O consumismo, o Porto, a crise, filosofias de Vida...
O Porto e a suposta crise
Até há 30 anos Portugal era um país essencialmente atrasado, ainda muito rural. Era pobre. O nível de alfabetização era muito baixo e o de alcoolemia era alto. Muita gente vivia da hortinha que tinha atrás de casa, ou na casa do patrão. Alguns sobreviviam como operários de fábricas que na sua grande maioria tinham surgido nos anos 60, a quando a nossa primeira e minúscula revolução industrial. Os nossos pais nasceram ainda no tempo da “outra senhora”, quando o regime dizia que éramos “pobres mas dignos”, e estávamos “orgulhosamente sós”. O banco era debaixo do colchão. A maioria dos nossos pais não chegaram ás universidades e não se tornaram profissionais liberais, muito menos empresários. Mas chegaram lá muitos mais que os nossos avós. E muitos operários fabris, já depois do 25 de Abril, abriram as suas próprias fábricas, com as quais geraram rápidos e volumosos lucros, com os quais compraram Mercedes e casas de praia. E o regime altamente centralizado do Estado Novo preparou o caminho a um Estado burocratizado que pouco a pouco, e muito no pós 25 de Abril, criou muitos empregos estáveis e medianamente bem pagos na função pública, que inchou sem freio. Alguns dos nossos pais emigraram, ou foram à guerra colonial, mas a maioria safou-se, voltou, e Portugal esteve pelo menos uns 25 anos seguidos em crescimento económico sustentado, desde 1975 a 2000, e principalmente de 1986 a 2000, com os biliões e biliões que chegaram da UE com os quais nós devíamos ter preparado para o mercado comum da Europa e global. Bem, os nossos pais passaram dificuldades, queixavam-se, mas foi sempre a subir, cada vez melhor. Cada vez mais emprego, pensões, subsídios e serviços sociais (que se substituíram ao suporte familiar, que como instituição decaiu). E nós só vimos isso, o cada vez melhor, cada vez mais fácil, cada vez mais, mais, mais. Mais férias no estrangeiro, mais roupa, mais comer fora, mais carros, mais casas de praia, mais telemóveis, mais sair à noite para consumir drogas e conviver, mais, mais, mais e mais!
Pois, tudo vai mais ou menos bem, em festa mesmo, quando está a crescer, a subir.
Mas nós, a geração MTV, a geração “rasca” segundo alguns, porque já não temos ideais e interesses políticos e só queremos é “foder”, assumimos que ter lugar na universidade, seja numa publica ou privada, era um direito, algo óbvio, que os pais pagam. Acostumámos-nos a pensar que sairíamos de casa dos pais para a casa que os nossos pais nos dariam. Nós habituámos-nos a ter dinheiro para gastar desde cedo, desde os 5 ou 10 anos, que os pais e avós dão, gratuito, no Natal e aniversário, e nas visitas de fim de semana, e porque sim. A escola e o hospital é gratuito, o Estado, "o papão", tem o dever se assegurar (mesmo que nos escapemos aos impostos). Habituámos-nos a receber sem ter de lutar por isso, a ganhar sem suar. Sem responsabilidade. E talvez por isso adoptamos com tanto gosto a cultura do gastar fácil e rápido, sem receio de ficar sem, sem pensar em poupar. Habituamos-nos a uma cultura americana, de fast food. A consumir e deitar fora, comprar novo, acumular, comprar mais. O consumismo é a nossa filosofia de Vida. Consumir bens, serviços, sensações, “estados de consciência”, etc...
Mas a festa acaba. A festa tem conta. O consumo tem preço. A cobrança vem, mais tarde ou mais cedo, de palitó ou à bruta.
Bem, a Europa e o mundo globalizou-se, as empresas não se modernizaram ou reconverteram como deviam, as poucas novas que surgiram não chegam para empregar a todos, o dinheiro da EU diminuiu, a concorrência aumentou ainda mais, não só dentro da Europa mas sobretudo fora, contas do Estado foram obrigadas a ser levadas com mais rigor e o Estado não pôde continuar a empregar mais gente, nem sequer a pagar subsídios e pensões para tudo e todos.
