, etc. Não é preciso marcar com antecedência, nem fazer qualquer tipo de preparativos. Basta aparecer. Por 23 euros (preço comum) aluga-se uma canoa e todo o material necessário para baixar 16 km de rio! Pode-se começar a partir das 11.00, demora entre 4 a 5 horas, há possibilidade de parar em cafés pelo caminho e até encurtar o percurso em outros “chek-points”. No nosso caso saímos no mais longínquo, que é a recepção mais comum da empresa que contratamos. Aí pegam em nós e devolvem-nos ao ponto de origem (a escola em Arriondas), em apenas 15 minutos. Banho quente e já está!

Turismo de qualidade! Recomendo. Perfeito.

O rio em si, nesta altura do ano tem pouca água e está manso! Ainda assim, o percurso tem cerca de uns 20 rápidos (menos lentos) que dão um pouco mais de emoção! De resto é o que pode imaginar, mas que recomendo ver “in loco”: o prazer da natureza por todos os lados, belas montanhas em volta, peixes a subir o rio um palmo abaixo da canoa, toda a percepção de tempo de que uma obra da envergadura de um rio transmite…e mais!

Conto só um episódio: um casal voltou a canoa em que ia numa zona mais funda e com corrente mais forte. A senhora assustou-se e foi para a margem o melhor que pode. O tipo entrou em pânico ao perceber que não conseguia segurar a canoa e ir ate à berma. Eu e o Telmo remamos para trás e salvamos a situação. E naturalmente ficamos contentes e confiantes. Umas curvas mais adiante resolvemos baixar pelo lado mais vivo do rio, e … viramos! Foi só rir.

Voltarei, provavelmente na primavera, com mais água, e possivelmente mais acima no rio, onde me dizem que tem um saltos mais…“técnicos”!

Entretanto, os próximos episódios prevejo que sejam passados na montanha. Em qual ainda não sei!

A Vida é dura. Tem coisas difíceis. É preciso trabalhar muito para poder usufruir da recompensa: ter tempo e energia ($) para si mesmo! Mas não se pode estar à espera de estar tudo perfeitamente estável, finalizado, pronto. Isso não existe. Há que viver o aqui e agora, e desfrutá-lo o melhor que podermos. Eu vim para as Astúrias pois acho isto um (meu) paraíso natural. E aos poucos o vou usufruindo. Cada vez mais!


E agora vou deitar que dizem que vem aí um furacão vindo do Atlântico…
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5.9.06

Compartilhando bons...

Momentos

São 13.00. Estou deitado. Absorvo os jactos intensos de energia solar. Abro os olhos lentamente. Volto a fechar. Volto a abrir para ter a certeza que isto não é um sonho.

A praia é linda. A mais bela onde já estive, costa azul e costa alentejana incluída. É daquelas que a arte de fotógrafos faz postais. Daquelas que revistas e agências vendem em negócios de milhões. Das que aparecem em filmes exóticos, de lugares longínquos. Mas esta está aqui ao lado de casa, nas “Astúrias: Paraíso Natural”!

O nome da placa é outro. Eu chamo-lhe: Éden.

Entro imediatamente no mar. A água está translúcida. Verde esmeralda. O chão, de areia, reflecte as ondas de luz. Paraíso.

Entro solto, sem nada que prenda a espontaneidade. Sem fato térmico, que a água do Cantábrico é morna no Verão. Sem “pés de pato”. Sem cordinha. Sem trapo algum, que no paraíso está-se naturalmente, como Adão e Eva vieram ao mundo. Se liberdade é desapego então está é uma experiência de pura libertação.

Partem, alternadamente três picos triangulares e altos de um bom metro. Ondas rápidas e curtas, mas intensas. Em pé e fortes, como eu gosto.

Ao meu lado, a poucos metros, levanta-se um grande paredão de pedra, permanentemente acariciado por ondas cruzadas que o beijam sem medo da rotina. É a direita desta baia abençoada. A luz matinal ainda não a despertou, e isso dá-lhe um ar ainda mais intimista.

Em frente um sentinela enorme disfarçado de rochedo resguarda ainda mais as portas do templo!

