Umas voltas mais pelo estado dos países ibéricos
Como não podia deixar de ser, não por enquanto, fui a Portugal. À terrinha. Às terrinhas. Dois dias em Lisboa, dois em Alcobaça, dois no Porto, mais ou menos. Como costume não deu para fazer metade do que queria. E o que queria era ver os amigos, família e colegas. E passear por alguns sítios que me recolocam nas minhas raízes e se possível até repetir a dose mais que uma vez. Mas não dá. É tudo fugaz. E talvez por isso fico logo com saudades outra vez. E talvez por isso veja a nossa terra com outros olhos. Lisboa continua linda. E diga-se que, cada vez mais, Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Para o bem e para o mal.
Desde já se diga que a paisagem, na qual incluo Alcobaça, dá-me imenso prazer. Alcobaça parece-me cada vez mais parada, em alguns momentos parece mesmo senil, mas, e para contrariar esta velhice, está cada vez mais bonita e nesse aspecto mais jovial e agradável. E para quem vai uns dia de férias até sabe bem estar tudo calmo, mesmo que seja calmo de mais. Houve tempos em que Alcobaça atraia mais gentes de Lisboa e arredores, que se juntava em amena cavaqueira e fazia umas festas valentes. Agora parece-me que até já sobram poucos dos próprios Alcobacences! Talvez não tenha mudado quase nada, a perspectiva é que é outra. Mas ainda é a terrinha, e esta desertificação no litoral até me faz pensar que se alguma vez optar por uma vida de recolhimento “espiritual”, o que se me afigura como cada vez mais provável, possivelmente o farei regressando a esta casa! Afinal, para um recolhimento ligeiro está perfeito Alcobaça, pois não se passa lá grande coisa, mas está relativamente perto de onde tudo se passa! Se o aeroporto se construir de facto na OTA, creio que este sossego não resistirá. E a esta altura já nem sei se isso é bom ou mau! Crescimento de betão à portuguesa dá-me asco. Mas às vezes é melhor esse que nenhum.
O futuro aeroporto da zona centro, para mim é paradigma do que se passa me Portugal: muita conversa, muito estudo, muitas criticas, pouca acção. Há 30 anos ou mais que se fala nisso. Vários governos já decidiram avançar. Já se escolheu o sitio. Já se mandou parar tudo. Já se abriram e reabriram várias hipóteses, e os partidos já voltaram atrás nas suas posições conforme a se estão no governo ou na oposição! Toda a gente tem opinião e como é óbvio as opiniões tendem a apoiar mais as hipóteses contrárias às decisões tomadas. Afinal, se os políticos dizem uma coisa o melhor deve ser o contrário! Ninguém toma decisões. Pois a mim é-me indiferente. Que construam ou não e qual a opção. Se tivesse de votar escolheria a OTA mas as otras opções não serão muito piores. Se não querem construir não construam, mas se é realmente necessário deitem mãos à obra! E ao TVG. O aeroporto de Madrid, Barajas, já vai no terminal 4, que só por si é maior de o da Portela, e está em obras de ampliação constantes, tem até Metro dentro! A discussão em torno do novo aeroporto é sintomática do que Portugal é. Muitas promessas, muita conversa e pouca acção.
