31.8.08

Meu querido Portugal - a volta...

Meu querido Portugal-a volta do emigra!

Pois é, estou de volta! Estou de volta ao meu querido Portugal. Não sei definir Portugal, nem o que é ser português. Não sou especialmente orgulhoso de Portugal, nem de ser português (nem de quase nada). Nem triste ou envergonhado. É só a minha terra, a terrinha, as terrinhas, onde nasci e cresci. E gosto. Gosto mais que da Espanha onde vivi os últimos 3 anos, e da qual também gosto muito. Mas, como diz um amigo meu, há duas coisas que um Homem nunca renega: os pais e a terra. (mais tantrico que isso é difícil!) E cá estou de volta, numa mudança que se motivou por razoes pessoais, familiares e profissionais. Cá estou para um ano de transição, algo sabático, onde espero aproveitar para fazer umas boas viagens e experimentar outras formas de viver, de ser. Vamos ver.

Nos primeiros dias foi a mudança. Aproveitei para finalmente reunir minha biblioteca (umas das poucas coisas há qual sou “agarrado”), e montar o meu próprio escritório privado. E que prazer isso me trás! Depois começaram as férias, a praia, o surf, o rever dos amigos, ler uns livros pendentes e não pendentes, umas pequenas escapadelas por um e outro cantinho especial deste meu querido Portugal. E tem sabido tão bem! Até já passou aquela sensação inicial de que só estava de férias, aquelas férias curtitas, de duas semanas que não davam para nada, as duas semanas de férias de emigrante que a qualquer oportunidade volta à terrinha. Até surgiu uma practica de yôga estável e disciplinada, muito autodisciplinada e autosuficiente, bastante concentrada, consciente, de prazer, como poucas vezes vivênciei antes. Ai tão bom! Até férias de internet tirei...

O estado da nação!

O estado da nação é mais ou menos o mesmo de sempre. A economia não está famosa, o pessoal está um pouco mais apertado, queixa-se de tudo como sempre, mas a cultura popular, individual e colectiva, o sistema, está mais ou menos na mesma. Cada vez mais cultos, ou pelo menos mais educados pelas universidades, mas ainda essencialmente inertes, sem iniciativa e empreendorismo. E o profissionalismo vai aumentando, mas pouco a pouco, e sempre a remar contra a maré do laxismo e improvisação, que é uma espécie da nossa versão negativa do laissez faire laissez passe.

Cada vez estamos mais americanizados. Mais privatizados, mais vendidos, mais nas mãos de algumas grandes empresas, bancos, seguradoras, construtoras, etc., a maioria internacionalizadas. Até os dois últimos serviços públicos (dignos desse nome) que restam estão em vias de desaparecer. O SNS(aúde), e SNE(ducaçao) estão aos poucos a tornar-se menores, secundários, marginais até. O Estado cada vez mais é mera burocracia, onde se fazem leis conforme aos lobbies das grandes empresas (e não do voto popular), e onde se cobram taxas e impostos e se arca com as despesas de fiscalização e segurança. Até o sistema judicial (que continua a exercer-se em estado dramático) querem privatizar cada vez mais. Ora, eu até sou a favor de maior profissionalismo e rigor na gestão, mas a privatização não é a resposta para tudo! A França e Alemanha (e outros) são muito mais profissionais, rigorosos e produtivos que os portugueses e o sistema deles não é mais privado que o nosso, antes até ao contrário. O problema transcende o Estado e os seus vícios (e virtudes , tantas vezes esquecidas) típicos, é uma questão ampla, de cultura, de passados de décadas e séculos. E isso não muda de um dia para o outro. E também a americanização não resolve tudo. Aliás, estamos num bom momento para ver que o próprio sistema americano tem problemas graves, com os quais se enfrenta neste momento. E se mesmo assim funciona relativamente bem, é preciso recordar que a cultura de base, de gene, é outra. E que os privados até nos EUA colaboram com um poder publico muito activo e dinâmico, que impulsiona o próprio sistema privado seja fazendo a maior rede rodoviária do mundo, por exemplo, seja fazendo a guerra, que compra tecnologia e serviços aos privados, e que ao mesmo tempo lhes assegura mercados e acesso prioritário às matérias primas (muitas vezes através de guerras imperiais). Esse ciclo não se passa em Portugal. Além disso, nos EUA, o principio da propriedade privada convive directamente acoplado ao principio da iniciativa privada, ao empreendorismo, à responsabilidade individual, e à concorrência. Nada disso existe em Portugal. Não existe, desde logo, como cultura de base. Veja-se o caso dos combustíveis. Privatizou-se tudo. As empresas a actuar no mercado agem em cartel. Os preços do crude sobe, e imediatamente o combustível nas bombas sobe, mas se o crude desce, não desce imediatamente, nem em proporção, nas bombas. O combustível em Portugal é ainda mais caro que em Espanha. As empresas petrolíferas estão mais ricas que nunca. A Galp (que já nem é dos portugueses) da mais milhões de lucro que nunca. Que vale tudo isso aos portugueses?! O mesmo se passa na electricidade, com a EDP, e nesse caso nem sequer há concorrência! A própria “entidade reguladora” do sector, que supostamente deveria servir para defender os interesses do consumidor, recomendou que os actuais consumidores pagassem indiscriminadamente as dividas deixadas pelos que não pagaram!?! A EDP dá-se ao luxo de atribuir um numero de TV teóricos a cada casa, em função do tamanho, e cobrar por cada uma delas, mesmo que o cidadão não tenha nenhuma! E as auto-estradas, essas vias de comunicação essenciais? Pago mais para ir de Lisboa ao Porto do que para ir da Coruña a Barcelona! Vendemos as nossas estradas (e pontes) a construtoras. Veja-se, não vendemos a construção, e sim as próprias estradas! E agora estamos a pagá-las muito para além do seu custo de construção!