Uno-me com dezenas de ondas e através delas com todo o cosmos.

Por breves instantes lamento-me de não comungar com a minha prancha, que está a ser restaurada. Mas está bom de mais para penas. Regozijo-me pelo “Morey boogie Mach 7”, uma prancha absolutamente clássica, com a qual o maior surfista de todos os tempos ganhou muitos títulos mundiais. Com este elo me integro com a força do oceano. Arranco atrasado. Fico lá dentro. Ás vezes passo, até pelo interior. Tento “rolos” e “360”. Não acerto mas não faz a mínima diferença. Hoje, mais que nunca, tudo está absolutamente certo.

Grito vezes sem conta, de êxtase. Vida pura. Puro prazer.

Ser um Yôgi é unir todos os aspectos da consciência. Conseguir ser, ao mesmo tempo, absolutamente espontâneo na entrega e vivência, e também reflexivo, auto-consciente e experiente. Simultaneamente velho sábio e criança. Filosofia que une. Filosofia de vida. Hoje sou um Yôgi perfeito.

Após oito tentativas, saio do mar, depois de várias horas. Cá fora uma gatinha mia. Resisto pouco ao prazer. Volto a entrar. Agora sem prancha, ainda mais puro. Corpo e água directos e integrados em exemplar simbiose. Bodysurf. Os primórdios do meu surf. A origem de todo o surf.

É um sonho. É a mais pura realidade. Está perfeito. Dizer menos seria atraiçoar a criação. E se hoje é um dez absoluto, ontem foi um nove relativo.

Outros dias virão. Os tambores rugirão. Mas hoje não!
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28.8.06

Era doce mas acabou-se...

Férias

Tive um ano extremamente desgastante. Muitas e profundas mudanças, que me consumiram em esforço de adaptação e no intento de responder aos novos desafios que assumi, que no macrocosmo são minúsculos, mas no meu cosmo são macro.

Já estava mesmo necessitado de um belo descanso e de distracção. Estava quase...“sensível”, e qualquer um mais próximo que me conhece bem percebeu isso. Os mais atenciosos respeitaram e até ajudaram.

As duas semaninhas na lusitânia souberam-me muito bem.

Matei muitas saudades de muita gente querida com quem queria estar. Principalmente família e amigos. E de lugares também.

O aconchego da avó, da casa dos papás, da sempre bela Nazaré. Da minha querida Costa Azul. Das amenas noites de Alcobaça. Dos meus passeios “higiénicos” pela baixa de Lisboa e os seus alfarrabistas. Até deu para visitar a Praia Grande num dia de bom surf, que fechei com a contemplação do pôr-do-sol em Ribeira D`ilhas clássico.

Faltaram-me mais duas semanas para fazer mais, mais tempo, mais vezes, com mais calma. Faltou-me mais tempo para algumas pessoas, sobretudo amigos. Faltou-me estar num casamento onde até teria gostado de ir. Faltaram-me dois dias desejados para parar no sofá em frente da TV, absolutamente passivo. Faltou-me descansar de facto. Parar mesmo.

Foi pouco, mas foi muito bom.

No antes e no entretanto ainda tivemos o prazer de receber dois casaizinhos: Pedro e a principesca Davina; e agora: Carlos “Ruim” e a imperturbável Isabel.

E agora de volta à luta, que à sua maneira é muito mais realizadora. Prevejo e desejo que seja um ano de expansão e estabilização. Provavelmente tanto ou mais desgastante que este.
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22.8.06

Crónica de uma viagem

Sud Express

Viajo no Sud-express. Apanho este comboio assumindo uma situação que ainda não assimilei: sou "emigra".

A viagem começa antes mesmo do embarque. E já me vai lembrando que Portugal ainda não está no 1º mundo. Até já temos computadores e Internet, mas muitos dos operadores (e clientes) deste país profundamente estatalizado, ainda trabalha numa produtividade do século onde se formaram: o século XX português, que, na maioria dos casos, foi o equivalente ao século XVIII de outros países ditos mais desenvolvidos.