O governo do PS do Sócrates está a governar tão absolutamente ao centro que está a deixar a oposição enrascada mesmo tentando fazer algumas reformas incomodas em tempos de crise. No fundo governa como qualquer governo social democrata da Europa ocidental faria. Todos influenciados pela terceira via do Blair, que nada mais é que neo-liberalismo com bom senso, e pelos mandamentos da politica da UE e pelos ditames do FMI e da globalização. Não sobra muita margem de manobra. E assim o gov aproveita a maioria absoluta, que dá um mínimo de estabilidade e confiança a um sistema politico que favorece governos fracos e instáveis, para tentar fazer aquelas reformas que já se deviam ter feito há muito tempo, quando ainda não eram tão urgentes, quando o $ da UE dava margem de manobra. Reformas que já o Cavaco deveria ter começado mas ainda era cedo se pensarmos de onde vínhamos. Reformas que o Guterres “sondagens” não fez. Reformas que o Durão “vou mas é para a UE” não fez. Reformas que o governo da dupla Santana-Portas não fez, nem poderia fazer pois era um governo me minoria e me dupla, condenado à partida. Que reformas? Ora, ele não pode mudar o país todo, só pode mudar o Estado e o que dele depende. E já não é pouco. Assim, está a tentar controlar as finanças (o que não seria se a UE não nos impuse-se limites!) e com elas justificando os cortes nos benificios trabalhistas dos diversos serviços da função pública, como por exemplo no sector da educação! Eu até tenho mãe e sogra no sistema nacional de educação. Elas estão à beira de um ataque de nervos e por elas tenho pena, e compreendo que depois de mais de 30 anos de trabalho num sistema de autonomia, facilidades e regalias não é fácil perder privilégios. Mas acho que, em geral, as mudanças estão MUITO bem! Ao fim ao cabo estão a pedir ás escolas e aos professores um pouco mais de rigor e profissionalismo, algo mais próximo ao que se faz no sector privado, e acho muito bem. O ensino não vai melhorar. Como se sabe em Portugal o sector privado da educação ainda não é melhor que o público. Mas também não é por causa destas mudanças que vai piorar (está a piorar porque os “miudos” não se enquadram nas escolas, pura e simplesmente). E pelo menos acaba-se com a atitude de desperdício e impunidade que reinava neste e em outros sectores do Estado. Até havia bons professores e boas escolas. Mas também havia muitos muito maus. E os bons não eram reconhecidos e recompensados, e os maus não eram castigados e afastados. Pelo menos o Estado já está poupar dinheiro, o que já não é pouco. Tendo em consideração que a maioria dos alunos hoje em dia faz tudo o que é possivel para desaproveitar ao máximo o sistema nacional de educação (que como em todos os países está a ter dificuldade em adapatar-se à geração da Tv e internet), creio que evitar desbaratar dinheiro nele é um bom começo. Gostava muito de ver o Estado central a impor um forte rigor financeiros nos municípios portugueses, porque aí também há muita corrupção, desperdício e impunidade.
Assim, o governo, que de “esquerda” só tem apelido, tem uma aprovação nas sondagens relativamente alta. Porque a maioria compreendem que se está me crise, que é preciso fazer alguma coisa, que é preciso estabilidade e que afinal é preciso acabar com o desperdício e com “mamanço”. Claro que todos reclamam quanto o “rigor” chega ao seu sector, mas aplaudem e aprovam o que se faz nas outras areas. Pelo menos em casa, porque no café não se deve correr o risco de apoiar alguma coisa que afecta a um amigo, familiar ou colega, pelo que o melhor é dizer mal de tudo! Dizer mal cai sempre bem. Mas como o Governo PS está a governar relativamente bem, como governaria o PSD se tivesse lá com uma boa equipa e maioria absoluta, então não se critica o que se faz e sim quem e como se faz. É um clássico. Como o PSD (até o PP e o PCP) está 99% de acordo com a politica económica do governo então critica-se o “despotismo” e arrogância do PM. Supostamente há falta de dialogo! E fala-se até em pseudo falta de democracia! É só rir. Mas o que queriam? Que o PM governa-se ainda menos, não fize-se nada e pedi-se opinião, autorização e sondagens para tudo? Outro Guterres? Já ao Cavaco acusavam do mesmo! Lembro-me de dizerem que a direita tinha voltado ao poder, controlava a informação, etc. Agora dizem que é o Sócrates que manipula a comunicação social, e que esta é maioritariamente de esquerda! Mas a SIC e o expresso do Pinto Balsemão são empresas de “esquerda”? E a TVI, e o DN/JN, e o Público? E a revista Atlântico e o Independente e uns quantos mais, também são de esquerda? E os blogs da internet também são controlados pelo PM e pela “esquerda”, a famosa mão invisível que controla o mercado? ! Haja queixas, bodes expiatórios e teorias da conspiração!
Enfim, eu creio que não está tudo tão mal como se diz e as coisas não vão mudar substancialmente, nem para melhor nem para pior. O governo está apertado, e mesmo que quisesse não poderia fazer muito melhor. A classe média está e vai estar cada vez mais apertada e nem por isso vai deixar de ser Estado-dependente para passar a ser empresário-empreendedora, não de um momento para o outro. Os empresários não vão surgir do nada de repente com novas atitudes fulgurantes, corajosas e empreendedoras. Por isso vai tudo ficar mais ou menos como está, “à rasca”. Vamos continuar a desconvergir ligeiramente com a Europa, vamos voltar a ser cada vez mais periféricos numa europa que gira mais a leste, e vamos continuar a sumir-nos tanto na globalização como num mundo que é cada vez mais de zero e uns, de bits e coisas que tais. E aí estão também as melhores oportunidade que só alguns poucos vão saber aproveitar.
