22.3.07

Espanha: o vizinho em erupção

Espanha

É para mim difícil falar de Espanha. Primeiro porque Espanha, ao contrário de Portugal, tem realmente diversas regiões. Por exemplo, tem a região de Trás-os-montes, onde eu vivo, que, ao contrário da nossa, é na praia, tem milhões de habitantes, é bastante turística e desenvolvida. Depois porque ao estar dentro de algo perde-se um pouco a perspectiva que permite “ver” a coisa. Além disso mudanças pessoais como a que eu fiz são de tal envergadura que eu próprio ainda me estou a conhecer nesta transformação quanto mais querer saber e declarar sobre todo o meu entorno!

Dizem que quando mudamos de cidade demoramos cerca de 6 meses a um ano em processo de readaptação. Não sei se será. A mim parece-me que a adaptação ao meio nunca está absolutamente perfeita e completa, quanto mais quando fazemos mudanças profundas e deixamos família, amigos, língua materna, profissões (agora sou um empresário responsável pela primeira vez na vida rsrsrs) mais longe e assentamos para integrar em um contexto completamente novo partindo quase do zero! Ainda mais sendo europeu e português de classe média, com a vidinha bastante confortável que eu sempre tive. O imobilismo foi precisamente uma das coisas a que eu quis desapegar-me, mesmo tendo em conta que nem me considero nem muito apegado, nem muito imóvel. Para um português! Na realidade mesmo em Portugal já vivi em tanto local, com muita gente diferente, com amigos espalhados pelos mais diversos locais, estudei em varias escolas e exerci diversas profissões em variados locais! Na realidade já mudei várias vezes muita coisa na minha vida, sempre com alguma facilidade e constatando que sempre que mudei cresci. E até tenho gosto de mudar! A certa altura pensei mesmo que estava compulsivamente apegado à mudança! Não deixa de ser engraçado, que tenha mudado outra vez com intenções de...estabilizar! Enfim, é mais um daqueles paradoxos que nos trespassam a todos.

Mas, falando de Espanha...

Poderia começar por dizer que a cultura é, basicamente, a mesma que a portuguesa. Mas mais crispada. Eles são latinos. Mais latinos que nós no que isso tem de sair e viver socialmente na rua. Sair para comer, beber e drogar-se sem pensar no amanhã. E mais latinos em geral, na agressividade do trato, no falar alto, discutir, no apitar, gesticular, nas rebeldias genéticas inconsequentes, no inconformismo total e totalmente conservador, na entrega a ideias utópicos, no culto às manifestações de insatisfação...manifestações de insatisfação...sim , creio que o que melhor define o espanhol (quiçá o ser humano! Quiçá o ser vivo!!) é a insatisfação e a forma como a vive e expressa.

Comparado com os portugueses eles são menos..consensualistas, digamos assim. Em Portugal a política é essencialmente centrista exercida através de um o estado centralizado. Lisboa é cada vez mais o centro. A passagem à democracia foi suave e não deixou grandes marcas (exceção feita ao processo colonial, mas que não constitui nenhuma divisão para o país) e até a ditadura foi consubstanciada no imobilismo do povo que se revelou ao não derrubar aquela até os militares a fazerem cair de podre! Os jornais são essencialmente moderados e universais, com colunistas e jornalistas de todos os quadrantes e uma linha editorial que pretende estar bem com todos. Enfim, parece-me que o português médio, essencialmente, não quer brigar. Não sei se é o tamanho, se é hábito, se é medo ou simples genética. Talvez tudo isso um pouco. Pois o espanhol é um pouco mais brigão. E há bandos. A direita e a esquerda, mesmo sendo ambos essencialmente centristas e sedentos do mesmo poder, são realmente direita e esquerda, bandos bastante diferençados. E os jornais acompanham (quase assumidamente) esses bandos, permitindo-se cada um ter os seus clientes em cada lado e ao mesmo tempo acirrando ainda mais as rivalidades. Por um lado, para mim tão habituado ao consensual centrismo, não deixa de parecer sectarismo, mas por outro lado compreendo que é esse sectarismo que estimula a vida publica, a democracia, a economia, etc. Até ver...