O vendedor disse-me que já não havia bilhetes no comboio de hoje, pelo que lhe pedi um para o dia seguinte. Passado uns minutos, já mentalizado para mais um dia de férias na terrinha, apareceu-me com o bilhete para hoje…

Somos uma comunidade transeunte composta principalmente por emigrantes e jovens a fazer o “interail”. A maioria dos outros passageiros deve mais facilmente identificar-me com um desses jovens cada vez mais iguais, que também já fui há dez anos atrás. Mas agora, depois já em andamento, estou consciente que estarei mais bem integrado na categoria do emigrante. O "emigra" português, essa casta tão especial.

Viajo uma vez mais neste corpo expedicionário que leva de Portugal em direcção à Europa. Em direcção…porque a sensação que dá é que Portugal é um país desaparecido num seu próprio “quadrado das bermudas”, entre Europa, as Américas e Africa. Pelo menos temos um bom posto de observação! E é uma contemplação desta boleia que aqui deixo.

Passou há pouco por mim um "portuga" daqueles que nos dá orgulho. Bigode, cabelo moreno encaracolado, baixinho e gordito, mas aperaltado com vaidade e com maneiras de pintarola. “Á pois!”. Fala muito. E ri. Para mim é uma versão mais autêntica e melhorada do Ron Jeremy, embora não tenha chegado a exames mais detalhados!

Nesta viagem (alucinógénica?!) traçamos uma transversal do país, de Lisboa a Vilar Formoso. Do nosso mais “in” ao nosso mãos “out”. “Out” de abandono e atraso.

Partimos do nosso litoral, a nossa faixa de solo fértil onde plantamos cada vez mais prédios, servidos por um número cada vez maior de novos e velhos caminhos, que mesmo assim ainda são insuficientes. A nossa ex-agricultura das hortas de subsistência, perde-se num labirinto cada vez maior, aparentemente sem fim, onde é impossível percorrer um minuto sem ver sinais de humanidade. Sempre sonhei e viajei à procura das praias, florestas e campos sem sinais de ocupação, onde o olhar se perde no horizonte, sem perceber confrontos e apertos entre irmãos. Aquelas paisagens que se vêm ás vezes nos filmes “amaricanos”. Imagino os problemas urbanísticos e burocráticos de correntes da nossa (des)ordenação do território.

Já vamos com uma hora de caminho e ainda é dia. O corredor ao lado das cabines está lotado. Quase todos são homens na faixa dos 40 a 60 anos, com inegável aspecto de emigrante trabalhador. A maioria olha para fora, para as imagens das mil e uma aldeias e vilas que passam depressa pelo ecrã deste cinema itinerante. A maioria deste cenário é pouco ou nada bonito. Mas é nosso. É, ainda e sempre a nossa casa. Talvez por isso a mirada de muitos indica que já estão a cultivar a saudade de mais este adeus. Junto-me a eles. Na mirada e no sentimento.

Perante estes homens naturalmente me inclino interiormente em respeito. Não só porque agora sou um deles, mas porque sei que à maioria não sorriu a minha sorte. Estes trabalhavam muito e duro para sobreviverem, eles lá fora e as famílias cá dentro. Agradeço mentalmente as suas remessas do estrangeiro sem as quais o país teria entrado em bancarrota. E também por isso tento manter a tolerância o número crescente de brasileiros, chineses, ucranianos e pretos de sul incerto que estão representados neste comboio como reflexo perfeito do que se vê no país e em toda a Europa.

Alguns homens conversam animados. Ouço: “antigamente os emigrantes até a mobília traziam! As malas pareciam arcas!” E riem…

Passa por mim mais um homem de bigode. Está vestido de fato de treino, não oficial, da selecção. Mas não é isso que me para o pensamento. São os seus cabelos lisos, esbranquiçados, que acentuam a expressão de cansaço e desilusão. Traz-me o imaginário dos cinquentões frustrados por uma vida adulta que não correspondeu ás expectativas de uma juventude entusiasta, cheia de esperança, do Maio de 68 e do 25 de Abril. Esta imagem traz-me pena, compaixão e medo. Fico triste.