Entretanto em Espanha...
Em Espanha o cenário é diferente. As contas da economia publica à 3 anos consecutivos
que dá superávit! O governo PSOE do ZP e algumas regiões administrativas espanholas até se dão ao luxo de dar dinheiro a quem tem filhos, subsídios de arrendamento jovem, fala-se em subsídios para as crianças que ficam nas “guarderias” e em passar o ordenado mínimo (que já é bastante superior ao português) para cerca de 1000 euros ao mês. As autoestradas (a maioria não pagas) e os TGV já percorrem quase todo o país e estão em vias de ir até todos os lados. Há dezenas de aeroportos internacionais. Os gays podem casar-se. Ainda não se vê tanto BMW per capita como em Portugal, mas o consumismo de um espanhol médio faria inveja a muitos jet set portugueses. A sensação nitida é de que nunca aqui se viveu tão bem.
A sensação de quem? A minha. Porque a dos espanhóis não é essa. Eles estão satisfeitos com os últimos governos que ajudaram a construir este cenário, seja ele o actual ZP do PSOE, ou o anterior Aznar do PP? A esmagadora maioria não. Estão satisfeitos com as suas famílias, amigos, trabalhos, patrões, com eles mesmo? São felizes? Não. Como se sabe o materialismo é como o hedonismo: nunca se satisfaz e ainda deixa grandes vazios. As neuroses individuais, familiares e sociais dos espanhóis devem ser das mais altas do mundo, não fossem eles tipicos latinos de sangue quente com tendência para o exagero em tudo! Como não se pode falar em crise, de há uns anos a esta parte passou a falar-se na...crise que vem aí! Antes o Governo ajudava pouco (apesar de a segurança social aqui ser melhor que a portuguesa) e por isso criticava-se. Agora critica-se pelos subsídios que dá! “É uma vergonha” . Segundo a “direita”, o PP e os sectores da igreja (que aqui não é um poder espiritual paralelo e sim alinhado) o Governo PSOE está nas mãos dos terroristas e e dos maçons republicanos ateístas que vão acabar por destruir a democracia, a Espanha e os valores cristãos sagrados! Segundo grande parte da “esquerda” o PP e a igreja já são pouco mais que uma sucursal da Opus dei. A menos de um ano de eleições gerais o clima político e social é crispadissímo se comparado com o português! Parece que há duas seitas, com os seus jornais, rádios e televisões e com os seus partidos. Os espanhóis queixam-se de tudo! Eu só me rio!
Entretanto, algo perdido, anda o Porto! Salvo seja o FCP, pelo menos enquanto o Pinto lá governar. Valha-lhes o FCP, porque em quase tudo o resto o Porto está de rastos! Ainda me lembro de se dizer que no norte se trabalhava e em Lisboa se gastava. Já não é bem assim. Não é que se trabalhe muito mais em Lisboa. É que agora se trabalha muito menos no Porto e arredores. O calçado, o têxtil e os móveis que eram o sustento de milhares de famílias estão à beira da morte. O pequeno comércio tradicional foi quase absolutamente substituído pelos chineses, pelo comércio de hipermercado e de shopping, concentrado em muito menos franchisings, alguns dos quais estrangeiros. E isso significa muitos milhares de famílias mais pobres e em dificuldades. Isso significa menos consumo para todas os outros negócios de PMEs. As maiores empresas que não faliram, sejam bancos ou Sonaes já não têm sede no Porto. Aliás, algumas já nem têm sede em Portugal. Isso significa que os recursos humanos estão na capital e para candidatar-se a um emprego há que ir a Lisboa. Não só ir a, quase sempre envolve ir para. Imigração. E até emigração para Madrid, ou a Barcelona, Londres, ou Amesterdão! Há novas vagas de emigração. De todos os tipos, desde pedreiros a milhares de licenciados. E muitos são do norte. Não acho que Portugal estejam tão mau como se costuma dizer. Mas o norte está! Acredito que como ali nunca se dependeu tanto do Estado também vai ser mais facil recuperar, através de iniciativas privadas que aproveitem melhor a mão-de-obra disponível. E barata diga-se. Espero estar certo. Gosto das gentes do norte. Força norte. Força Porto. Muita força para os amigos e colegas do Porto.
Portugal está no meu coração. Não por orgulho nacionalista que simplesmente não tenho. Pura e simplesmente porque nasci e cresci aí. Aí estão as gentes que mais gosto e me ensinaram o que é saudade. E sinto-a.
Leia artigo completo