Uma cicatriz que teima em não sarar...

Aqui há uma cicatriz muito longe de sarar e omnipresente em tudo: a guerra civil espanhola! Uma das mais violentas de um século xx violentíssimo. Famílias contra famílias. Muitos ainda vivos com marcas desses tempos e do franquismo que se seguiu. Na base de quase toda a crispação está essa ferida ainda aberta. O Franco bem tentou unir tudo, mas não conseguiu e não durou para sempre. E os custos com que os fez são ódios e ressentimentos profundos. Um desses ódios chama-se ETA. Começou por ser anti-fachista (com apoio e conivência até de França e EUA ), para logo adoptar esquerdismo anti fachista e um nacionalismo cuja mitologia tem apenas uns poucos séculos. Esquerdismo e nacionalismo juntos são um a combinação do mais assustador e acabam por resistir a tudo numa mistura de rebeldia e teimosia do mais conservador possível. É assim porque é assim. E não importa que a ditadura tenha acabado, que os nacionalismo tenham morrido em todo lado com a segunda guerra mundial e que o esquerdismo tenha derrocado em 1990 com o muro de Berlim. A ETA dificilmente se sublimará em processo político pois a sua gênese é a violência, alimentada pelo sempre febril inconformismo e insatisfação de juventudes rebeldes que a todas as causas aderem se lhe as colocarem bem à mão. E a ETA é o centro nevrálgico da vida pública espanhola (além do futebol, claro está). Foi o medo da ETA que permitiu uma transição suave e consensual da ditadura para a democracia (que deixou muitos sentimentos por desenterrar), voltando uma monarquia democrática. Foi a ETAque permitiu uma união dos dois principais partidos espanhóis (PSOE e PP) em torno das questões básicas de desenvolvimento politico-económico. E é a ETAque agora (agora que em Espanha se vive melhor que nunca sendo um país sem grandes problemas sociais e um dos mais ricos do mundo, e sem dúvida um dos mais em moda) ameaça com os seus fantasmas voltar a um passado terrífico! O fantasma de uma nova guerra civil! Parece drama, mas não é um drama totalmente descartável...

Estando a Espanha a viver um apogeu de desenvolvimento económico (ou pelo menos financeiro) sobrou um único tema de luta política: ETA! E tudo o que a envolve. Processo de paz (fracassado mais uma vez, após uma grande esperança de êxito); atentados com mortos; vitimas e familiares do terrorismo; nacionalismo e regionalismos autonômicos. E a isso tudo agora se soma o medo do terror islâmico e as vagas de emigração, que aqui são de ex-colónias das américas, romenos, sub-sarianos, chineses e outros orientais, e sobretudo árabes. Muitos árabes. Pois bem, se até há pouco tempo o combate ao terror era o factor de união política agora é o epicentro de todas as rivalidades, dentro dos próprios partidos democráticos, e principalmente entre o PP e o psoe.

Suspeições e teorias conspirativas

Tudo deflagrou nas últimas eleições em cujo o atentado do 11 de Março foi protagonista. O PP parecia ir em vantagem . Aconteceu o ataque. Primeiras culpas para a ETA. Em poucos dias as culpas derivaram para o terror islâmico. PP em desgraça por ter levado a Espanha para o Iraque e ter tentado inculpar a ETA. PSOE ganha. O PP não consegue assimilar a derrota. Instala-se uma teoria da cosnpiração sobre o 11 de Mraço. Cosnpiração que aponta para uma mistura de ETA, e terroristas islâmicos e ex-GAL (grupo terrorista anti-ETAdo governo psoe durante os anos 80 que foi um escândalo público ao ser descoberto e julgado no início dos 90), todos à mistura e com conivência de membros do PSOE, supostamente com o objectivo de afectar as eleições e contribuir para a derrota do PP, como de facto veio a acontecer. Facto: a história oficial do ministério público que inculpa uma célula de terror islâmica tem factos muito mal contados que agora no julgamento estão de novo a ser posto ha luz. Facto: dirigentes do PP e do jornal El mundo (de direita) fazem continua propaganda á teoria da conspiração que ganha cada vez mais crentes em Espanha. É assim como a teoria da conspiração que diz que o 11 de setembro nos EUA foi obra da CIA, só que aqui são altos dirigentes políticos que crêem nisso e com eles uma parte significativa da população espanhola. Facto: o antecedente caso GAL, de apenas umas décadas atrás, dá credibilidade a teses da conspiração. A polémica está no ar. E não se sabe onde este circo irá parar.

