19.1.08

Opus Dei e coisas que tais...



Tudo bons rapazes

Conheci por cá um arquitecto surfista (ou surfista arquitecto) que é um gajo porreiríssimo. Ou pelo menos parece. Ele está a viver em Ribadesella mas é de Madrid.

Tem 26 anos, está mesmo a acabar o curso, fez um ano de erasmus no Porto, tem o sonho de ir fazendo alguns projectos de arquitectura, provavelmente com o pai no seu escritório (entretanto estagia num outro escritório para mostrar ao pai que pode ser independente e para conhecer mais gente da região), para financiar a sua vida de surfista. Espera poder fazer um estágio na Austrália, de pelo menos uns 6 meses, ali na zona de surfer´s paradaise, e o nome deixa explicito que o lugar e os motivos não arquitectónicos dele coincidem.

Isto a propósito de quê?

Pois o gajo é de uma família totalmente involucrada com a Opus Dei. Grande parte da sua família faz parte activa da Opus Dei e tem inclusivamente um tio que é Bispo no Brasil. E da Opus Dei. O pai dele também era da Opus Dei a qual deixou por passar a não concordar com umas quantas coisas, mas está bom de ver que a proximidade continua mais que muita, nem que seja pelos outros laços familiares. O colégio que freqüentou é um dos muitos colégios que são controlados pela igreja espanhola, através de uma das suas muitas ordens. E neste caso a ordem é obviamente a Opus Dei, que se está a substituir a passos largos à anterior influência dos jesuítas, que são agora uma ordem em declínio e rival dentro do catolicismo. Por este motivo quase todos os seus amigos são também de uma forma ou outra membros ou fortemente influenciados pelos mandamentos dessa prelatura cristã.

E quais são os mandamentos desta Opus dei? Pelo que percebi de conversas com este meu novo amigo é basicamente aquele que está expresso no nome da ordem: o trabalho pode tornar-te santo. Mais: o trabalho deve tornar-te santo. O trabalho deve ser o centro de tudo, e através dele cada um honra e se entrega a Deus. E nesse contexto claro que o trabalho dito fundamental é aquele que se faz directamente em prol do cristianismo, neste caso o catolicismo tal como entendido pela Opus dei. Ou seja, "santo" é o trabalho realizado em prol da própria Opus Dei. E basicamente é isto. Simples. Absolutamente simples e respeitável.

Já antes tinha conhecido outro gajo porreiro por cá (também de Madrid) que tinha tido uma ex-namorada que também havia pertencido a Opus Dei e cujo o ex-namorado era um ex-membro da Opus Dei... Enfim, a Opus Dei por cá está tão implantada na educação (colégios e universidades) e em empresas (por exemplo a Maphre) que é normal conhecer alguém que é ou foi parte dessa organização.

E o que eu vejo é isto: independente dos aspectos radicalistas, elitistas, moralistas, doutrinários, de supostas mortificações e sacrifícios, da preponderância que os grupos assumem sobre os indivíduos, do trabalho em prol de poder econômico-financeiro, dos jogos de influências político-económicos, etc., e tudo isso é real (este meu amigo disse-me, com toda a naturalidade, que “ a Opus controla Espanha”, assim como “no colégio pressionavam-nos e doutrinavam-nos”), independentemente de tudo isso ser real dizia, parece-me que a maioria das pessoas que fazem parte disso são gente normal, com boas intenções, pessoas com convição no que fazem, boas pessoas. E em geral pessoas muito mais comuns do que as novelas, filmes e trabalhos jornalísticos recentes gostam fazer transparecer acerca dessa prelatura, que muitas denominam de seita perigosa, para meter medo e ganhar uns cobres com o sensacionalismo. Sensacionalismo que depois o povo transforma numa atitude persecutória histérica, cheia de “ouvi dizer”, e com todo tipo de exageros: “na Opus Dei eles flagelam-se todos e tentam controlar o mundo num plano diabólico para nos fazer regressar todos a tempos medievais e inquisitórios”, ou “os comunistas comem criancinhas ao pequeno almoço”, ou “os grandes empresários capitalistas são todos comparsas de um sistema de dominação e exploração do povo indefeso”, ou “os cientologos do Tom Cruise são todos doentes mentais” e coisas do gênero.

Fazendo um paralelo para outros tipos de agrupamentos, tais como os políticos, ou os ecologistas, ou os maçons e outros esótéricos, assim como aos grupos de yôga que conheço bastante bem, vejo que o mesmo se aplica. A maioria das pessoas que pertencem e colaboram com esses grupos e causas são em geral pessoas com boas intenções, pessoas com convição no que fazem, boas pessoas. Pessoas comuns.

Sim, haverá doutrinações, manipulações, usurpações, ambição, ganância e até ilegalidades. Mas isso afinal só os torna mais comuns ainda. Isso existe nas famílias, nas escolas, nas empresas, até a policia e os tribunais têm disso tudo, porque raios uma instituição “espiritual” qualquer não haveria de ter, ou ser demoníaca e perigosa por também ter alguma mancha negra?

Ironicamente, a única grande acusação que eu faria a todas essas organizações idealistas-religiosas (desde partidos políticos, a grupos maçons, ONG, prelaturas católicas e outras seitas independentes, ou organizações ecologistas e esotéricas) é a de hiprocisia. E a sua hipocrisia consiste em serem exactamente iguais aos outros apesar de fazerem tudo precisamente para não o serem, e obviamente crerem que não o são. São tão humanos pecadores como qualquer Maria Madalena desta vida, são tão humanos como qualquer buscador de poder e glória de todos os tempo, mas fazem tudo com uma justificação superior, em prol de um Deus, do Bem, de uma forma qualquer de Cultura ou Vida supostamente melhor que virá, da salvação, de uma qualquer ética ou hiperconsciencia que no fundo demonstram sempre escapar-lhes, pois acabam por demonstrar sempre a sua absoluta normalidade.

