O Portugal dos pequeninos...
Como bons portugas que somos, sempre queixosos, tão queixosos como impotentes (dizer cobardes seria ainda pior) agora como sempre, na maioria, alinhamos pelo discurso negativo que nos caracteriza: está tudo mal, pior que nunca, os políticos são todos uma merda, uns malandros, uns incompetentes, fora com os políticos, as politicas definidas pelos políticos são más, são péssimas, e vou votar em quem me prometer fazer o contrário… Que me lembre os políticos da oposição dizem sempre ser contra tudo o que o governo disser que é a favor e depois chegam lá e fazem mais ou menos o mesmo, até porque boa parte das politicas já estão pré determinadas e condicionadas pelo quadro internacional e sobretudo Europeu, definido em Bruxelas pelo parlamento, esse que 62% dos eleitores não esteve para se incomodar em ir eleger. Outra coisa que todos dizem é que vão descer os impostos. E os portugueses, na sua maioria, são burros, e acreditam. Merecemos. Agora o que está a dar é dizer que se é contra o novo aeroporto e contra o TGV. O PSD nem é contra essa obras, nunca foi, mas como está na oposição agora faz que é, pelo menos até as eleições…O PSD nem é contra a avaliação dos professores, mas como está na oposição diz que é, claro. E se é difícil discordar da decisão politica podemos sempre criticar a “forma” e dizer que o governo é arrogante e não sabe dialogar! O mais engraçado é ver pessoas brutalmente arrogantes e sem capacidade de dialogo a dizer isso... Qualquer mudança que mexa alguma coisita me Portugal exige 20 ou mais anos de avanços e recuos, vários estudos, vários governos, até se tornar inevitável!
O novo aeroporto acredito que seja necessário, afinal, já se fala em construí-lo há cerca de 20 anos, e o tráfego aéreo só tende a aumentar muito mais. Pressuponho que ter um aeroporto decente na a servir a região não deveria sequer ser objecto de grandes discussões. E também sou a favor do TGV. Quanto a mim o TGV já deveria era estar feito há mais tempo!Ter comboios de alta velocidade, não só a ligar a Espanha, mas também a ligar o norte ao sul, parece-me que também não é nenhum luxo, é só o básico de um país que se quer desenvolvido. Sempre estudei nos livros da escola e nos meios de informação em geral que ter muitas e boas vias de comunicação é condição e consequência de desenvolvimento a todos os níveis, é quase seu sinónimo! Os países ditos mais desenvolvidos estão cheios de muitos e bons comboios. Não é só no Japão que até tem comboios rápidos para trajectos curtos! A Alemanha está cheia deles. A França também. A Espanha não só já tem muitos como está a fazer os possíveis para ter um comboio de alta velocidade a menos de uma hora de TODAS as cidades espanholas. Desde a Coruña a Badajoz TODAS as cidades do Estado que partilha connosco a Ibéria vão ter um comboio de alta velocidade a servi-las! O tráfego de todos os tipos está a aumentar, não só o rodoviário, mas também o marítimo e aéreo. E nos comboios também! Em 50 anos 1 só TGV será pouco. Teremos concerteza de fazer outros mais. Será que nós (que sofremos de periferia) somos tão especiais e tão espertos que descobrimos que não precisamos de mais e melhores meios de comunicação?! Somos especiais sim. A nossa especialidade é ser pequeninos. Quanto a mim o TGV já deveria era estar feito há mais tempo!
Dizem que estamos em crise… e daí? Para mim é uma constipação do sistema. O melhor sistema que existe. O sistema que criou o maior nível de riqueza e desenvolvimento que já existiu em toda a história da humanidade. Mas tudo bem, digamos que é uma...gripe! E daí? Este é o tipo de investimento que se vai prolongar por décadas, décadas durante as quais tudo pode acontecer, e durante as quais vamos entrar e sair de varias crises. Este tipo de investimentos ou é bom ou não é bom. Não tem nada a ver com crises conjunturais. E pelo que vejo pelo mundo fora até pode ajudar a enfrentar esta crise momentânea. Ora, se até o governo dos EUA, paradigma de pais capitalista liberal que advoga a não intervenção do Estado, está a intervir na economia, inclusivamente com lançamento de grandes programas federais de obras publicas com o intuito de estimular a economia e ajuda a sair da crise, porque raios é que em Portugal deveria ser diferente? Eu sei: porque aqui temos uma mente pequenina, achamos que isso é para os outros, para os grandes, os outros que não se assustam com grandes números, porque para nós falar em milhões e milhões ainda assusta…
Em Portugal preferimos gastar os milhões e biliões em coisas pequeninas...