Tenho receio que estejamos para ficar apenas com o pior do sistema americanizado de economia mundial. Um sistema que demonstra ter problemas graves em si mesmo...

A classe média, depois de ter sido criada e engordada essencialmente pelo Estado e pelos subsídios, está agora a encolher rapidamente, à medida que o Estado se retira de cena e que os subsídios acabam. A maioria da população, entretanto com um nível de educação académica relativamente alto, tem de se adequar ao empobrecimento que avança. Há poucos empregos, porque há poucas empresas, porque há poucos empreendedores. E contra mim falo. Eu fui para o estrangeiro abrir a minha própria empresa, criei o meu próprio posto de trabalho. Não o fiz me Portugal, não sei se o faria, não sei se o farei... Como eu, alguns dos amigos menos acomodados, mais empreendedores e corajosos estão a emigrar. Para a Europa mais do norte, para os EUA, para a Austrália. Até para o Brasil! Volta a haver emigração mão-de-obra desqualificada e barata que emigra para fazer os trabalhos sujos e mal pagos que os europeus mais ricos desprezam, mas agora também emigra muita gente muito qualificada que pura e simplesmente se encontra bloqueada em Portugal. Porque a família, “os contactos”, as cunhas, o Estado, tradicionais formas de contornar a falta de competência e valentia, já não dão para a maioria.

Não sei se tudo isto me chateia. Custa-me ver tanta a gente a ir, agora que estou de volta. Mas é assim e pronto. Eu nao tenho soluçao. Creio que vamos ser assim um tempo mais, à rasca, até que eventualmente assumamos que só temos e valemos o que fazemos. Nem o Estado, nem os pais, nem os contactos, nem a UE, nem os EUA, nem nenhum “outro” nos poderá salvar de nós mesmos.
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23.8.08

Os Jogos Olímpicos, a China e os portugueses

Os Jogos Olímpicos

Sao os melhores JO de sempre. As melhores instalaçoes, a melhor organizaçao, o maior numero de atletas e modalidades, um numero de recordes impressionantes, alguns atletas “do outro mundo”, o maior controlo antidoping jamais efectuado em quantidade e qualidade, o melhor espetáculo de abertura que me lembro de ter visto. O melhor espectaculo do genero que vi, sempre, JO ou nao...

Eu até nao sou um grande fa dos JO e nem gosto muito dos chineses, mas nao deixo de achar significativo de ver tanta gente a criticar estes JO, por preconceito, por racismo, por antipatia (legítima) para com a China,
da qual a maioria tem tanto medo . Ainda os JO nao tinham começado e já havia mil e uma maldicencias. Começou, corre tudo quase impecável, e o que mais se vê é jornalistas e espectadores à procura de todo e qualquer pequeno defeito que possam explorar com o máximo de dramatismo possivel. Até pormenores que em outro país seriam invisivéis, desinteressantes, ou até elogiáveis como signo excelência organizativa, nestes JO chineses passam a ser malditos com todo o fervor. E mesmo assim nao conseguiram encontrar grandes coisas com que embirrar. Creio que quando os chineses efectivamente se estabelecerem na posiçao pela qual estao a lutar vao ser tao preconceituosos, racistas e persecutórios conosco como nós fomos com eles nos ultimos séculos, décadas, anos, meses, semanas e dias...


Os JO portugueses

Parabéns ao Nelson Evora e à Vanessa. Parabéns ao Gustavo Lima, quarto na vela. A prestaçao portuguesa foi digna. Foi meritória. Além das medalhas e posiçoes lá perto, bateram-se bastantes recordes nacionais. Mais do que isto nao se poderia esperar.

Mas, ainda o JO nao tinham terminado e já os jornalistas, comentadores e espectadores julgavam e condenavam em praça publica os atletas, treinadores, dirigentes e até o governo (esses nunca escapam) pela decepçao, desastre, miséria e até vergonha que os participantes portugueses estariam a registrar na sua passagem por Pequim. Até o presidente do COP criticou os atletas (lamentável) e se demitiu a meio dos JO, antes mesmo da meldalha de ouro e prata, sucumbindo à pressao dos mass média! (após as medalhas quis re haver o posto, o que é duplamente lamentável). Os atletas em Pequim iam há internet e até choraram com os comentários que liam, 90% dos quais negativos. Muitos portugueses, que practicam pouco ou nenhum desporto, nao sabem o que é treinar, só gostam de futebol, e pouco mais fazem de “desporto” que levantamento de garrafa, tinham muita energia para manifestar a sua desilusao e indignaçao para com os resultados dos atletas! Típico: quem nao faz critica a quem faz...