No fundo essas organizações todas apenas e só se atrevem a tentar por em practica aquilo por que todos sonham e clamam: lutar por um mundo melhor, uma salvação qualquer, a sua salvação. E os que fazem são criticados por fazerem, e os que não fazem são criticados por não fazerem.

A mim dá-me no mesmo. Somos todos iguais. Somos todos o mesmo! E em geral somos todos boas pessoas, bons rapazes. Como os do filme do Scorcese...

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7.1.08

Portugal e Espanha vistos por um emigrante

Umas voltas mais pelo estado dos países ibéricos

Como não podia deixar de ser, não por enquanto, fui a Portugal. À terrinha. Às terrinhas. Dois dias em Lisboa, dois em Alcobaça, dois no Porto, mais ou menos. Como costume não deu para fazer metade do que queria. E o que queria era ver os amigos, família e colegas. E passear por alguns sítios que me recolocam nas minhas raízes e se possível até repetir a dose mais que uma vez. Mas não dá. É tudo fugaz. E talvez por isso fico logo com saudades outra vez. E talvez por isso veja a nossa terra com outros olhos. Lisboa continua linda. E diga-se que, cada vez mais, Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Para o bem e para o mal.

Desde já se diga que a paisagem, na qual incluo Alcobaça, dá-me imenso prazer. Alcobaça parece-me cada vez mais parada, em alguns momentos parece mesmo senil, mas, e para contrariar esta velhice, está cada vez mais bonita e nesse aspecto mais jovial e agradável. E para quem vai uns dia de férias até sabe bem estar tudo calmo, mesmo que seja calmo de mais. Houve tempos em que Alcobaça atraia mais gentes de Lisboa e arredores, que se juntava em amena cavaqueira e fazia umas festas valentes. Agora parece-me que até já sobram poucos dos próprios Alcobacences! Talvez não tenha mudado quase nada, a perspectiva é que é outra. Mas ainda é a terrinha, e esta desertificação no litoral até me faz pensar que se alguma vez optar por uma vida de recolhimento “espiritual”, o que se me afigura como cada vez mais provável, possivelmente o farei regressando a esta casa! Afinal, para um recolhimento ligeiro está perfeito Alcobaça, pois não se passa lá grande coisa, mas está relativamente perto de onde tudo se passa! Se o aeroporto se construir de facto na OTA, creio que este sossego não resistirá. E a esta altura já nem sei se isso é bom ou mau! Crescimento de betão à portuguesa dá-me asco. Mas às vezes é melhor esse que nenhum.

O futuro aeroporto da zona centro, para mim é paradigma do que se passa me Portugal: muita conversa, muito estudo, muitas criticas, pouca acção. Há 30 anos ou mais que se fala nisso. Vários governos já decidiram avançar. Já se escolheu o sitio. Já se mandou parar tudo. Já se abriram e reabriram várias hipóteses, e os partidos já voltaram atrás nas suas posições conforme a se estão no governo ou na oposição! Toda a gente tem opinião e como é óbvio as opiniões tendem a apoiar mais as hipóteses contrárias às decisões tomadas. Afinal, se os políticos dizem uma coisa o melhor deve ser o contrário! Ninguém toma decisões. Pois a mim é-me indiferente. Que construam ou não e qual a opção. Se tivesse de votar escolheria a OTA mas as otras opções não serão muito piores. Se não querem construir não construam, mas se é realmente necessário deitem mãos à obra! E ao TVG. O aeroporto de Madrid, Barajas, já vai no terminal 4, que só por si é maior de o da Portela, e está em obras de ampliação constantes, tem até Metro dentro! A discussão em torno do novo aeroporto é sintomática do que Portugal é. Muitas promessas, muita conversa e pouca acção.