Aqui preferimos gastar o dinheiro (inclusive o que não temos) em coisa mais pequenas, que dêem menos nas vistas mas que possamos conceber como mais nossas. Exemplos. Furar a Madeira toda com túneis caríssimos que permitam ligar algumas aldeias ao Funchal mais rapidamente. Construir piscinas municipais, que têm custos de construção e manutenção elevadíssimos, em todas as vilas (e até aldeias) do país, mesmo que muitas delas não funcionem nem a 50% da sua capacidade. Criar parques industriais municipais em cada concelho do país, porque cada um tem de ter o seu (?!?), mesmo que seja a 1 ou 2 km do do vizinho e nenhum dos deles tenha empresas para encher sequer um terço do parque. Ceder terrenos, serviços e outros incentivos (todos caríssimos) para alguns empresários privados encherem o país de campos de golf, boa parte dos quais vão estar sem clientes a maior parte do tempo. Criar vários centros de congressos em todas os concelhos do país, a maioria dos quais vão estar a gerar custos o ano inteiro apesar de estarem sem actividade alguma 90% do tempo. Fazer o maior numero de rotundas por Km2 e colocar lá no meio estatuetas tao feias como caras. Esse tipo de investimentos são mais pequenos mas são em muito maior número e no conjunto são caríssimos. Mas pelo menos são mais perto, podemos relacionar-nos mais directamente com eles, a até vão gerando empregozinhos no sector Estado, mas estáveis e menos exigentes, e sobretudo são mais pequenos. Pequenez é a palavra chave! É isso que nos agrada! Já alguém se manifestou contra a construção de mais uma piscina na sua freguesia? Alguém se manifestou contra os túneis na Madeira? Não, são mais pequenos, dão menos nas vistas, e o que se vê é no “meu” quintal… Até os 10 estádios de futebol o pior investimento público de sempre, para uma festa de menos de um mês, todos criticaram, mas não muito, e nunca ao ponto de sair para rua em manifestações! É que aí já se falava de crise (fala-se de crise sempre!), mas não era tão grave, eram os estádios de clubes da qual boa parte dos portugueses é simpatizante ou fanático e afinal de contas até gostamos mesmo da bola e de festa, por isso até se aceitou…E claro que muita gente achou muito bem comprar (mais uma) casa recorrendo a um crédito de 50 anos, isto apesar de mal ter dinheiro para pagar os outros créditos com que comprou o mobiliário e os carros, e as férias. E até poderiam ter comprado por metade do preço, mas gaita, é investimento… Investimento na imagem talvez! Quanto é que o governo gasta todos os anos (e por muitos mais) em bonificação ao crédito? De quem é a responsabilidade? Do sistema, do governo, dos bancos e da publicidade. Minha é que não é... Já alguém se questionou quanto gastam os portugueses em consumo de drogas recreativas? Eu já. Se contarmos só o café, álcool e tabaco já chegava e sobrava para pagar o TGV, o aeroporto e as autoestradas. Se somarmos outras drogas, como haxixe, cocaína e tal poderíamos fazer um fundo de investimento maior do que o que nos vais,um dia, esperemos, pagar a reforma! Pelo caminho diminuíamos os custos com problemas de saúde e aumentávamos a produtividade e longevidade. Mas mudar nunca, jamais. Mudem os outros, mudem os políticos mudem o sistema, mudem tudo, mas não mudem nadinha me mim. Esses prazeres são sagrados. Os pequenos prazeres. São sagrados também porque são pequenos! Que ninguém se atreva sequer a pensar em mexer nisso, era só o que faltava...