Entramos em crise. Mas continuamos a consumir como uns loucos.
O país mudou-se para as cidades mas em muitos casos continuam com mentalidade rural e ainda há muita gente deslumbrada por um consumo fácil cujo crescimento parecia não ter fim. E trabalhar que é bom nem gostamos, nem o fazemos bem, nem há suficiente. E consumimos muito mais do que produzimos.
Até agora o desenvolvimento do país, e principalmente o consumo, foi financiado primeiro pelo dinheiro dos emigrantes, depois pelos subsídios vindos da UE (que nos comprou o mercado) e depois pelas poupanças dos avós, os ordenados dos nossos pais de classe média estável (o Estado) e entretanto também pelo crédito. O crédito fácil, aparentemente barato, subvencionado pelo Estado, mantido com juros baixos à força de políticas macro-económicas, o crédito diluído por 50 anos, misturando o crédito da casa, carros, computadores, LCD´s de 42”, férias, roupas, e outras coisas essenciais, tal como o 20º par de sapatos, ou a 10 carteira (que rosa choque para combinar com os sapatos do ultimo baptizado não tinha), e outros coisas essenciais sem as quais não se pode viver.
Os emigrantes já não mandam dinheiro. Agora são outros emigrantes que o mandam para fora. Os subsídios da UE vão diminuindo. As poupanças dos avós estão em vias de desaparecer ainda antes dos próprios. Os ordenados dos papás estão a encolher e com os créditos completamente no limite. E os créditos sobre créditos, para pagar os próprios créditos, são uma ilusão, que mais tarde ou mais cedo nos abeiram ao abismo. E o abismo está aí. Neste momento os nossos créditos, ou seja, o nosso consumo, paga-se com base em créditos que os nossos bancos fazem no estrangeiro, porque já nem os bancos estão com grande liquidez. Uma crise financeira global era mesmo o que nos vinha a calhar bem! Será que é desta que vamos passar a viver do que produzimos, do dinheiro que nós ganhamos, daquilo que realmente criamos?
Mas o pessoal, que se queixa de tudo e até de coisas que ainda não aconteceram, continuam a consumir como loucos, como senão houvesse problemas, como se os problemas se resolvessem como antes, com a prenda de natal da avó, com um subsídio mais vindo da UE.
O Porto, a área metropolitana do Porto, que neste momento liga todas as aldeias e vilas no raio de 50 Km, e já tem quase 3 milhões de habitantes (ainda um pouco menos que a área metropolitana de Lisboa), e o que se ali passa é sintomático do que se passa no país.
Vai abrir mais um mega centro comercial na região, mesmo colado ao Ikea, que por sua vez é gigante e veio para acabar com as poucas marcas e lojas de moveis que ainda havia na região. Mas já havia cerca de uns 10 centros comerciais, todos grandes ou gigantescos. O maior deles está a pouco mais de um Km deste novo que vai agora abrir. Estes novos mega shoppings têm muitos mais lojas que o Porto tinha antes, até há 15 anos atrás. Mas não têm proporcionalmente mais empregados. E sobretudo têm muito menos donos, pois a maioria são franchising internacionais que se repetem iguais em cada um dos shoppings de Portugal tal como de qualquer outro país similar. E a maioria desses franchising são estrangeiros, pelo que a única coisa que aumentou, os lucros de cada loja, revertem na sua grande parte para uns poucos donos estrangeiros. Os portugueses ficam com os empregos a prazo de 6 meses com ordenado mínimo (co-subsidiados pelo Estado para parecer que temos baixo desemprego). E o mais ridículo é que há muita gente que está satisfeita com isso!