O governo do PS do Sócrates está a governar tão absolutamente ao centro que está a deixar a oposição enrascada mesmo tentando fazer algumas reformas incomodas em tempos de crise. No fundo governa como qualquer governo social democrata da Europa ocidental faria. Todos influenciados pela terceira via do Blair, que nada mais é que neo-liberalismo com bom senso, e pelos mandamentos da politica da UE e pelos ditames do FMI e da globalização. Não sobra muita margem de manobra. E assim o gov aproveita a maioria absoluta, que dá um mínimo de estabilidade e confiança a um sistema politico que favorece governos fracos e instáveis, para tentar fazer aquelas reformas que já se deviam ter feito há muito tempo, quando ainda não eram tão urgentes, quando o $ da UE dava margem de manobra. Reformas que já o Cavaco deveria ter começado mas ainda era cedo se pensarmos de onde vínhamos. Reformas que o Guterres “sondagens” não fez. Reformas que o Durão “vou mas é para a UE” não fez. Reformas que o governo da dupla Santana-Portas não fez, nem poderia fazer pois era um governo me minoria e me dupla, condenado à partida. Que reformas? Ora, ele não pode mudar o país todo, só pode mudar o Estado e o que dele depende. E já não é pouco. Assim, está a tentar controlar as finanças (o que não seria se a UE não nos impuse-se limites!) e com elas justificando os cortes nos benificios trabalhistas dos diversos serviços da função pública, como por exemplo no sector da educação! Eu até tenho mãe e sogra no sistema nacional de educação. Elas estão à beira de um ataque de nervos e por elas tenho pena, e compreendo que depois de mais de 30 anos de trabalho num sistema de autonomia, facilidades e regalias não é fácil perder privilégios. Mas acho que, em geral, as mudanças estão MUITO bem! Ao fim ao cabo estão a pedir ás escolas e aos professores um pouco mais de rigor e profissionalismo, algo mais próximo ao que se faz no sector privado, e acho muito bem. O ensino não vai melhorar. Como se sabe em Portugal o sector privado da educação ainda não é melhor que o público. Mas também não é por causa destas mudanças que vai piorar (está a piorar porque os “miudos” não se enquadram nas escolas, pura e simplesmente). E pelo menos acaba-se com a atitude de desperdício e impunidade que reinava neste e em outros sectores do Estado. Até havia bons professores e boas escolas. Mas também havia muitos muito maus. E os bons não eram reconhecidos e recompensados, e os maus não eram castigados e afastados. Pelo menos o Estado já está poupar dinheiro, o que já não é pouco. Tendo em consideração que a maioria dos alunos hoje em dia faz tudo o que é possivel para desaproveitar ao máximo o sistema nacional de educação (que como em todos os países está a ter dificuldade em adapatar-se à geração da Tv e internet), creio que evitar desbaratar dinheiro nele é um bom começo. Gostava muito de ver o Estado central a impor um forte rigor financeiros nos municípios portugueses, porque aí também há muita corrupção, desperdício e impunidade.

Assim, o governo, que de “esquerda” só tem apelido, tem uma aprovação nas sondagens relativamente alta. Porque a maioria compreendem que se está me crise, que é preciso fazer alguma coisa, que é preciso estabilidade e que afinal é preciso acabar com o desperdício e com “mamanço”. Claro que todos reclamam quanto o “rigor” chega ao seu sector, mas aplaudem e aprovam o que se faz nas outras areas. Pelo menos em casa, porque no café não se deve correr o risco de apoiar alguma coisa que afecta a um amigo, familiar ou colega, pelo que o melhor é dizer mal de tudo! Dizer mal cai sempre bem. Mas como o Governo PS está a governar relativamente bem, como governaria o PSD se tivesse lá com uma boa equipa e maioria absoluta, então não se critica o que se faz e sim quem e como se faz. É um clássico. Como o PSD (até o PP e o PCP) está 99% de acordo com a politica económica do governo então critica-se o “despotismo” e arrogância do PM. Supostamente há falta de dialogo! E fala-se até em pseudo falta de democracia! É só rir. Mas o que queriam? Que o PM governa-se ainda menos, não fize-se nada e pedi-se opinião, autorização e sondagens para tudo? Outro Guterres? Já ao Cavaco acusavam do mesmo! Lembro-me de dizerem que a direita tinha voltado ao poder, controlava a informação, etc. Agora dizem que é o Sócrates que manipula a comunicação social, e que esta é maioritariamente de esquerda! Mas a SIC e o expresso do Pinto Balsemão são empresas de “esquerda”? E a TVI, e o DN/JN, e o Público? E a revista Atlântico e o Independente e uns quantos mais, também são de esquerda? E os blogs da internet também são controlados pelo PM e pela “esquerda”, a famosa mão invisível que controla o mercado? ! Haja queixas, bodes expiatórios e teorias da conspiração!

Enfim, eu creio que
não está tudo tão mal como se diz e as coisas não vão mudar substancialmente, nem para melhor nem para pior. O governo está apertado, e mesmo que quisesse não poderia fazer muito melhor. A classe média está e vai estar cada vez mais apertada e nem por isso vai deixar de ser Estado-dependente para passar a ser empresário-empreendedora, não de um momento para o outro. Os empresários não vão surgir do nada de repente com novas atitudes fulgurantes, corajosas e empreendedoras. Por isso vai tudo ficar mais ou menos como está, “à rasca”. Vamos continuar a desconvergir ligeiramente com a Europa, vamos voltar a ser cada vez mais periféricos numa europa que gira mais a leste, e vamos continuar a sumir-nos tanto na globalização como num mundo que é cada vez mais de zero e uns, de bits e coisas que tais. E aí estão também as melhores oportunidade que só alguns poucos vão saber aproveitar.

Entretanto em Espanha...

Em Espanha o cenário é diferente. As contas da economia publica à 3 anos consecutivos
que dá superávit! O governo PSOE do ZP e algumas regiões administrativas espanholas até se dão ao luxo de dar dinheiro a quem tem filhos, subsídios de arrendamento jovem, fala-se em subsídios para as crianças que ficam nas “guarderias” e em passar o ordenado mínimo (que já é bastante superior ao português) para cerca de 1000 euros ao mês. As autoestradas (a maioria não pagas) e os TGV já percorrem quase todo o país e estão em vias de ir até todos os lados. Há dezenas de aeroportos internacionais. Os gays podem casar-se. Ainda não se vê tanto BMW per capita como em Portugal, mas o consumismo de um espanhol médio faria inveja a muitos jet set portugueses. A sensação nitida é de que nunca aqui se viveu tão bem.