É este clima político que existe agora, o qual para mim é um filme do qual sou mero figurante, mas que para a maioria dos espanhóis é algo mais. É um drama com matizes de novela dramática venuzuelana. Entre a esquerda e a direita. Entre PSOE e PP. Entre Nacionalistas da constituição e nacionalistas das regiões. Entre País Basco, Catalunha e Galiza por um lado e Castela, Leão e Estramadura (ou seja : Madrid) por outro. Entre os que crêm na teoria da cosnpiração e os que pensam que esses são manipulados por uma alucinação colectiva. Enfim, já nem se discute nada mais que não seja eta-terrorismo-nacionalismos. Talvez porque em quase tudo o resto esteja tudo (muito) bem!

Um país dividido
E essa dicotomia politica também tem as suas correspondentes socio-culturais. Exemplo. Ainda gostam de dizer que este é o pais “cristianíssimo”. Mas também é o país onde os homosexuais se podem casar, onde o aborto se faz sem grandes querelas desde há anos, onde os travestis e transsexuais tem presença assídua na televisão.. Uma famosa atrcriz ao ser entrevistada respode a seguinte pergunt ada seguinte forma. “P: Nos tempos livres gosta de ir à praia ou passera o cão? R: Olhe o que eu gosto mesmo é de foder, mas se não posso gosto de ir à praia”. Imaginam isso em Portugal? Eu não. Mas em Portugal também não é costume dizer “coño”, “hóstia”, “joder” e outras expressões finissímas na televisão. Aqui é normal. Apesar do jet set que aqui existe mesmo a sério, quase todos se tratam por tu, e o você (usted) até soa mal. Sim, é um país monarquico. Mas aqui a familia real é discreta e não ostenta (até porque nao tem o quê). O futuro rei casou-se com uma plebeia divorciada mais velha que ele. E outra princcesa casou-se com um jogador de andebol. A Espanha está na moda. É dos países do mundo mais visitados por turistas e mais procurado por estudantes para os seus Erasmus (não é própriamente para estudar). Há cada vez mais actores e cineastas espanhóis consagrados internacionalmente. Mas nem o Almodovar nem a Penelope Cruz aqui são unanimes. Aliás, são muito menos apreciados que em Portugal, por exemplo. Já o Saramago está nos media espanhóis muito mais frequentemente que nos portugueses. Há uma Espanha modernissima de vanguarda internacional em termos de moda, artes e até economia e tecnologia. E essa convive alegremente com outra Espanha conservadora e tracidicional. Uma tradição que é mais um saudosismo estético que outra coisa qualquer. Um saudosismo estético que os os turistas procuram infuênciados pela literatura (Hemmingway) mas que os Espanhóis cada vez mais deixam para trás na sua corrida pela vanguarda e pelo consumismo tão brutal que aqui existe.Por exemplo: a tourada ainda é uma tradição viva, mas decadente e cada vez mais para turista ver. Aqui a mulher é mais liberada e protagonista que me Portugal e é comum uma senhora citadina nos seus 50 anos fazer topless. Mas ainda é comum os filhos viverem com os pais até se casarem, assim como a “ir às putas” continua a ser uma instituição consagrada para os homens espanhóis. E os niveis de violência doméstica continua a ser dos mais elevados da Europa. Enfim, mais que de contrastes, eu diria que os espanhóis(cada um) e a Espanha constituem um realidade dividida. Mas que anda para a frente.

