Espanha: o vizinho em erupção
É para mim difícil falar de Espanha. Primeiro porque Espanha, ao contrário de Portugal, tem realmente diversas regiões. Por exemplo, tem a região de Trás-os-montes, onde eu vivo, que, ao contrário da nossa, é na praia, tem milhões de habitantes, é bastante turística e desenvolvida. Depois porque ao estar dentro de algo perde-se um pouco a perspectiva que permite “ver” a coisa. Além disso mudanças pessoais como a que eu fiz são de tal envergadura que eu próprio ainda me estou a conhecer nesta transformação quanto mais querer saber e declarar sobre todo o meu entorno!
Dizem que quando mudamos de cidade demoramos cerca de 6 meses a um ano em processo de readaptação. Não sei se será. A mim parece-me que a adaptação ao meio nunca está absolutamente perfeita e completa, quanto mais quando fazemos mudanças profundas e deixamos família, amigos, língua materna, profissões (agora sou um empresário responsável pela primeira vez na vida rsrsrs) mais longe e assentamos para integrar em um contexto completamente novo partindo quase do zero! Ainda mais sendo europeu e português de classe média, com a vidinha bastante confortável que eu sempre tive. O imobilismo foi precisamente uma das coisas a que eu quis desapegar-me, mesmo tendo em conta que nem me considero nem muito apegado, nem muito imóvel. Para um português! Na realidade mesmo em Portugal já vivi em tanto local, com muita gente diferente, com amigos espalhados pelos mais diversos locais, estudei em varias escolas e exerci diversas profissões em variados locais! Na realidade já mudei várias vezes muita coisa na minha vida, sempre com alguma facilidade e constatando que sempre que mudei cresci. E até tenho gosto de mudar! A certa altura pensei mesmo que estava compulsivamente apegado à mudança! Não deixa de ser engraçado, que tenha mudado outra vez com intenções de...estabilizar! Enfim, é mais um daqueles paradoxos que nos trespassam a todos.
Mas, falando de Espanha...
Poderia começar por dizer que a cultura é, basicamente, a mesma que a portuguesa. Mas mais crispada. Eles são latinos. Mais latinos que nós no que isso tem de sair e viver socialmente na rua. Sair para comer, beber e drogar-se sem pensar no amanhã. E mais latinos em geral, na agressividade do trato, no falar alto, discutir, no apitar, gesticular, nas rebeldias genéticas inconsequentes, no inconformismo total e totalmente conservador, na entrega a ideias utópicos, no culto às manifestações de insatisfação...manifestações de insatisfação...sim , creio que o que melhor define o espanhol (quiçá o ser humano! Quiçá o ser vivo!!) é a insatisfação e a forma como a vive e expressa.
Comparado com os portugueses eles são menos..consensualistas, digamos assim. Em Portugal a política é essencialmente centrista exercida através de um o estado centralizado. Lisboa é cada vez mais o centro. A passagem à democracia foi suave e não deixou grandes marcas (exceção feita ao processo colonial, mas que não constitui nenhuma divisão para o país) e até a ditadura foi consubstanciada no imobilismo do povo que se revelou ao não derrubar aquela até os militares a fazerem cair de podre! Os jornais são essencialmente moderados e universais, com colunistas e jornalistas de todos os quadrantes e uma linha editorial que pretende estar bem com todos. Enfim, parece-me que o português médio, essencialmente, não quer brigar. Não sei se é o tamanho, se é hábito, se é medo ou simples genética. Talvez tudo isso um pouco. Pois o espanhol é um pouco mais brigão. E há bandos. A direita e a esquerda, mesmo sendo ambos essencialmente centristas e sedentos do mesmo poder, são realmente direita e esquerda, bandos bastante diferençados. E os jornais acompanham (quase assumidamente) esses bandos, permitindo-se cada um ter os seus clientes em cada lado e ao mesmo tempo acirrando ainda mais as rivalidades. Por um lado, para mim tão habituado ao consensual centrismo, não deixa de parecer sectarismo, mas por outro lado compreendo que é esse sectarismo que estimula a vida publica, a democracia, a economia, etc. Até ver...
Aqui há uma cicatriz muito longe de sarar e omnipresente em tudo: a guerra civil espanhola! Uma das mais violentas de um século xx violentíssimo. Famílias contra famílias. Muitos ainda vivos com marcas desses tempos e do franquismo que se seguiu. Na base de quase toda a crispação está essa ferida ainda aberta. O Franco bem tentou unir tudo, mas não conseguiu e não durou para sempre. E os custos com que os fez são ódios e ressentimentos profundos. Um desses ódios chama-se ETA. Começou por ser anti-fachista (com apoio e conivência até de França e EUA ), para logo adoptar esquerdismo anti fachista e um nacionalismo cuja mitologia tem apenas uns poucos séculos. Esquerdismo e nacionalismo juntos são um a combinação do mais assustador e acabam por resistir a tudo numa mistura de rebeldia e teimosia do mais conservador possível. É assim porque é assim. E não importa que a ditadura tenha acabado, que os nacionalismo tenham morrido em todo lado com a segunda guerra mundial e que o esquerdismo tenha derrocado em 1990 com o muro de Berlim. A ETA dificilmente se sublimará em processo político pois a sua gênese é a violência, alimentada pelo sempre febril inconformismo e insatisfação de juventudes rebeldes que a todas as causas aderem se lhe as colocarem bem à mão. E a ETA é o centro nevrálgico da vida pública espanhola (além do futebol, claro está). Foi o medo da ETA que permitiu uma transição suave e consensual da ditadura para a democracia (que deixou muitos sentimentos por desenterrar), voltando uma monarquia democrática. Foi a ETAque permitiu uma união dos dois principais partidos espanhóis (PSOE e PP) em torno das questões básicas de desenvolvimento politico-económico. E é a ETAque agora (agora que em Espanha se vive melhor que nunca sendo um país sem grandes problemas sociais e um dos mais ricos do mundo, e sem dúvida um dos mais em moda) ameaça com os seus fantasmas voltar a um passado terrífico! O fantasma de uma nova guerra civil! Parece drama, mas não é um drama totalmente descartável...