A sensação de quem? A minha. Porque a dos espanhóis não é essa. Eles estão satisfeitos com os últimos governos que ajudaram a construir este cenário, seja ele o actual ZP do PSOE, ou o anterior Aznar do PP? A esmagadora maioria não. Estão satisfeitos com as suas famílias, amigos, trabalhos, patrões, com eles mesmo? São felizes? Não. Como se sabe o materialismo é como o hedonismo: nunca se satisfaz e ainda deixa grandes vazios. As neuroses individuais, familiares e sociais dos espanhóis devem ser das mais altas do mundo, não fossem eles tipicos latinos de sangue quente com tendência para o exagero em tudo! Como não se pode falar em crise, de há uns anos a esta parte passou a falar-se na...crise que vem aí! Antes o Governo ajudava pouco (apesar de a segurança social aqui ser melhor que a portuguesa) e por isso criticava-se. Agora critica-se pelos subsídios que dá! “É uma vergonha” . Segundo a “direita”, o PP e os sectores da igreja (que aqui não é um poder espiritual paralelo e sim alinhado) o Governo PSOE está nas mãos dos terroristas e e dos maçons republicanos ateístas que vão acabar por destruir a democracia, a Espanha e os valores cristãos sagrados! Segundo grande parte da “esquerda” o PP e a igreja já são pouco mais que uma sucursal da Opus dei.
A menos de um ano de eleições gerais o clima político e social é crispadissímo se comparado com o português! Parece que há duas seitas, com os seus jornais, rádios e televisões e com os seus partidos. Os espanhóis queixam-se de tudo! Eu só me rio!

Entretanto, algo perdido, anda o Porto! Salvo seja o FCP, pelo menos enquanto o Pinto lá governar. Valha-lhes o FCP, porque em quase tudo o resto o Porto está de rastos! Ainda me lembro de se dizer que no norte se trabalhava e em Lisboa se gastava. Já não é bem assim. Não é que se trabalhe muito mais em Lisboa. É que agora se trabalha muito menos no Porto e arredores. O calçado, o têxtil e os móveis que eram o sustento de milhares de famílias estão à beira da morte. O pequeno comércio tradicional foi quase absolutamente substituído pelos chineses, pelo comércio de hipermercado e de
shopping, concentrado em muito menos franchisings, alguns dos quais estrangeiros. E isso significa muitos milhares de famílias mais pobres e em dificuldades. Isso significa menos consumo para todas os outros negócios de PMEs. As maiores empresas que não faliram, sejam bancos ou Sonaes já não têm sede no Porto. Aliás, algumas já nem têm sede em Portugal. Isso significa que os recursos humanos estão na capital e para candidatar-se a um emprego há que ir a Lisboa. Não só ir a, quase sempre envolve ir para. Imigração. E até emigração para Madrid, ou a Barcelona, Londres, ou Amesterdão! Há novas vagas de emigração. De todos os tipos, desde pedreiros a milhares de licenciados. E muitos são do norte. Não acho que Portugal estejam tão mau como se costuma dizer. Mas o norte está! Acredito que como ali nunca se dependeu tanto do Estado também vai ser mais facil recuperar, através de iniciativas privadas que aproveitem melhor a mão-de-obra disponível. E barata diga-se. Espero estar certo. Gosto das gentes do norte. Força norte. Força Porto. Muita força para os amigos e colegas do Porto.

Portugal está no meu coração. Não por orgulho nacionalista que simplesmente não tenho. Pura e simplesmente porque nasci e cresci aí. Aí estão
as gentes que mais gosto e me ensinaram o que é saudade. E sinto-a.

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Ano velho, novos hábitos.

No inicio de Dezembro mudei de casa. Por opção não trouxemos TV. Sem ser por opção ainda estamos à espera da conexão à internet (estou há 2 semanas com uma provisória tão lenta que nem venho cá fazer quase nada nunca). Ora, isso teve desde logo consequencias significativas no meu dia-a-dia. Sem TV para entreter e alienar um pouco, sem internet para navegar, alguma coisa tinha de preencher o espaço-tempo: mais música e mais livros. E mais silêncio. Hummm, que bom! É especialmente interessante notar o quanto se lê a mais. Em um mês li cerca de 10 livros. No último fim de semana li dois romances em dois dias! Já não fazia nada assim há pelo menos 15anos. A conexão de banda larga à internet deve estar quase a chegar. A TV vamos ver se resistimos.

Bom 2008.
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24.12.07

Boas Festas...

... E FELIZ NATAL.

Para todos e em especial aqueles que tenho visto menos. Penso em todos, com carinho e saudades, sempre. Muitos beijos e abraços. Votos de uma ano de 2008 feliz e realizador. Leia artigo completo

25.11.07

Acelerar e desacelarar...

Viagens, cursos, exames, viagens, dramas familiares, familia, amigos e colegas que visito fugazmente, viagens, km por terra e ar, noites pouco e mal dormidas, comida "basura", lápis de memória com trabalho de 2 meses perdidos, eventos sociais, mudar de casa, aniversários... prazer, stress, saudades. É bom voltar a parar! Ou desacelarar. Pelo menos até ao Natal assim o desejo.

E practica, muita. Mais que nunca..
And here is the rest of it.
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26.10.07

Donostia, pintxos, arte e experiências sinistras!


Há cerca de 3 anos, foi em San Sebastian, ou Donostia, que começou o meu périplo pelos estrangeiros que culminou com a emigração.

Já lá tinha estado uma vez, de passagem, com o amigo Jo e com o To Ribeiro, a caminho de Bordéus. Mas foi há três anos, em Dezembro que fui lá pela primeira de várias vezes para descobrir aquela que é para mim uma das cidades mais belas do mundo!