O comercio nas ruas do Porto, senão fossem os cafés-taberna, os chineses e as putas, já tinha desaparecido por completo. A ultima vez que ali fui, naturalmente fui a um desses shoppings. Que remédio, não há gente e actividade em mais lado nenhum! Estava tudo cheio e a gente que consumia como sempre, freneticamente. Não era Natal. À noite iriam fazer o costume: exibir as compras do dia enquanto consomem drogas em jantaradas, nos bares e nas discotecas, que é o mais comum. Li uma noticia que os portugueses bateram recordes de férias no estrangeiro! Não me pareceu uma região em crise! Mas está.
O Porto está mal, muito mal. A outrora famosa indústria do norte está em profunda decadência., a desaparecer. As poucas empresas portuguesas que ainda restam e as novas que se vão implementando (a maioria são estrangeiras, com delegações em Portugal) preferem naturalmente ter escritórios em Lisboa (quando não em Madrid), mais perto da burocracia do Estado e do centro do país. E a maioria dessas empresas são de serviços ou logística. Não produzem realmente bens materiais, não são indústria. Ora, sem Estado e sem empresas uma região vive de quê, se esta nem sequer é turística?!
Mas os centros comerciais continuam cheios. As pessoas até passeiam por lá. Se não podem comprar pelo menos vêm, e desejam aquilo que não podem comprar, mas gostariam, e invejam. Que lindo. É o efeito FCP: enquanto há circo para entreter não à mal que não se aguente. E viva o Pinto da Costa.
Consumir é essencial. O sistema está feito para consumir. Se não consomes não existes, não participas, não podes descontar impostos... Consumir é absolutamente necessário para fazer o sistema sustentar-se e os portugueses colaboram com prazer nesse “sacrifício”! Mas esquecem-se que para consumir é preciso produzir para gerar riqueza. E como não temos petróleo só resta trabalhar, ser criativos, acrescentar algo.
A festa acabou. Mas ainda ninguém se foi embora. Embora para onde? Voltar a casa? Qual casa, a dos nossos pais e avós, de há uns 15 ou 20 anos atrás? Cair na real? Ressaca? Não. Vou continuar a consumir como se não houvesse amanhã. Quer dizer, como se hoje fosse ontem!
O país está à espera de um milagre. Um milagre de Estado. O Estado, que na nossa cultura é omnipresente, é o culpado por tudo e tem de ser ele a resolver. Ele quer dizer, os “políticos”. Espera-se um Dom Sebastião, um salvador. O Portas e o Louçã contentíssimos, porque quanto pior melhor, mais hipóteses de revolução, de eles terem o seu momento. O país está à espera de um milagre. Mas um milagre que não vai acontecer. Nada vai voltar atrás. E as mentalidade não se vão mudar de um momento para o outro. O consumismo vão continuar a ser a filosofia básica de vida. Ou pelo menos o sonho. Os ricos sê-lo ao cada vez mais, mas serão cada vez menos os ricos. A classe média está aos poucos a deixar de sê-lo, e os portugueses não estão preparados para passar a ser mais criativos, a ter mais iniciativa e ser mais empreendedores, a arriscar mais. Antes emigrar...
Eu emigrei. Eu e cada vez mais amigos que conheço que estão em Londres ou em Madrid a trabalhar mais e melhor, com melhor rendimento. No norte, por exemplo, voltaram também a emigrar muitos pedreiros e empregadas domésticas para Espanha, Alemanha, GB e França, tal como em outros tempos.
Mas curiosamente neste momento questiono-me, não sobre trabalhar mais e melhor, nem sequer sobre a economia portuguesa, que está mal e não melhorar grande coisa nos próximos anos, mas o que me questiono é sobre o sentido destas Vidas cuja filosofia de Vida é o consumo puro e duro. E isso não é um problema Português. Em Portugal só é mais grave porque se pretende consumir sob padrões ingleses e norte americanos com uma produtividade e rendimentos que nem a metade chegam. Eu questiono-me sobre esta filosofia de Vida como uma opção quase global, e sobretudo sobre se é a minha opção individual.
Para que raios é necessário ir às Maldivas passar férias, comprar mais um sofá no Ikea, ou de ter 10 relógiose 25 pares de sapatos?!