Factores de desenvolvimento

Além do factor terrorismo há alguns facores que eu acredito serem esseciais para perceber porquê a Espanha cresceu tanto em relação a Portugal. Um é o factor tamanho. Tamanho do país e tamanho do mercado, que é ainda maior se tivermos em conta que a Espanha ainda é referêncial para todo o mundo de lingua castelhana, a segunda mais importante do mundo. Esse tamanho permite as chamadas economia de escala. Por outro lado Espanha está directamente conectada a França, e não é por acaso que quanto mais chegadas a França mais ricas são as regiões espanholas. E há ainda outra derivação do tamanho: aqui existem muitas cidades médias com enter 100.000 e 500.000 habirantes, espalhadas por todo o território e principalmente a norte. E é nessas cidades qu esse concentra grande parte da população que , assim, é tradicionalmente urbana, ao contrário da população portuguesa que até há poucas decadas era essecialmenet rural. É a diferença entre cultura da revolução industrial e uma cultura de agricultura de subsistencia. E isso, creio, explica muita coisa.

E é este o retrato de Espanha que faço e aqui deixo. Gosto. Não recomendo. Não garanto. Mas gosto.

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23.2.07

Estou um montanheiro "de la hostia"!


Lendas

Ultimamente tenho tido umas experiências e acontecimentos quase espontaneos, não planeados e muito agradáveis. Umas belas surfadas, uma ida à montanha fabulosa, uma inesperada e fantástica ida a Barcelona e agora...

Na sexta passada fui com um aluno a uma cidade próxima (cangas de Onis) que na sua "Semana de montanha" trouxe um mito da montanha: Kurt Diemberger. Entre outros factos notórios é o unico gajo vivo que tem dois primeiros oito mil (ou seja, foi o primeiro a subir a dois dos não muitos picos acima dos oito mil metros de altitude).
O certo é que depois da apresentação, dos pedidos de autografos, etc, lá me vi a jantar num restaurante de luxo, com uma comitiva muito restrita onde estava apenas os organizadores do evento, o presidente da Federação asturiana de montanha e o dito kurt! Era oito...e eu , ali caído do céu!

Estou cá um montanhista!

(na foto está o dito kurt na sua foto mais conhecida, com estalagetites na barba. Já lá vão uns 40 anos ou mais...)

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15.2.07

A minha cidade preferida


Barcelona

António, num Domingo, em um dos locais mais turisticos do mundo!

Há coisas piores... Leia artigo completo

7.2.07

O meu primeiro pico



Lá fomos este Domingo a mais uma pequena aventura nos Picos. Desta vez no lado Oeste, ainda na cordilheira cantábrica, a cerca de uma hora de casa (na praia!). O desnível não era mais que 400 metros. Teoricamente, pois o percurso pela cresta era a subir e descer vários picos até chegar ao cume (que nem lembro o nome) a exactos 1983 metros acima do mar. O caminho foi o que se vê na segunda foto. A neve cobria tudo a partir dos 500 de altitude. O dia estava lindo, com sol, óptimas vistas, boa companhia...foi perfeito!
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16.1.07

Globalização

No restaurante indiano de Gijón, o rotulo é uma fotografia do Taj Mahal (um monumento-tumulo muçulmano) envolta por uma frase onde se lê: restaurante hindu!

Há uns dias estava a ver um combate no Eurosport daquele programa chamado Fight club. Era uma final de uma arte marcial qualquer....

Um era Australiano que tinha uma inscrição chinesa tatuada no peito. O outro era Japonês e mostrava uma tatuagem em sânscrito no braço! Ganhou o Australiano... Leia artigo completo

10.1.07

E se...

Muito melhor negócio!
Segundo economistas consultados pela CNN o custo da guerra do Iraqu evai saldar-se em cerca de 2 TRILIÕES de dólares!!! Neste momento já ascende a várias centenas de BILIÕES e prepara-se para aumentar o ritmo a que os gastos explodem!
Sei que parte desse dinheiro é feito em compra de produtos, serviços e técnologias ás próprias empresas americanas (principalmente militares) e que por isso é um reinvestimento na própria economia americada e na sua actualização a nivel militar!
Ainda assim parece-me que seria muito mais interessante investir esse "dinheirinho" (!) no desenvolvimento e aplicação de energia nuclear, e principalmente de energias alternativas de fontes renováveis! Com esse investimento essas energias seriam muito competitivas e evitam-se guerras, mortes, déficts orçamentais brutais e perigosos, e ainda a radicalização de tradições culturais (muçulmanos) abjectas!