É pequena em habitantes mas grande em encanto. Muito encanto. Ainda mais quando está bom tempo e chegamos em pleno fim de semana final do prestigiado Festival de Cinema de San Sebastian (o 55º) com o movimento que isso trás, inclusivé uma boa dose de estrelas de Hollywood contratadas para dar glamour ao festival. Mas não é só durante o Festival que a cidade tem um certo ar cosmopolita que faz lembrar outras metrópoles dignas desse nome. As fachadas de majestosos edifícios ao longo do rio e suas pontes fazem de facto lembrar Paris. E com mar! E sem parisinos...

Para ter uma idéia o melhor é visitar diretamente a cidade. Senão, pelo menos uma viagem cibernética, atrás de fotos e vídeo ajuda a dar uma idéia. Para mim é das cidade mais bonitas, mesmo conhecendo bastante bem Itália, e outras partes famosas da Europa! A cidade tem encanto. Um encanto que ainda advém da sua fantástica geografia, um encanto que vem de outros tempos, quando a família real ali iam a passar as suas férias de verão. Curiosamente não tem quase nada muito antigo. O Chamado casco antigo, tão típico das cidade espanholas, aqui parece muito mais antigo do que realmente é, pois ainda há não muitos séculos foi tudo destruído por guerra e incêndios, onde aliás os portugueses colaboraram com muito gosto, por motivo da famosa aliança britânica. Enfim, coisas da História.

Estamos em pleno País Basco. E isso é bom. E é mau! É bom porque eu adoro o Cantábrico, com a suas baias, as suas praias, o seu mar e ondas. É bom porque as pessoas são directas e honestas, o que pode dar a parecer que são agressivas, mas não é assim tanto. O outro lado, o mau, tem nome: eta. E o que ela significa: nacionalismo basco. E a Eta-nacionalismo basco tem uma marca principal: esquerdismo nacionalismo que é a mistura religiosa mais perigosa que as alquimias políticas alguma vez produziram. Não vale a pena entrar muito por este assunto, mas ele é omnipresente nesta sociedade. Como eles são essencialmente ricos, pelo menos são os mais ricos de Espanha, não têm muito do que se queixar, acaba por ser esse um dos pouco assuntos políticos na agenda, e por isso também o que ganha cada vez mais destaque. E está presente em quase tudo, desde a língua basca (Eskera) que é utilizada para produzir desentendimentos, sectarismo e discriminação real, até ao “imposto revolucionário” que os esquerdistas da ETA sacam a bem ou a mal das empresas bascas. A coisa vai a tal ponto que o assunto nacionalismo, embora sempre presente, é uma espécie de tabu para uma grande parte da população, principalmente os mais tolerantes ou simplesmente desinteressados nestas questões, que ao não se definirem são imediatamente acusados de direitistas, anti-nacionalistas (como se fosse uma ofensa), e até “chivatos”.

É incrível como pessoas cultas, educadas, amigáveis, se tornam fanáticos perigosíssimos de um momento para o outro ao ser tocado num seu ponto sensível, que neste caso é o nacionalismo basco. Enfim, se acontece até com o yôga porque não deveria acontecer com este tipo de religião?! O certo é que ali não há grande espaço para ser rebelde sem causa. A causa a aderir é mais que evidente.

Voltando ao bom: 1- a beleza geral de toda a cidade. 2- os pintxos!

Dizem que os melhores cozinheiros e restaurantes do mundo são bascos. Salvo exageros vale a pena, principalmente para não vegetarianos, ir até lá só para comer.

Depois ainda aproveitamos à vinda para passar por Gestona, onde passoas a visitar uma das mais famosas escolas espanholas de Yôga. Realmente estava lá. A porta até estava aberta. Entramos, vimos sapatos de gente que estava me sala de aula, tentamos perguntar informações com um individuo que era nitidamente residente do “ashram”e que não parecia nada interessado em estabelecer comunicação, aproveitamos fomos ao WC, passamos pela cozinha, esperamos mais uns minutos e... nada! Ninguém. Sinistro!!!

Seguimos adiante, fomos para Bilbao. E não, não voltei a entrar no Guggenheim, que eu acho interessante a nível arquitectónico mas igualmente insignificante a nível de conteúdos. De todas as vezes que lá fui a obra de arte que mais gostei foi o mega cão feito de arbustos que está fora, à porta do museu!

E Bilbao? Pense em Donostia, é o oposto! Grande, hiper industrializado, zero de beleza e glamour. Se não fosse o museu ninguém lá pararia. É incrível como uma obra solitária pode ser tão influente. Mérito principal do arquitecto. O certo é que o raio da cidade se tornou uma referencia para artistas, e tem realmente um movimento grande nesse aspecto, incluindo até uma zona de galerias etc. Dispensável. Para mim os pinxtos que vi e comi em Donostia superam largamente qualquer obra de arte avaliada em biliões e que fazem passar naquele também caríssimo museu!

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7.10.07

Press-release: perigo, o quarto poder é o primeiro!

Os dilemas da comunicação e informação...