Os jornalistas, ainda a meio da competiçao, julgaram e condenaram logo tudo e todos. Alardearam dos fracos resultados para os 15 milhoes de euros gastos nesta preparaçao olimpica. !!! 15 milhoes de euros?! Isso nao é quase nada! A RTP gasta 22 milhoes por ano para comprar direitos de jogos de futebol! 45 milhoes de euros foi o custo médio de cada um dos estádios do euro de futebol, incluindo o de Faro que abre 2 ou 3 vezes por ano, para um jogo simbólico e um concerto ou outro. E a maioria nem sequer tem pista de atletismo! 15 milhoes de euros pela preparaçao de 4 anos para uns JO é pouco, é barato, é dos melhores investimentos a nivel de educaçao e desporto que o Estado poderia fazer. Basta a medalha do Nelson Evora para inspirar e motivar muita gente para o desporto, e se a maioria nao vai atingir o nivel dos JO pelo menos aprenderá a ganahr disciplina nos teinos, ganhará consciencia corporal, desenvolverá cultura através do desporto, na maioria boa cultura.

E o mais ridículo é que analisados os resultados até se ficou muito perto das metas ambiocionadas. Ao contrário dos anos anteriores, em que o Estado dava dinheiro às federaçoes e a partir de aí perdia o rasto desse dinheiro, desta vez o Estado contratou com o COI os investimentos, estabelecendo metas globais e individuais, e os respectivos investimentos para cada modalidade e atleta. Um nivel de rigor e profissionalismo nunca antes visto no desporto nacional. Pretendiam concorrer em 17 modalidades ficaram pelas 16. Pretendiam ter cerca de 5 medalhavéis e afinal tiveram 6. Ganharam duas. Uma medalha de ouro, pela primeira vez em 12 anos, e numa disciplina de atletismo técnico, pela primeira vez para Portugal. A parte disso bateram-se bastantes recordes nacionais, nomeadamente na nataçao. Foi bom.

Claro que nem tudo correu bem. Algumas prestaçoes foram fracas, e isso faz parte. A Naide Gomes foi realmente pena. E o caso do Obikwelu deve ser analisado e reflectido, nao tanto pelo fraco resultado que teve nos 100 m mas sim pela desistência imediata dos 200 e por tudo o que se passou por detrás, nos bastidores, com o empresário e treinadora. E especialmente grave foi o que (nao) se passou com o Sérgio Paulino, o ciclista que a um dia de viajar para Pequim e depois de 4 anos de terinso financiados pelo programa olímpico diz que já nao pode ir porque o ar em Pequim é muito poluído e ele tem asma, e o COI nao admite o seu medicamento para a asma! Parece-me caso para investigaçao e se for caso disso para processo disciplinar e judicial. Mas esses casos nao mancham uma prestaçao globalmente digna e meritória.

Como ex-atleta de alta competiçao sei que os JO sao o sonho de qualquer atleta. Só ir lá já significa que se é um dos melhores do mundo. E quase sempre significa que se é o melhor do país, e isso já é muito. Significa sempre muitas horas diárias de treino intensivo e anónimo. As vezes corre bem, outras vezes nem tanto. E isso é assim mesmo.


Parabéns aos atletas e treinadores portugueses.
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31.7.08

Espanha, eu gosto.

Espanha

Já que estou a sair de Espanha aproveito para registrar algo mais. Mas desconfio que muita coisa só se tornará clara daqui a algum tempo...

Aqui nas Astúrias havia um escritor que dizia: “A mulher é a queixa pertétua”. Pois se assim é, então a sociedade espanhola é feminina. Não feminista, feminina. Os espanhóis queixam-se, muito. Muiuiito. Não é defeito, é feitio. Os portugueses, e em geral os humanos (principalmente os ocidentais), queixam-se. Mas os espanhóis são mais assumidos, expressivos, exuberantes, mais dramáticos, mais histéricos. E portanto o que são vê-se mais. Até o que são às escondidas...

Quando cheguei há 3 anos a Espanha estava na melhor situação econômica do século. Talvez dos últimos séculos. Satisfeitos? Não. Se ouvissemos a maioria, estava tudo mal, desde o Governo claro, ao marido e mulher, amante se filhos, patrões, empregados, etc. Se não havia crise (e não havia) queixavam-se da que estava a acabar e da que vinha aí. Agora que a crise ameaça vir todos dizem: “vez, eu não dizia? Está tudo em crise...”. Mas a verdade é que ainda não há uma crise real. Só há uma crise de susto. As pessoas esperam a crise e por isso consomem (um pouco) menos, e por isso há crise...

São queixosos e insatisfeitos. Como todos nós. Só que aqui isso vê-se mais.

Mas os espanhóis não são infelizes. Nem felizes. Afinal, o que raios é a felicidade? Eles são o que são, como todos nós. E cada um saberá se gosta ou não. Eu gosto.

A Espanha desportiva

Neste momento a Espanha atravessa um periodo de ouro desportivo. É uma das maiores potencias desportivas do mundo. Das cinco maiores. Estão no céu desportivo.

São campeões da Europa de futebol.

Rafa Nadal ganhou Wimbledon na melhor final da década, contra um dos melhores de sempre. Antes já tinha ganhando Rollan Garros. Aspira a ser numero um do mundo. Os espanhóis são eternos candidatos a Taça Davis...

Fernando Alonso duplo campeão do mundo. E há mais dois pilotos espanhóis metidos no mundo da Formula 1. E há engenheiros também...

Nas motos têm varios entre os primeiros, e em todas as categorias.