Sim, seria muito melhor! Leia artigo completo

2.1.07

Mal saí e já tenho saudades...

Requiem pela minha querida pátria!

Como já aqui disse antes o conceito de pátria (e de povo e de nação) não me é muito relevante. O que realmente me importa são a minha família e amigos. As pessoas que eu gosto. E Portugal interessa-me nessa medida…Ou seja, muito!

Sinto-me um membro da aldeia global. Filho da globalização que nós mesmos tanto impulsionamos há 500 anos atrás. E gosto disso. Nesta pequena e apertada esfera azul ser Português é cada vez menos relevante. È como ser de Alcobaça. È mais um nome, de uma parte de outra parte. Estamos num mundo onde grandes blocos se fundem e competem. E nessa medida ser Europeu é cada vez mais importante e decisivo, em termos económicos e culturais. Gosto de ser Europeu. E embora seja muito individualista, ser Europeu parece-me cada vez mais interessante, quando comparado com ser português. Portugal tem muito mais importância e viabilidade como membro de uma Europa unida que como um estado “independente”(é para rir) perdido atrás de Espanha. Aliás, como já escrevi antes: Portugal já não é…

Desesperadamente procurando a crise

Considero que vivemos momentos gloriosos. Portugal já foi mais grande no mundo. Mas nunca se lá viveu tão bem. E há maior grandeza que viver bem? Com segurança, comida na mesa, conforto, um nível amplo de cultura…

Ainda assim, e porque o crescimento estancou, e a convergência para os ainda mais ricos desconvergiu, dizemos que estamos em crise! Aliás, em crise diz-se sempre que estamos. Está sempre tudo mal. Ou pelo menos a maioria diz sempre muito mal de tudo e todos! Talvez seja apenas neurose…

Porque é que o crescimento está tão fraco? Porque é que crescemos menos que Espanha, e até que a Irlanda e Grécia? Como vamos enfrentar a concorrência cada vez maior e mais forte da Europa de Leste? E pior ainda: da China e da Índia!?!

Quando os biliões da CEE entravam a jorros e aparentemente sem fim, usamo-los para viver bem. Foi tipo desforra de novos ricos. Engordamos. Mas não usamos para fazer as reformas das estruturas politicas económicas e sociais, que são sempre mais fáceis se não tivermos de as fazer. Na prática acabamos por só mudar quando estamos mal e somos obrigados a isso para sobreviver! E parece que é o que agora se está a passar. Agora que as contas estão prestes a explodir, e o país está tão estagnado que parece andar para trás, vemo-nos na emergência de reformas profundas.

Quais reformas? Nas bocas dos 108 mil teóricos da nossa terra elas são mais que conhecidas: menos e melhor burocracia e aparelho central do estado (com suas regalias sociais); menos segurança social; mais e melhor educação, com mais ênfase na pratica e investigação nas áreas das tecnologias. Uma educação que incorpore o civismo e sentido de bem comum: pagar impostos como dever ético e moral, etc. Menos protecção a empregos “seguros” e mais estímulo à competência. Menos subsídio dependência e mais estímulos e prémios à criatividade e empreendorismo empresarial, cultural e cientifico. Enfim…aquilo que eu já leio e ouço por todo lado há 20 anos. Mas nós aproveitamos os biliões de CE para escapar às reformas, ao invés de usá-los para as promover! E agora estamos à rasca!

E, embora seja um optimista por natureza, não creio que este estado de coisas se possa alterar profundamente. As mudanças são agora ainda mais difíceis e dolorosas. A classe média, essencialmente dependente do estado, não vai suicidar-se. E os empresários “privados”, também subsídio dependentes, não vão mudar de mentalidades de um dia para o outro. E o estado não é independente de toda uma classe média e empresários que o sustentam e elegem. O nosso sistema político tem tendência a formar governos de poder muito partilhado e dividido, e logo fracos. Os cidadãos, agora mal habituados, não têm espírito de grupo nem de sacrifício. Esforçam-se mais para resistir ás reformas do que teriam de fazer para as empreender! E pior ainda: não temos a cultura da criatividade e empreendorismo que é o que realmente enriquece qualquer indivíduo e colectivo.