O comboio serpenteia agora os pequenos montes do interior beirão, feitos de pedra cinza corroída pelos fungos negros. Ás vezes, nas curvas, vejo a locomotora lá à frente a puxar por todos nós. É lindo. Aqui e ali uma aldeola e muitas casas perdidas feitas de pedra que os nossos avós tiraram dos quintais para os tornar um pouco mais criativos. Não resultou. Os citadinos, com seu iludido saudosismo da “província”, acham que adoram! Aqui já percebo a fronteira óbvia com Espanha. É feita de um terreno pedregoso e infértil que não atrai, e que atrai cada vez menos. Está abandonado. Na fronteira, que é absolutamente natural, tudo muda. Começa o planalto espanhol. É ainda mais seco, mas menos pedregoso. E é também o motivo das cidades vermelhas, cor de argila feita tijolo que faz as cidades quentes parecerem de fogo. E os espanhóis, com politicas mais certeiras, o mesmo dinheiro da UE que nós desperdiçamos, e tantas vezes recorrendo aos rios que também são nossos, estão a tornar o árido produtivo. Mas ainda resta muito km sem ver vivalma o que para mim é agradável à vista, mas nunca ali poderia viver pois é demasiado longe do mar.

O pintarolas de camisa vermelha e sapato quadrado em pele branca e o amigo fumam um cigarrinho 5 cm abaixo de um autocolante vermelho a dizer: não fumar. Daqui a pouco lançam as beatas pela janela onde está um autocolante a dizer: não atirar objectos pela janela. A beata estava bem apagada, não há-de ser ela a provocar um fogo…Olham para um espanhol que os vê e avisa e dizem: “Tu quietemã. No hay problemas!” E riem…

São 20h30m . O vagão restaurante (esqueça os filmes, está mais para taberna) está intransitável. Não arrisco, até porque o empregado do estabelecimento está a refilar alto e com maus modos, queixando-se dos próprios clientes! Pelo caminho de volta, por entre as cabines percebe-se a variedade do farnel: muitas “taparueres” cheias de sandes de panado, pernas de frango, latas de sardinha, e coisas com ar a caseiro que não adivinho o que serão. Tudo regado a tintol e sobretudo cervejinha, que é cada vez mais rainha.

Como bom português ignorei absolutamente o nº do bilhete e sentei-me no primeiro lugar desocupado que encontro onde só estão mulheres. Duas francesas e uma de parte incerta. Mais tarde tenho de mudar porque chega o dono. O meu lugar também está ocupado. Agora sai ele. Na nova cabina está uma senhora brasileira que fantasio ter um certo ar a dominadora sexual. Aproveita para mandar os últimos beijos antes de passar a fronteira e perder a “rede” nacional. Demora um pouco pois coloca muito mais que as despedidas em dia. Ouço-a e recordo como os brasileiros são muito mais carinhosos que nós no trato pessoal. Pelo menos nos mais superficiais. Outra mulher, à minha frente, diz-me para esticar as pernas no banco, para o compartimento parecer mais cheio e não entrar mais ninguém. A filha está semi deitada ao meu lado, com as pernas para cima. Diz que é uma posição de ióga. Deve ser. Chegam mais duas passageiras, que pelo menos eram giras. A mulher e a filha queixam-se. Está lotado. Para mim melhorou. Estamos cinco nacionalidades agora. Falamos do óbvio: "...os portugueses são so melhores do mundo em línguas. Falam tudo e todos ententem...". Até os analfabetos, penso eu para mim.

Um outro brasileiro, com pelo menos 60 anos e ar frágil de velho tolo, passa pela terceira vez pela cabina e repete os números: 71 –123. De facto é aqui o 71. Mas o vagão 122 é o outro a seguir. Não se sabe porque os vagões não estão pela ordem dos números. O 123 está no seguimento de 121 e antes do 122. Não é de admirar que o senhor não entenda. Todos rimos muito.

Esta é já a viagem mais cheia e caótica onde estive, destronando experiências italianas e excitando a imaginação com uma mistura filmes da índia e cheiros africanos.