Os dois últimos vencedores do Tour de França são espanhóis. E ganharam também o Giro.

São campeões do mundo de basquete, e vice da Europa. Têm vários jogadores na NBA em destaque.

São bons no Golf...

Enfim, estão no topo em muitos desportos. E se os jogos olímpicos de Barcelona deram inicio a muita coisa neste processo, a verdade é que há coisas que não se explicam. Creio que os espanhóis simplesmente gostam de desporto. São muitos, tem bons e bastantes equipamentso, e são egocentricos, exibicionistas, querem reconhecimento. E estão a tê-lo.

Vejamos agora nos J.O.

Politica a la espanhola

Vejo uma diferença básica na politica espanhola relativa a portuguesa, chama-se estabilidade.

Dizer que em Portugal houve revolução e em Espanha transição é eufemismo, mas é desde aí que vem uma certa estabilidade. É do sistema constitucional e politico instalado então. Nesse periodo até ressuscitaram a monarquia porque a guerra civil dos anos 30 ainda está presente e o horrror a outra confrontação traz vontades de acordos básicos. E creio que é aí que se cria um modelo mais estavel de politica. Não pela monarquia que aquí ainda é menos immportante que o P.R. Em Portugal, mas pela idea que é (desesperadamente) preciso evitar confrontações de maior. Confrontações que têm a ver com o seu carácter, com os seus regionalismos, com a sua história e seus genes.

O certo é que houve menos governos, e mais prolongados, e mais fortes e estáveis. Primeiro do PSOE-Felipe G., depois do PP-Aznar, e agora do PSOE ZP, que também já vai no segundo mandato. Mas o que acho que é mais marcante nesta estabilidade nem são os governos. São as oposições.

O Aznar chegou ao poder com o PP depois de ter concorrido e perdido uma vez antes. Manteve-se 7 anos como lider da oposição até que venceu. E ficou lá dois mandatos. Deixou passo a M. Rajoy, da sua linha politica, e com boas prespectivas de continuar Governo PP. E agora o Rajoy já perdeu duas eleições e segue a frente do PP! Perdeu as primeiras em situação dramática e nao assimilada, que o colocou nas maos da direita conservadora (Opus Dei e coisas que tais) e o levou a 4 anos de oposição quase totalmente baseada no combate ao governo na sua politica autonomico-regionalista e sobretudo no combate à politica anti-terrorista do governo, que tentou alcançar apaz. Não deu bom resultado. Perdeu as segundas eleições. Houve alguma contestação interna à sua liderança. Mas ele manteve-se fiirme e continua a liderar. Afastou-se (e afastou) os sectores mais à direita e voltou-se para o centro. Em apenas 3 meses mudou completamente as principais figuras de proa do partido e a linha de oposição politica. Pactuou como PSOE sobre a linha de combate ao terrorismo basco e prepara-se para combater o governo em matéria economica, que afinal é o que mais interessa aos espanhóis e que neste momento traz bons ventos...para a oposição.

Em Portugal os lideres politicos da oposição (diga-se PSD) não resistem nem meio mandato. Quantos lideres teve o PSD desde que o Cavaco saiu? Eu lembro-me de pelo menos sete! O que ganhou as eleições (após desistência do Guterres (!) a meio do segundo mandato com maioria relativa) pirou-se, abandonou o barco com apenas um ano de trabalho em favor de protagonismos internacionais. !!! Isto não é apenas causa. Também é efeito. É sintomático.


Expressões popular muito usadas:

Me cago: en la madre, en la puta, en la virgen, en la leche, en Dios...

A puta está entre as outras coisas sagradas em que eles se cagam frequentemente...

O "inglês" dos espanhóis. Extractos dos piores falantes de ingês do mundo...

Lady = leidy (esta está no dicionário)
Ir ao WC = ir al vater, (de water [dizem vater])
Spiderman = espidérman
Filmes do Clark Gable = filmes do cargáble
Miguel - Mike = Maik mundo...







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23.7.08

Tarde bem passada! Escalada Quirós, Asturias.

Escalada em Quirós

Cá estamos a aproveitar ao máximo o ultimo mês nas Asturas, que realmente é um paraíso natural!

Entre praia, surf, e outras actividades ludicas temos ido a Quirós para aproveitar a magnifica escola de escalada desportiva ali instalada. Tem muitas vias, desde as
que nós fizemos, ligeiras e simples para iniciantes (niveis 3 a 6), até outras já mais duras de nivéis a partir do 7. O nosso "prof" tem sido o Jesus, meu aluno e um verdadeiro "mutante" na escalada (tem vias de nivel 8+, que sao aquelas em que nem vendo se entende como é possivel!)

Amanha vamos outra vez...

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26.6.08

Sobre as coisas, o consumismo e uma homenagem...

Ainda sobre o consumismo com filosofia de Vida que se impõe como modelo social global, deixo dois links de dois videos que acho excelentes.

O primeiro , More stuff!, é também uma homenagem a um dos comediantes-criticos mais excepciconais que já vi, e que morreu há poucos dias: George Carlin

O outro , The story of stuff, é sobre é mais um panfleto de campanha, que nem por isso deixa de ser interessante. Não sou muito idealista, mas, como diz a senhora no video, aqui não se trata tanto de idealismo, e sim de realismo. O sonho é pensar que tudo pode continura na mesma maneira...