A tendência é olhar cada um para o seu umbigo. Esperar salvadores e sobretudo ser crítico!

A nossa tendência cultural mais arreigada é a da queixa e da crítica. Critica sem propor soluções. Critica de “chega para lá” e faz tu. Crítica que não constrói. Critica que não é seguida de acção. Critica que culpa os políticos de todos os males, mas nunca se propõe a assumir os cargos e fazer melhor (“tenho mais que fazer com a minha vida”). Critica que culpa os poderosos em geral de toda a incompetência e corrupção, mas que nunca se chega para a frente e resolve criar e construir e fazer melhor... E já se ouvem cada vez mais vozes a pedir grandes lideres, Dons Sebastiões, Salazares (louçãs ou Portas?!) que nos salvem…afinal o exemplo e o dever vêm (e têm de vir?!) de cima. E o “povo”, que se assume como vitima, acha que só tem de seguir e usufruir dos “direitos”!

E eu a pensar que o objectivo seria ter uma população forte, confiante em si mesma, criativa e empreendedora, que não depende-se tanto de líderes que a arrastassem!

Solução? Não tenho.

Não tenho soluções. Por isso não espero grande coisa. Não critico o estado das coisas e tento ver e aproveitar o muito de bom que ainda há. E desejo tudo do melhor possível para Portugal, pois ainda me considero de lá, e tenho lá a maioria das pessoas que mais gosto e dão sentido à minha vida. O que eu possa fazer para ajudar farei, mas assumidamente sem grandes pretensões e sem sentimentos de culpas, minhas ou alheias! Acho que ser empresário na Europa já é um contributo ligeiramente acima da média...

Um elogio à classe (mais) trabalhadora!

Cada vez mais acho que os políticos têm das profissões mais ingratas que existem. Exigem-lhes (sob uma vigilância de lupa) tudo aquilo que ninguém faz e aceita para si. Todos os mais imperfeitos lhes cobram uma total perfeição. E mais: nunca podem ganhar até anos depois de estarem fora do seu exercício de poder (“até nem era assim tão mau”). Até lá, tudo o que fazem está mal. Está mal se fazem, se não fazem, o que fazem, como fazem…Sujeitam-se a uma exposição quase total, e a vexames e acusações brutais inclusive daqueles que os elegeram, só porque estão lá. O povinho precisa de bodes expiatórios para os seus próprios problemas…

Vejo nos políticos um espelho da sociedade, da qual emanam e fazem parte. Na realidade, um espelho que até reflecte os melhor da sociedade. Sim, o melhor! Porque, em média, os políticos, são mais esforçados, estudiosos, trabalhadores, honestos, empreendedores, empenhados, criativos, corajosos e competentes que a média dos cidadãos que os elegem.

Basta olhar para estes nomes: Mário Soares, Cavaco Silva, Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Freitas do Amaral, Paulo Portas, Álvaro Cunhal, António Vitorino, Sócrates, só para dar alguns dos nomes mais conhecidos. Não estaríamos mal se todos tivessem o nível de dedicação, competência e dinamismo desses nomes...digo eu!
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24.12.06

Votos de felicidades

A todos a quem mais quero desejo óptimas festas e um ano novo cheio de alegria e realização pessoal. Leia artigo completo

19.12.06

Diversidade cultural - Budismos

Um monge budista..

Em geral gosto de discernir. VIVEKA. Perceber as diferenças. Não para dividir, mas sim para aproveitar as diversas possibilidades existentes que fazem a riqueza do mundo. Em termos culturais isso nem sempre é fácil. Desde logo pela complexidade da linguagem, das palavras... Mas tenta-se. Sei que as coisas todas são unidas e integradas entre si, que não é possível separá-las sem lhes fazer perder o sentido. Mas a mente tem a capacidade isolar e definir partes, concentrando-se nelas, actuando no todo através da parte. No Uno, através do verso.