Os outros membros desta feira ambulante são os jovens turistas que partilham os mesmos vagões, e são cada vez mais iguais: europeus, americanos e até japoneses. Até os portugueses! Para minha infelicidade o substrato mais numeroso é de franceses. Todos partem dos seus países para ver a Europa, e, principalmente, buscam aventura. Romance. Ou pelo menos sexo! Viajam sem parar e quase sempre em bando, de vários ou de casal, no qual se fecham, pois é essa a dinâmica dos grupos em viagem. E sem conviver com autóctones não se conhece minimamente nada. Acabam por ver muito e conhecer pouco.

Olho para eles e fico a pensar: é este o comboio, antiquado, ruidoso e sujo, que marca a primeira e última impressão de Portugal aos futuros cidadãos do mundo? Será uma opção pela honestidade ou pura falta de bom-senso?

Outros dois jovens que se tratam por “ó moço”, estacionam perto. Uma “garina” passa a pedir licença em todas as línguas que conhece: merci; gracias; por favor (sotaque brasileiro), etc. O tripeiro diz logo: “De nada. Já marchavas, já!”. Como nestas coisas um homem nunca envelhece, um gajo ao lado, com os seus bons 60 anos (e bigode) concordou: “É carapau!”. Passa outra menina linda, de ar nórdico e camisa fina, nitidamente sem soutien deixando em evidências os seios. O “Ron” repassa as mãos no bigode instintivamente, enquanto se revira para acompanhar a passagem da moça, ele como todos nós, de olhos bem postos nas maminhas da bendita. Cumprimenta-se em júbilo com o amigo, felizes como crianças mas com uma luxúria muito adulta, pela bênção que a vida lhes acabou de presentear. E riem…

O “moço” tenta desesperadamente ouvir o relato do jogo da supertaça, mas capta cada vez menos sinal, que as rádios espanholas, muito piores na programação e muitos mais fortes na emissão, são cada vez mais omnipresentes. Parece que o FCP está a ganhar ao Setubal...pena!

O comboio, já em Espanha, continua a encher ainda mais. As espanholas, como as portuguesas, são pequeninas e arrumadinhas. Morenas e sensuais. Mas falam muito alto!

Já é noite. Muitos dormem e alguns roncam sem dó nem vergonha. Outros tentam não se impacientar com as muitas horas de viagem que têm por adiante. Um quadradinho atafulhado de bagagens é dominado por um amontoado jovial de varias procedências e destinos que, com a guitarra a dar o mote para uns coros acústicos, fazem lembrar as reuniões à volta da fogueira que os amigos tantas vezes improvisam em qualquer noite de Verão. Cantar em grupo é dos Yôgas mais poderosos e instantâneos que podemos praticar. É tão agradável a profunda e serena a sensação se integração…é mágico!

A feira ambulante continua em direcção a Irún-Hendaye, com destinos mais longínquos, ainda além de “Paris Francia”. Saio para escala em Salamanca para a minha conexão em direcção a casa. Casa?!? Sim, também, cada vez mais.

A procissão passa e eu fico feliz por não mais seguir esse cerimonial dos Agostos deste comboio. Saio e aproveito as próximas 4 horas para me colar a outro ritual, este bi-semanal e muitoo mais massificado, mas igualmente cheio das suas regras e rotinas, esperanças e desacertos: o rito dos fins-de-semana à noite! É só juventude com o cio…e a noite de Salamanca é uma bela eucaristia!
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14.8.06

Sugestões para o lazer de Verão...

Livros e filmes...

Estou a ler um livro óptimo: A lua pode esperar, do Gonçalo Cadilhe. Sugiro. De seguida vou ler o anterior dele: Planisfério pessoal.
Outro óptimo que estive a rever (as notas e sublinhados) foi um que li há mais de um ano: Turista espiritual, de Dick Brown. Uma viagem não só física, mais pelas ideias e conceitos de um oriente (Budismos e hinduísmos) já muito ocidentalizado. Divertido, curioso mas céptico q.b. , leve mas nem por isso menos profundo, lucido...
E se a onda é mais cinema, sugiro: Requiem for a dream. Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Um pouco pesado, mas para quem não se incomoda com isso, ótpimo. Talvez aquele que melhor transmite a ideia de como a TV, os ideais ou até a esperança, podem ser tão dependentes, alienantes e devastadores como qualquer droga... E como uma das actizes mais bonitas dos nossos tempos.
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