(E que não se diga que os estado -unidenses não têm capacidade de auto-critica!)


And here is the rest of it.
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Contra a felicidad, en defesa de la melancolia


Como é óbvio, ser original é um mito, uma pretensão. Já tudo foi pensado e repensado, dito e redito. Mal publiquei o último post sobre um tema que há uns tempos vinha a meditar e logo encontrei um livro sobre o assunto.

Na Casa del Libro, na seccção de livros de auto-ajuda, precisamente no meio
de dezenas de livros com receitas e mais receitas para ser feliz, encontrei um livro que faz uma óptima reflexão sobre esta febre de busca pela felicidade e incapacidade de lidar com o lado lunar da Vida.

Em castelhano chama-se Contra la felicidad, en defesa de la melancolia, de Eric c. Wilson. Vale a pena ler.
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5.6.08

Melancolia: um direito universal e fundamental


Uma das coisas que observo que mais pena me dá no sistema actual que impera no mundo dito desenvolvido é a incapacidade das pessoas para lidar com a tristeza.

A tristeza, a depressão, a infelicidade, o sofrimento, são tudo palavras quase malditas. Todos querem escapar-lhe, todos querem o seu contrário, e muitos preferem fazer que não são infelizes, que não têm os seus momentos de tristeza, solidão e melancolia. E se a têm e não conseguem escondê-la e ignorá-la, combatem-na ferozmente. Para mim é amputação. É castração pura.

Vê-se por aí gente a alardera de quase tudo, menos gente a admitir, com naturalidade e sem grandes dramatismos, a sua tristeza, e até um certo agrado para com a melancolia. Vejo gente a criticar tudo e todos. A culpar o mundo e o “sistema” de todo tipo de males no mundo. Vejo gente e livros e profissionais dos mais diversos a vender a liberdade e a felicidade. E a liberdade é em parte a liberdade em relação à tristeza, é uma fuga à melancolia, é uma libertação de grande parte das suas vidas, a parte infeliz. Vejo gente a tentar vender a si mesmos e aos outros uma continua imagem de felicidade, de exuberância, de satisfação, de êxtase. E no caso, provável, de não a ter realmente, ao menos convencem-se com projectos permanentes para alcançá-la. Sair à noite, foder, tomar drogas, comer, fazer surf, fazer amor, apaixonar-se, saltar de paraquedas, ir de férias a paraisos longinquos e caros, comprar e consumir até à exaustao, rir com os amigos acerca de qualquer coisa, empreender um caminho espiritual. Tudo vale para encontrar a felicidade e fugir à tristeza, à solidão, à melancolia. Ninguém parece aceitá-la como algo normal, natural. Diria mais: agradável.


Outro dia falava com uma amiga que estava num desses dias e inconformada. Disse-lhe: eu até gosto de estar assim. E ela, que não é nenhuma tonta, antes pelo contrário, não deixou de ter a mesma reação do costume: a sério?! E por ela ser especialmente inteligente até lhe dou confiança suficiente para admitir que estou e gosto de estar em tal estado. A maioria da gente não se pode dizer tal coisa. Fogem. Fogem com medo que os contagie. Dá-lhes medo. É como se lhes disséssemos: olha para a tua própria infelicidade, vazio, tristeza e solidão latente, essa que te esforças tanto por enterrar debaixo de toda essa actividade frenética e imagem esteriotipada de felicidade. Não compartilhe com os seus pais, a sua namorada ou os seus amigos que está triste. É como um vírus supostamente mortal o qual todos temem. Ainda são capazes de o aconselhar um psicólogo, ou melhor ainda, um psiquiatra que erradica rapidamente esse estado terminal e profundamente doente chamado tristeza. Aliás, agora já ninguém é triste, agora somos “depressivos”, e nessa condição já podemos tomar prozac e outras drogas legais. E mais: podemos, finalmente e sem remorsos, entregar-nos a ter pena de nós mesmos e ao prazer de não fazer nada, esses pequenos prazeres tão essenciais que hoje toda a cultura se esforça tanto por nos retirar! Querem tirar-nos o direito fundamental a estar tristes!

Hoje a idéia de ser feliz tornou-se quase uma ditadura. Deixou de ser uma simples idéia para passar a ser um direito. E este direito é quase um dever. Queremos obrigar-nos a ser felizes! Nem que seja à força!

Se diz que quer uma vida tranqüila, calma, e não quer nada da Vida, só estar quieto, pode ter a certeza que a maioria das pessoas vê nisso sintomas de depressão aguda. Aconselham-no a sair mais, a ir viver para uma grande cidade, mexer-se, animar-se a algum projecto, a fazer curso de motivação ou de outra coisa qualquer. É preciso querer mais, ter planos, projectos, ambição! Para sernormai se aceites como tal temos de quer ter “êxito”, ou pelo menos mostrar que estamos a procurá-lo, dar a idéia que é feliz ou que pelo menos está tentar ser feliz. Seja lá o que o êxito e a felicidade forem! Senão é um fracassado, ou seja, um doente, e dá medo. Veja-se, não dá pena, dá medo. Medo porque reflecte algo muito presente que está em todos, mas que quase ninguém quer ver, muito menos aceitar: o nada!