No caso do Yôga tenho especial atençao para não confundir e misturar tudo. Primeiro porque essa é a tendência reinante, causada por ignorância e pela incapacidade de fazer escolhas de muitos que se chegam a essa filosofia. Há que remar contra essa maré de lodo. Depois porque sou um profissional que não somente aprofundo o tema descobrindo nele cada vez mais nuances, diferenças e possibilidades, mas também porque devo posicionar-me no mercado, passando as minhas propostas de forma clara e diferenciada. Assim, distinguo perfeitamente filosofia de ciência, e estas de religião e das artes, sabendo eu muito bem que essas classificações não são puras, nem perfeitas, nem estanques...são meros artificios mentais para actuar no teatro de maya.

Por outro lado, a titulo meramente pessoal, não temo nem me coibo de explorar a diversidade cultural do mundo e até de me deixar encontrar pontos de encontro e conexão entre as mais diversas realidades.

Tenho andado a ler um livro que é de um médico americano em conversa com o chamado Dalai Lama. Falam de muita coisa: Budismo, felicidade, sofrimento, espiritualidade… Em geral não sou grande fã do Budismo, não só porque o lado ritualistico, devoto, crente e até folclorico está muito mais divulgado e valorizado que o aspecto mais filosófico, mas também porque essa filosofia/religião dá demasiada enfase ao binomio sofrimento/felicidade, e esse não é o ponto central das minhas indagações filosóficas. Do pouco que sei dos vários Budismos, o “Tibetano” é o que me agrada menos. É dos mais ritualistas, junta-lhe um sempre nefasto nacionalismo, está na moda entre ocidentais e talvez por isso mesmo está sob uma febre de “reencarnações” que é também dos aspectos que menos aprecio dentro das suas tradições. E no entanto, o seu lider máximo, o monge a que chamam Dalai Lama, é dos líderes nacionalistas-religiosos mais interessantes que há por aí. Assume a sabedoria do Budismo com orgulho mas sem vaidade e sem grandes dogmatismos. Até o seu nacionalismo é extremamente moderado. Ele mesmo aparenta ser uma pessoa extremamente simples que, excluindo os trages folclóricos e a extrema simplicidade, foge à maioria das caricaturas que os ocidentais fazem acerca dos gurus orientais. Às vezes parece que o facto de o Tibete ter sido invadido e esmagado culturalmente pelos chineses até é encarado como uma lição e uma oportunidade positiva para a mudança para melhor, e ele parece mais resignado e menos empolgado pela sua causa que muitos dos seus corregilionarios, principalmente os ocidentais. E a pessoa por detrás da instituição até parece realmente humilde, não só na forma como desempenha o seu papel institucional, mas também enquanto pessoa individual, assumindo-se como alguém normal, ou pelo menos apenas como mais um monge budista que, por ditames do destino, representa um determinado papel de destaque. Evita falar de reencarnações e não finge beatudes de especie nenhuma. Parece-me que ele é assim genuinamente e não apenas forçado pelas circuntância tentando encarnar esse papel como meio de sobrevivência. Como diria uma amigo e aluno: desconfio um qualquer maestro que não ri. E ele ri. Muito. Sinceramente simpatizo com ele. E desde logo com a sua causa, que é de todo perdida. Ser um gajo simpático, dócil e moderado pode ser muito agradável a título de relacionamentos pessoais, ou como escape a um mundo (incluindo o mundo “espiritual”) feito de egos-maniacos exacerbados. Mas, a nivel de poder politico, o $ e a espada são factores muito mais imponentes e que se relectem também a nivel cultural. Põe-me a pensar quem e como quero ser eu…

Através do pouco que vou lendo de Budismo também vou percebendo como é descendente directo da tradição cultural Hindu, e como, provavelmente, também a influênciou bastante. Há muitos conceitos iguais, ou pelo menos parecidos. Nomeadamente a enfase no caracter practico dos preceitos filosóficos e na valorização da vivencia pessoal da cada um. A filosofia que contém e propõe é em muitos casos próxima áquela que vivêncio. E precisamente devido ao facto de ser tão próxima mantenho-me atento, para não confundir e misturar tudo. Sobretudo na parte profissional. VIVEKA…
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