Uma das realidades que mais me tem feito reflectir ultimamente é a questão da comunicação entre as pessoas e a credibilidade da informação! Mais propriamente o “ouvi dizer”, o burburinho, os rumores, as especulações, as fofocas. E em especial esse burburinho que é feito por aqueles que escrevem e falam em jornais, sejam eles televisivos, de papel, ou de zeros e uns, ou seja, os ditos jornalistas e as suas noticias. Interessa-me especialmente estes pois são os que têm mais projecção, mais poder, mais influência. Não só porque dispõem de mais meios, mas também porque estamos predispostos a dar-lhes mais credibilidade. E no entanto...

size:85%;">Desconfio mais de tudo o que se diz e de quem o diz. Não de trata de crer nas teorias da conspiração ou achar que o sistema é mau. Ele é o que é, e creio que a maioria das pessoas se esforça para fazer o melhor que pode e sabe com a mais honestas das intenções, que não sendo quase nunca puras, creio que são, ainda assim, boas. E as corruptelas que distorcem e inventam a informação estão tanto do lado de quem a produz como de quem a consome, até porque o “busilis” da questão é precisamente a interpretação dos ditos factos, neste caso os factos que seriam a substância da informação. E a questão é justamente essa: o que é um facto? Um facto dito objectivo, um realidade que não dependa da interpretação sempre subjectica de uma pessoa, uma verdade absoluta universal...existirá? Creio que não.

Outra questão importante é a avidez das pessoas pelo negativo, seja a critica, a pura maldicência ou mesmo o mórbido.

Qualquer um que se detenha a observar com atenção e profundidade este fenômeno numa qualquer área, nomeadamente aquelas onde nos inserimos profissionalmente, percebe que é fácil ver todo tipo de versões sobre os mesmos factos. Eu observo isso diariamente no mundo do yôga, que eu conheço bem por dentro. E tal como no yôga, fora dele é igual . Na política espanhola e no espectaculo mediático que a envolve isso é fantástico de observar. Aqui há jornais, rádios e tvs dos dois bandos principais (e também os afectos aos grupos minoritários), cada qual em plena campanha permanente pelo seu sector, cada qual dando a sua versão do mesmo mundo, e muitas vezes dos mesmo factos, que lidos em jornais diferentes parecem coisas opostas! Os partidos políticos não apenas sabem que isso é assim. Eles estão metidos por dentro desse jogo, jogam-no como actores informativos (sempre discretos, mais ou menos dissimuladamente), e sinceramente é quase impossível discernir onde começa e acaba a informação, o facto, o informador... O que veio primeiro? O ovo ou a galinha? O facto político ou a noticia política? Eu diria que há factos políticos para além das noticias, mas todos as noticias são factos políticos em si mesmas. Quais os critérios que podem distinguir claramente um programa de informação de um infomercial? Onde começa e acaba o marketing ou a opinião e começa um relato supostamente descritivo, ou até “objectivo”? Como podemos estar sempre cientes de quem financia ou contracta o jornalista, a sua empresa e a sua peça jornalistica? Quais os poderes ocultos que se movem discretamente por trás para nos convencer com informação supostamente independente e até "cientifica"? Não sei. Mas sei que o chamado quarto poder nem sempre é o quarto no ranking misturado e oscilante dos poderes sociais.

Em Espanha é muito interessante observar tudo isto no chamado o “circo da F1”. Não esquecendo que aqui há um bi campeão do mundo a lutar pelo terceiro titulo consecutivo. Some-se a paixão típica do carácter latino do espanhol e temos um verdadeiro espectáculo mediático que ultrapassa muito as corridas, as boxes, as oficinas e fábricas, ou até mesmo o mundo dos patrocínios. Basicamente, e para resumir, os jornais e jornalistas espanhóis são mais espanhóis que jornalistas. E são fanáticos do F. Alonso. E como qualquer fã querem possuir o seu ídolo. Viver um pouco da sua vida. Quiça até influênciá-la! Alguns jornalistas fazem-no, contando à partida que terão milhões de espectadores para embarcarem com avidez e ansiedade nas suas alucinações informativas, muitíssimo mais dadas a especulação pura e dura do que a algum tipo de informação dita objectiva. É muito engraçado: o F. Alonso dá uma entrevista cuidadosamente calculada para não dizer nada polémico, tentando acalmar os ânimos, tudo dentro do ultra politicamente correcto, essa entrevista ás vezes até é reproduzida integralmente, e logo os jornalistas conseguem encontrar uma vírgula, uma expressão ocular, uma pausa mística no discurso (ou uma fonte secreta e nunca comprovada) por onde retiram todo tipo de ilações que transcendem e até pervertem em absoluto o que acabaram de dizer os entrevistados! O curioso é que os títulos, resumos e comentários conseguem dizer o contrário do que o facto-entrevista (que muitas vezes nem sequer existe) queria dizer. O certo é que este espectáculo mediático (nunca melhor apelidado de circo) tem repercussões no desenrolar das próprias corridas e classificações. Como mínimo cria uma expectativa e tensão que afecta os próprios pilotos e suas equipas. Mas claro, se não fosse por tudo isto eles também não teriam contratos no valor de tantos milhões!

E isto nem sequer chega perto da alucinação coletiva e “informativa” do chamado caso Madaleine (ou o da Casa Pia, por exemplo)! Isso sim é esclarecedor quanto à falta de objectividade e doses industriais de interesses insuspeitos e emocionalidade colectiva que inflamam o mundo noticioso, não só pelo lado de quem produz como do lado de quem consome! Tenho visto advogados, médicos e engenheiros a consumir estas histórias como se mais uma novela se trata-se, mais um BB ou “sobreviventes”. Talvez por isso, porque o objectico é diversão e evasão, nem sequer valha a pena parar um momento para pensar: não será tudo um espetáculo informativo que me estão aqui a vender porque sabem que eu quero entretenimento para me alienar um do stress diário? E sim, vender, porque ao contrário do que se pensa os telejornais e outros noticiários pagam-se em forma de custos de publicidade que depois nos cobram aos comprar os produtos no supermercado!