Pois bem, já aqui disse várias vezes neste meu diário aberto: às vezes estou triste, algo depressivo, com medo. E isso não me assusta. Não muito. E até gosto! Sim gosto. Não é que procure e cultive. Nao pretendo que me aturem, nem sequer quero descarregar a tristeza sobre ninguém. Só nao fiquem aflitos e perturbados se algumas vezes estou assim. Ou pelo menos nao me perturbem a mim no meu bem estar melancolico. Não fujo a esses estados. Admito-os, aceito-os como normais e até desfruto deles. Em toda a sua plenitude.

Gosto de estar quieto, calado, em silêncio, sozinho e sem fazer nada. Gosto de me deixar afundar em sonhos mais ou menos acordado, com a sensação de que estou a desperdiçar o meu tempo vital e não me apetece fazer nada. Gosto de meditar, de contemplar, aceitar tudo sem participar em nada. Somente observar e registrar, como se não existisse.

Creio até mais: a melancolia, até uma certa tristeza é essencial para a criatividade. É essencial para as artes e para a filosofia. E para a filosofia eu sei que é muito mais interessante estar quieto e calado, algo entre o tranquilo e satisfeito e o triste melancólico, do que estar premanentemente em acção, permanentemente em fuga para a frente, a tentar escapar de parte essencial da nossa consciência. Essa parte chamada medo, morte, nada! A quietude da melacolia, e até a angustia da tristeza, sao a mae onde medra a beleza e o sublime.

Do nada vimos, para o nada vamos. E o nada está aí, sempre. É preciso aceitá-lo. E só assim poderemos ter também verdadeira alegria, satisfação e felicidade. E só assim poderemos criar, aceitar a criação como um todo, que está aí, em permanente renovação.

Se você é um dos que se deixou traumatizar por esta doença moderna chamada “medo ao medo”, ou “medo à tristeza”, digo-lhe eu o seguinte: anime-se, a tristeza também é bela. A tristeza está aí, é sua amiga, a sua amiga mais intima. Aceite-a. Desfrute-a. Não a tente ignorar pois ela não vai desaparecer. Não a tente combater porque ela voltará ainda mais forte. Aproveite-a. Ela pode ser a sua mais leal e verdadeira companheira neste caminho. Ignorá-la é ignorar-se. Aceitá-la é aceitar-se. E afinal de contas ela não é assim tão terrível. É apenas e só aquela suave e até agradável melancolia...

Não roube a si mesmo esse seu direito fundamental!

P.S. Escrevi isto num momento em que até nem estou nada melancólico...
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24.5.08

Google, globalizaçao e acordo ortográfico

A chuva dissolvente...

A questao do acordo ortográfico entre Portugal e Brasil, vista por terceiros e com observaçao dos interesses institucionais que se movem por trás... AQUI Leia artigo completo

3.5.08

Travessia dos Picos da Europa


Travessia aos Picos da europa

Nos próximos meses, entre Maio e Agosto, vou fazer uma coisa que já me está na cabeça há quase um ano. Vou atravessar os Picos da Europa. Desde o maciço oriental até ao ocidental, ou vice-versa. A pé claro, pelo monte. Ainda está por definir se pernoito ao ar-livre ou nos refugios de montanha. Não vou fazer nehuma excursão organizada, mas deixo o convite para alguém que se queira juntar. Em princiio irei apenas com um amigo. Serão cerca de 4 dias, talvez 3. É possivel terminar antes do fim do trajecto planeado, em alguma das etapas intermédias. O equipamento necessário é essencialmente uma mochila de treking e umas botas de montanha. E sobretudo boa disposição e vontade.
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24.4.08

O consumismo, o Porto, a crise, filosofias de Vida...

O Porto e a suposta crise

Os nossos pais viveram razoavelmente bem. Estavam longe de ser ricos, mas em geral foram tornando-se cada vez mais ricos. E quando tudo se expande, tudo é mais fácil.

Até há 30 anos Portugal era um país essencialmente atrasado, ainda muito rural. Era pobre. O nível de alfabetização era muito baixo e o de alcoolemia era alto. Muita gente vivia da hortinha que tinha atrás de casa, ou na casa do patrão. Alguns sobreviviam como operários de fábricas que na sua grande maioria tinham surgido nos anos 60, a quando a nossa primeira e minúscula revolução industrial. Os nossos pais nasceram ainda no tempo da “outra senhora”, quando o regime dizia que éramos “pobres mas dignos”, e estávamos “orgulhosamente sós”. O banco era debaixo do colchão. A maioria dos nossos pais não chegaram ás universidades e não se tornaram profissionais liberais, muito menos empresários. Mas chegaram lá muitos mais que os nossos avós. E muitos operários fabris, já depois do 25 de Abril, abriram as suas próprias fábricas, com as quais geraram rápidos e volumosos lucros, com os quais compraram Mercedes e casas de praia. E o regime altamente centralizado do Estado Novo preparou o caminho a um Estado burocratizado que pouco a pouco, e muito no pós 25 de Abril, criou muitos empregos estáveis e medianamente bem pagos na função pública, que inchou sem freio. Alguns dos nossos pais emigraram, ou foram à guerra colonial, mas a maioria safou-se, voltou, e Portugal esteve pelo menos uns 25 anos seguidos em crescimento económico sustentado, desde 1975 a 2000, e principalmente de 1986 a 2000, com os biliões e biliões que chegaram da UE com os quais nós devíamos ter preparado para o mercado comum da Europa e global. Bem, os nossos pais passaram dificuldades, queixavam-se, mas foi sempre a subir, cada vez melhor. Cada vez mais emprego, pensões, subsídios e serviços sociais (que se substituíram ao suporte familiar, que como instituição decaiu). E nós só vimos isso, o cada vez melhor, cada vez mais fácil, cada vez mais, mais, mais. Mais férias no estrangeiro, mais roupa, mais comer fora, mais carros, mais casas de praia, mais telemóveis, mais sair à noite para consumir drogas e conviver, mais, mais, mais e mais!