Estando a Espanha a viver um apogeu de desenvolvimento económico (ou pelo menos financeiro) sobrou um único tema de luta política: ETA! E tudo o que a envolve. Processo de paz (fracassado mais uma vez, após uma grande esperança de êxito); atentados com mortos; vitimas e familiares do terrorismo; nacionalismo e regionalismos autonômicos. E a isso tudo agora se soma o medo do terror islâmico e as vagas de emigração, que aqui são de ex-colónias das américas, romenos, sub-sarianos, chineses e outros orientais, e sobretudo árabes. Muitos árabes. Pois bem, se até há pouco tempo o combate ao terror era o factor de união política agora é o epicentro de todas as rivalidades, dentro dos próprios partidos democráticos, e principalmente entre o PP e o psoe.
Tudo deflagrou nas últimas eleições em cujo o atentado do 11 de Março foi protagonista. O PP parecia ir em vantagem . Aconteceu o ataque. Primeiras culpas para a ETA. Em poucos dias as culpas derivaram para o terror islâmico. PP em desgraça por ter levado a Espanha para o Iraque e ter tentado inculpar a ETA. PSOE ganha. O PP não consegue assimilar a derrota. Instala-se uma teoria da cosnpiração sobre o 11 de Mraço. Cosnpiração que aponta para uma mistura de ETA, e terroristas islâmicos e ex-GAL (grupo terrorista anti-ETAdo governo psoe durante os anos 80 que foi um escândalo público ao ser descoberto e julgado no início dos 90), todos à mistura e com conivência de membros do PSOE, supostamente com o objectivo de afectar as eleições e contribuir para a derrota do PP, como de facto veio a acontecer. Facto: a história oficial do ministério público que inculpa uma célula de terror islâmica tem factos muito mal contados que agora no julgamento estão de novo a ser posto ha luz. Facto: dirigentes do PP e do jornal El mundo (de direita) fazem continua propaganda á teoria da conspiração que ganha cada vez mais crentes em Espanha. É assim como a teoria da conspiração que diz que o 11 de setembro nos EUA foi obra da CIA, só que aqui são altos dirigentes políticos que crêem nisso e com eles uma parte significativa da população espanhola. Facto: o antecedente caso GAL, de apenas umas décadas atrás, dá credibilidade a teses da conspiração. A polémica está no ar. E não se sabe onde este circo irá parar.
É este clima político que existe agora, o qual para mim é um filme do qual sou mero figurante, mas que para a maioria dos espanhóis é algo mais. É um drama com matizes de novela dramática venuzuelana. Entre a esquerda e a direita. Entre PSOE e PP. Entre Nacionalistas da constituição e nacionalistas das regiões. Entre País Basco, Catalunha e Galiza por um lado e Castela, Leão e Estramadura (ou seja : Madrid) por outro. Entre os que crêm na teoria da cosnpiração e os que pensam que esses são manipulados por uma alucinação colectiva. Enfim, já nem se discute nada mais que não seja eta-terrorismo-nacionalismos. Talvez porque em quase tudo o resto esteja tudo (muito) bem!
Um país dividido
Além do factor terrorismo há alguns facores que eu acredito serem esseciais para perceber porquê a Espanha cresceu tanto em relação a Portugal. Um é o factor tamanho. Tamanho do país e tamanho do mercado, que é ainda maior se tivermos em conta que a Espanha ainda é referêncial para todo o mundo de lingua castelhana, a segunda mais importante do mundo. Esse tamanho permite as chamadas economia de escala. Por outro lado Espanha está directamente conectada a França, e não é por acaso que quanto mais chegadas a França mais ricas são as regiões espanholas. E há ainda outra derivação do tamanho: aqui existem muitas cidades médias com enter 100.000 e 500.000 habirantes, espalhadas por todo o território e principalmente a norte. E é nessas cidades qu esse concentra grande parte da população que , assim, é tradicionalmente urbana, ao contrário da população portuguesa que até há poucas decadas era essecialmenet rural. É a diferença entre cultura da revolução industrial e uma cultura de agricultura de subsistencia. E isso, creio, explica muita coisa.
E é este o retrato de Espanha que faço e aqui deixo. Gosto. Não recomendo. Não garanto. Mas gosto.
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