E isto vale igual para tudo. Tanto para as noticias sobre as guerras como para o futebol, as fofocas familiares ou entre amigos. É a questão da comunicação social. Com ênfase no social.

Fico a perguntar-me? Até que ponto confiar? Quantas e quais fontes consultar? Não seria melhor deixar de ler e ouvir noticiários? Afinal de contas, aquilo que realmente for importante eu ficarei a saber mais tarde ou mais cedo. E o restante, os outros 99% de show prefiro deixá-los para ter espaço e permitir entrar (in-) conteúdos realmente formativos (-formação). Ou melhor ainda: practicar yôga, meditar! Conhecimento directo.

No fundo nem é assim tão grave. Quase sempre onde há fumo há fogo. Quase. E apesar de não crer que “a verdade vem sempre ao de cima” creio que uns tempos depois dos ânimos acalmados, já com quase tudo consumado e sem direito ás devidas reparações por eventuais injustiças, o que fica será bastante próximo à substância dos factos. Pelo menos gosto de pensar que a realidade não é total e profundamente esquizofrênica. Ainda assim me interrogo sobre quantas daquelas realidades que hoje consideramos factos históricos “provados”, não serão um conto do vigário que assentou bem. Mas se não é fácil estabelecer bases seguras quanto ao presente o que dizer quanto ao passado?

Nem sei se é para rir ou para chorar. Como sempre prefiro rir das minhas próprias contemplações.
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Pico Uriello Setembro 2007

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3.10.07

Montanhismo - Asturias


Uma das coisas que mais agradável me pareceu nas Asturias foi o acesso privilegiado aos Picos da Europa, que oferecem condições óptimas para quase todo tipo de practicas de (baixa) montanha. Desde logo senderismo (treking) e escalada que são o que mais me atrai, mas também canoagem, espeleologia, etc.

Há pouco mais de um ano atrás tive as minhas primeiras experiências de montanha. Foram os preliminares. A primeira foi uma caminhada até um pico ultra facíl depois de umas 4 horas de caminho fácil que não alcançamos devido á tão característica neblina. Outro pico já um pouco menos acessível onde optamos por não subir os últimos metros porque tinha umas “passagens aéreas” levemente arriscadas que obrigavam a uma cuidadosa e lenta abordagem que colocava em causa o tempo de regresso seguro. Esse foi no maciço oriental, já para os lados da Cantábria. Entretanto fizemos um desfiladeiro "de las xanas", facil, rápido e lindo. Bebi agua do rio e fiquei dois dias de barriga afectada. E finalmente o primeiro pico alcançado, com condições nevadas e um dia lindo, na cordilheira cantábrica (lado ocidental). Foi o primeiro orgasmo.


Há cerca de um mês atrás tive aquela experiência que considero a perda da minha virgindade. Travessia em solitário de dois dias, com pernoita em refugio de montanha (Vergarredonda), em pleno maciço ocidental, partindo dos Lagos de Covadonga para alcançar o refugio após umas 3 horas e subir mais duas horas até ao miradouro dos Ordiales, com uma vista absolutamente magnífica par aum canyon do lado ocidental dos Picos. À volta fiz um desvio a meio caminho, em absoluto solitário, por dentro de um bosque até ao leito de um rio, que atravessei após descanso para banho e comida, e a partir do qual tive de procurar o caminho de saída. Foi mágico. O melhor momento seguido do pior, quando estive cerca de uma hora desviado do caminho certo, perdido por um terreno horrível e em pleno sol tórrido. Foi a minha iniciação. Adorei.

Há duas semanas subimos (eu e a Joana) ao pico mor: Uriello. Impressionante. Nas fotos nem se vêem, mas naquelas paredes enormes e verticais há vários gajos a escalar! O passeio até lá também é bem bonito, e faz-se relativamente bem: 3 horas a subir, duas e meia a descer, desce o ponto de estacionamento já bem dentro e subido na montanha.

Dizem que a montanha vicia. Aqui é um desporto quase de massas e já conheci alguns viciados. Não creio que me vá viciar, mas estou a adorar integrar-me a esta actividade.

Adoro estar lá fora, bem metido dentro dos montes e vales.
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2.9.07

China, India, Brasil e outros epicentros assustadores...


Estava a ver hoje no jornal que dentro das 10 maiores empresas cotadas em bolsa há já 3 chinesas !Uma delas em terceiro lugar. Todas de control maioritáriamente estatal-comunista! É a implosão dos paradigmas clássicos. E a tendência parece ser a de que cada vez mais empresas desse país e de outros emergentes, tanto da ásia como da américa do Sul, ocupem cada vez mais postos mais altos neses rankings tão significativos. É um fenómeno que já não é novo e que todos os prognósticos apontam: os epicentros do poder economico, e logo de decisao, estão a mudar de coordenadas. Ou pelo menos a deixar de estar tão centrados na UE e EUA. Isto para um Europeu com gosto em sê-lo como eu (mas sem especial orgulhos) é quase assutador.