Pois, tudo vai mais ou menos bem, em festa mesmo, quando está a crescer, a subir.

Mas nós, a geração MTV, a geração “rasca” segundo alguns, porque já não temos ideais e interesses políticos e só queremos é “foder”, assumimos que ter lugar na universidade, seja numa publica ou privada, era um direito, algo óbvio, que os pais pagam. Acostumámos-nos a pensar que sairíamos de casa dos pais para a casa que os nossos pais nos dariam. Nós habituámos-nos a ter dinheiro para gastar desde cedo, desde os 5 ou 10 anos, que os pais e avós dão, gratuito, no Natal e aniversário, e nas visitas de fim de semana, e porque sim. A escola e o hospital é gratuito, o Estado, "o papão", tem o dever se assegurar (mesmo que nos escapemos aos impostos). Habituámos-nos a receber sem ter de lutar por isso, a ganhar sem suar. Sem responsabilidade. E talvez por isso adoptamos com tanto gosto a cultura do gastar fácil e rápido, sem receio de ficar sem, sem pensar em poupar. Habituamos-nos a uma cultura americana, de fast food. A consumir e deitar fora, comprar novo, acumular, comprar mais. O consumismo é a nossa filosofia de Vida. Consumir bens, serviços, sensações, “estados de consciência”, etc...

Mas a festa acaba. A festa tem conta. O consumo tem preço. A cobrança vem, mais tarde ou mais cedo, de palitó ou à bruta.

Bem, a Europa e o mundo globalizou-se, as empresas não se modernizaram ou reconverteram como deviam, as poucas novas que surgiram não chegam para empregar a todos, o dinheiro da EU diminuiu, a concorrência aumentou ainda mais, não só dentro da Europa mas sobretudo fora, contas do Estado foram obrigadas a ser levadas com mais rigor e o Estado não pôde continuar a empregar mais gente, nem sequer a pagar subsídios e pensões para tudo e todos.

Entramos em crise. Mas continuamos a consumir como uns loucos.

O país mudou-se para as cidades mas em muitos casos continuam com mentalidade rural e ainda há muita gente deslumbrada por um consumo fácil cujo crescimento parecia não ter fim. E trabalhar que é bom nem gostamos, nem o fazemos bem, nem há suficiente. E consumimos muito mais do que produzimos.

Até agora o desenvolvimento do país, e principalmente o consumo, foi financiado primeiro pelo dinheiro dos emigrantes, depois pelos subsídios vindos da UE (que nos comprou o mercado) e depois pelas poupanças dos avós, os ordenados dos nossos pais de classe média estável (o Estado) e entretanto também pelo crédito. O crédito fácil, aparentemente barato, subvencionado pelo Estado, mantido com juros baixos à força de políticas macro-económicas, o crédito diluído por 50 anos, misturando o crédito da casa, carros, computadores, LCD´s de 42”, férias, roupas, e outras coisas essenciais, tal como o 20º par de sapatos, ou a 10 carteira (que rosa choque para combinar com os sapatos do ultimo baptizado não tinha), e outros coisas essenciais sem as quais não se pode viver.

Os emigrantes já não mandam dinheiro. Agora são outros emigrantes que o mandam para fora. Os subsídios da UE vão diminuindo. As poupanças dos avós estão em vias de desaparecer ainda antes dos próprios. Os ordenados dos papás estão a encolher e com os créditos completamente no limite. E os créditos sobre créditos, para pagar os próprios créditos, são uma ilusão, que mais tarde ou mais cedo nos abeiram ao abismo. E o abismo está aí. Neste momento os nossos créditos, ou seja, o nosso consumo, paga-se com base em créditos que os nossos bancos fazem no estrangeiro, porque já nem os bancos estão com grande liquidez. Uma crise financeira global era mesmo o que nos vinha a calhar bem! Será que é desta que vamos passar a viver do que produzimos, do dinheiro que nós ganhamos, daquilo que realmente criamos?

Mas o pessoal, que se queixa de tudo e até de coisas que ainda não aconteceram, continuam a consumir como loucos, como senão houvesse problemas, como se os problemas se resolvessem como antes, com a prenda de natal da avó, com um subsídio mais vindo da UE.

O Porto, a área metropolitana do Porto, que neste momento liga todas as aldeias e vilas no raio de 50 Km, e já tem quase 3 milhões de habitantes (ainda um pouco menos que a área metropolitana de Lisboa), e o que se ali passa é sintomático do que se passa no país.

Vai abrir mais um mega centro comercial na região, mesmo colado ao Ikea, que por sua vez é gigante e veio para acabar com as poucas marcas e lojas de moveis que ainda havia na região. Mas já havia cerca de uns 10 centros comerciais, todos grandes ou gigantescos. O maior deles está a pouco mais de um Km deste novo que vai agora abrir. Estes novos mega shoppings têm muitos mais lojas que o Porto tinha antes, até há 15 anos atrás. Mas não têm proporcionalmente mais empregados. E sobretudo têm muito menos donos, pois a maioria são franchising internacionais que se repetem iguais em cada um dos shoppings de Portugal tal como de qualquer outro país similar. E a maioria desses franchising são estrangeiros, pelo que a única coisa que aumentou, os lucros de cada loja, revertem na sua grande parte para uns poucos donos estrangeiros. Os portugueses ficam com os empregos a prazo de 6 meses com ordenado mínimo (co-subsidiados pelo Estado para parecer que temos baixo desemprego). E o mais ridículo é que há muita gente que está satisfeita com isso!

O comercio nas ruas do Porto, senão fossem os cafés-taberna, os chineses e as putas, já tinha desaparecido por completo. A ultima vez que ali fui, naturalmente fui a um desses shoppings. Que remédio, não há gente e actividade em mais lado nenhum! Estava tudo cheio e a gente que consumia como sempre, freneticamente. Não era Natal. À noite iriam fazer o costume: exibir as compras do dia enquanto consomem drogas em jantaradas, nos bares e nas discotecas, que é o mais comum. Li uma noticia que os portugueses bateram recordes de férias no estrangeiro! Não me pareceu uma região em crise! Mas está.

O Porto está mal, muito mal. A outrora famosa indústria do norte está em profunda decadência., a desaparecer. As poucas empresas portuguesas que ainda restam e as novas que se vão implementando (a maioria são estrangeiras, com delegações em Portugal) preferem naturalmente ter escritórios em Lisboa (quando não em Madrid), mais perto da burocracia do Estado e do centro do país. E a maioria dessas empresas são de serviços ou logística. Não produzem realmente bens materiais, não são indústria. Ora, sem Estado e sem empresas uma região vive de quê, se esta nem sequer é turística?!

Mas os centros comerciais continuam cheios. As pessoas até passeiam por lá. Se não podem comprar pelo menos vêm, e desejam aquilo que não podem comprar, mas gostariam, e invejam. Que lindo. É o efeito FCP: enquanto há circo para entreter não à mal que não se aguente. E viva o Pinto da Costa.

Consumir é essencial. O sistema está feito para consumir. Se não consomes não existes, não participas, não podes descontar impostos... Consumir é absolutamente necessário para fazer o sistema sustentar-se e os portugueses colaboram com prazer nesse “sacrifício”! Mas esquecem-se que para consumir é preciso produzir para gerar riqueza. E como não temos petróleo só resta trabalhar, ser criativos, acrescentar algo.

A festa acabou. Mas ainda ninguém se foi embora. Embora para onde? Voltar a casa? Qual casa, a dos nossos pais e avós, de há uns 15 ou 20 anos atrás? Cair na real? Ressaca? Não. Vou continuar a consumir como se não houvesse amanhã. Quer dizer, como se hoje fosse ontem!

O país está à espera de um milagre. Um milagre de Estado. O Estado, que na nossa cultura é omnipresente, é o culpado por tudo e tem de ser ele a resolver. Ele quer dizer, os “políticos”. Espera-se um Dom Sebastião, um salvador. O Portas e o Louçã contentíssimos, porque quanto pior melhor, mais hipóteses de revolução, de eles terem o seu momento. O país está à espera de um milagre. Mas um milagre que não vai acontecer. Nada vai voltar atrás. E as mentalidade não se vão mudar de um momento para o outro. O consumismo vão continuar a ser a filosofia básica de vida. Ou pelo menos o sonho. Os ricos sê-lo ao cada vez mais, mas serão cada vez menos os ricos. A classe média está aos poucos a deixar de sê-lo, e os portugueses não estão preparados para passar a ser mais criativos, a ter mais iniciativa e ser mais empreendedores, a arriscar mais. Antes emigrar...

Eu emigrei. Eu e cada vez mais amigos que conheço que estão em Londres ou em Madrid a trabalhar mais e melhor, com melhor rendimento. No norte, por exemplo, voltaram também a emigrar muitos pedreiros e empregadas domésticas para Espanha, Alemanha, GB e França, tal como em outros tempos.

Mas curiosamente neste momento questiono-me, não sobre trabalhar mais e melhor, nem sequer sobre a economia portuguesa, que está mal e não melhorar grande coisa nos próximos anos, mas o que me questiono é sobre o sentido destas Vidas cuja filosofia de Vida é o consumo puro e duro. E isso não é um problema Português. Em Portugal só é mais grave porque se pretende consumir sob padrões ingleses e norte americanos com uma produtividade e rendimentos que nem a metade chegam. Eu questiono-me sobre esta filosofia de Vida como uma opção quase global, e sobretudo sobre se é a minha opção individual.

Para que raios é necessário ir às Maldivas passar férias, comprar mais um sofá no Ikea, ou de ter 10 relógiose 25 pares de sapatos?!

Os nossos avós jamais pensaram nesse tipo de coisas. Sim eram mais pobres. Miseráveis muitos deles. Mas nós não somos mais felizes e realizados que eles. Nem que ninguém. Aliás, pelo que tenho visto de um ponto de observação privilegiado é que esta filosofia de vida consumista se tornou uma prisão e que deixa muita gente stressada, ansiosa, à beira de ataques cardíacos consecutivos, frustrada, e principalmente perdidos, sós, vazios!
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