Um caso específico é o dos chineses. Para mim é o mais assustador porque que são muitos, são imparáveis e creio que são racistas. E não me parece que haja que esperar muito menos do que os nossos antepaçados fizeram há não muito tempo. Eles não vêm aí, eles já estão aí. Não é só em cada esquina das cidades europeias e americanas, é também nos postos mais altos do jogo politico-economico-cultural. E só estarão cada vez mais, mais fortes, mais mandões. Uma coisa que noto na China é o sentido practico, o senso comum, e o sentido de comunidade. Não sei se é de serem uma civilização tão antiga ou se é um acaso do Confucionismo misturado a Budismo e recliclado pelos modernos comunismos-capitalistas, mas o facto é que ali não há sentimentos de culpa quanto a dinheiro (isso é absolutamente cristão). Ali tudo gira em torno do grupo: a família, a empresa, o partido, o país. E nesse contexto, um contexto d ebiliões, não há hesitações quanto ao uso da pena de morte, que se aplica com toda a naturalidade para que o grupo avance sobre o indivíduo. Individuo?!? Estará presente esse conceito na mente de um chinês? Assustador.

Outro caso é a Índia. Não acho que os indianos (esse invenção tão moderna e europeia) sejam racistas. Esses são piores, são (neo)nacionalistas e com tendência para fanátimos religiosos, por enquanto anti-muçulmano.

O que é pior, nacionalismo racista ou nacionalismo religioso? Tendo em conta que se contam todos em centenas de milhão e que têm bombas atómicas é caso para dizer que "venha o diábo e escolha". Eu ainda simpatizo mais com os indianos...

O poderio económico e cultural que desponta na Índia é um caso curioso, pois não se trata própriamente de um sistema e sim da falta de qualquer sistema. É uma bagunçada total entre tradição e modernidade, entre europeismo e neo nacionalismo hindu, entre “castas à la hindu” e “castas à la europeia” (leia-se classes sociais que se distinguem essencialmente pelo poder material), entre anti-muçulmanismo e um hinduísmo mega multi fragmentado, entre esquerdismos delirantes, burocracias kafkianas e um capitalismo ultra liberal sem preocupaçoes significativas e efctivas para conseguir uma menos díspar desigualdade social, ou um desenvolvimento minimamente respeituso com os parametros ecológicos, numa sociedade ainda muita agrária, de agricultura de subsistência que coabita lado a lado com outra absolutamente urbana e ultra educada e preparada para as novas tecnologias...o que raios é a Índia? Defini-la é quase impossivel, mas é fácil perceber que são muitos e ali está-se a gerar um grande poder.

Outro caso interessante é o Brasil. O Brasil é muito parecido com a Índia, pelo menos na bagunça e impossibilidades de definição. E na estéctica. Mas ali a matriz é tipo cristão, de marca europeia, até ligeiramente portuguesa. Mas ao contrário de todos está no hemisfério sul. Como qualquer nação nova e sem identidade abraça o neo-nacionalismo, mas sem um mínimo de sentido grupal. Como nação jovem que são (neste caso estão mais ou menos no inicio da puberdade) são rebeldes. Contra si mesmo como é óbvio. Divertem-se em delirios de crítica e esperança. Está tudo mal, estão todos mal, o “sistema-poder” é absolutamente desprezivel, há que destruir tudo e todos, por tudo em causa e depois contruir um paraíso qualquer (viva o sonho cristão), que como é óbvio nunca chega, e não vai chegar nunca. Mas pouco a pouco vão crescendo, ficando mais robustos, mais adultos. O clima não lhes favorece só aquela energia á flor da pele que lhes é tão conhecida. Favorece-lhes também, e cada vez mais, a economia, nem que seja ainda pela via agricola e mineral, e isso nada tem de negativo porque por muita inteligência que haja, um homem (e tudo o que mexe) tem de se alimentar (não é a toa que a UE tanto queria defender a sua agricultura a força com a PAC, e que todos estamos no Iraque)). E não é pouco ser o celeiro do mundo, se pensarmos que também já eram (por quanto tempo?) os pulmões, e que ainda se acrescentam as minas, as praias para turismo, e sobretudo uma população jovem, activa, parte dela com um nivel cultural e tecnico muito alto, e uma quantidade de mão-de-obra disponivel que continua em crescendo. Os brasileiros, no seu individualismo exacerbado, não aceitarão nunca sacrifícios em prol do engradecimento comum, mas a sobrevivência nesta selva que é a vida, e que lhes é tão familiar, impor-lhes-á, aos poucos, os sacrificos globais necessários para chegar à vida adulta. Entretanto ainda há muito canarval, mas eles já são uma das 10 maiores potencias do mundo, na minha opinião.

Onde fica, nesta luta de mega potências, o “ocidente” (que se pressupõe do norte), onde fica a nossa querida e velha Europa, onde fica o meu querido e tão afável Portugal? Não sei. Sei que ainda estamos no topo do mundo. Mas um sextuagenário inveja naturalmente um adolescente. Somos mais sábios(?), mas isso fez-nos cínicos. Temos dinheiro e até algum tempo extra para nos apreciar-mos, mas apreciar o quê? O nosso apogeu ou a nossa decadência?

Talvez algum choque derivado de tantos apertos se resolva da maneira mais habitual: uma guerra. A guerra, com bombas atómicas, de hidrógénio e tudo...

Ou talvez isto sejam águas passadas. A nova dimensao virtual esta a construir novos espaços que fazem da globalização que se refere á superficie terrestre um assunto quase ultrapassado. Este novo espaço é elástico e abre terreno a mais vida. O que importa se estamso em Gijón, em São Paulo, em Pequim ou Nova Iorque, se temos uma conexão de alta velocidade a este novo mundo e uma boa habilidade me entendê-lo e nele navegar?
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