E acresce a isto tudo o seguinte. Alguém acha que se não investirmos no TGV, esse dinheiro iria parar aos nosso bolsos de outra forma mais útil? Por exemplo, alguém acha que esse dinheiro iria ser investido na área educacional ou cultural? Eu não acredito. Mais facilmente iria para salvar mais algum banco cujos capitais desapareceram algures numa ilha com paraíso fiscal! E eu prefiro fazer o aeroporto do que meter 2200 milhoes de euros em outro BPN! Na melhor das hipóteses, se fossemos um pais realmente organizado, racional e com capacidade de fazer boas escolhas, iria para ao apoio ás PMEs, pilar fundamental de qualquer economia. Infelizmente também não acredito que o dinheiro do TGV fosse aí parar. E se fossem nada garante que fosse bem aproveitado. Desde logo porque as PMEs dependem de acima de tudo de pessoas competentes, ambiciosas e com visão, pessoas que arriscam, que têm coragem. E como se sabe isso é um bem muito escasso em Portugal. E claro que assim que alguém ganha dinheiro em Portugal passa a estar sob o olhar da inveja e da suspeição! Quero crer que a minha geração e as seguintes talvez já esteja mais para aí virada, nem que seja por desespero, mas mesmo assim sou pouco crente. A geração anterior já se sabe o que fez com o pouco dinheiro que ia gerando: construiu casas que dão para 35 milhões de habitantes (o sonho máximo do português é ter a sua casinha)! Também compraram muitos Mercedes e automóveis afins. Mas não foi tanto o espírito de empresário que criou riqueza para tudo isto, foi mais as poupanças dos avós, as remessas dos emigrantes, a descoberta do crédito barato e a esperteza do marialva que lá conseguiu aceder a algum dos muitos subsídios que os ingleses, franceses e alemães mandam para cá, para comprar o nosso mercado! Assim, deixar de fazer investimentos grandes não garante que se poupe e canalize esse dinheiro para os pequenos. E muitas vezes os pequenos ainda utilizam o dinheiro pior que os grandes! Nas câmaras municipais é uma verdadeira festa. E nas contas pessoais dos portugueses sabichões ás vezes é pura e simplesmente surreal!
Portugal está muitíssimo melhor hoje que em qual outro momento da sua história. Desde que nasci Portugal nunca parou de melhorar. O nível económico e cultural melhorou muito. E mesmo não esquecendo que foi com a ajuda da UE que isto deu um salto maior, creio que algum do mérito é de todos nós. E também, e até sobretudo, dos políticos. Os políticos não são assim tão maus! São tão maus como a maioria de nós. São o espelho da nossa sociedade, merecemos os que temos. São tão corruptos, incompetentes e egoístas como a maioria de nós. Provavelmente menos. Em vez de estar sempre a dizer mal de tudo e todos, em vez de estar sempre a culpar o bode expiatório do costume (os políticos, os grandes, o sistema, os EUA, o Bush…) estou a favor de olhar para o que temos de bom, para o que podemos fazer de bom. Considero que o pior governo que tivemos nesta democracia foi o do Guterres. Cerca de 6 anos de governo minoritário e cobarde, em que se deveria ter feito reformas e dado outro salto. Não faziam nada, (não) governavam por sondagens e referendos. O pior é que os cerca de 3 anos seguintes foram ainda piores, mais instáveis, menos concretizadores, até o primeiro-ministro eleito cagou nisto e se pôs a andar. Foram cerca de 8 anos completamente perdidos, em que nos limitámos a gerir as contas para manter o défice dentro dos limites necessários para pertencer ao Euro. Que me lembre a única coisa minimamente certa e sólida feita nesse tempo foi o...Alqueva, uma grande obra! Então, já algo desesperados, demos maioria absoluta a este governo. O governo do Sócrates, por muitos defeitos e erros que tenha, parecia apostado em mexer nalguma coisa. Nem chegou a mexer assim tanto mas mesmo assim, só de tentar, consegue ter quase todos contra ele, e desde logo todos os que vivem mais directamente no Estado como professores, médicos, juízes, militares e policias. E isto que muitos deles, nos cafés e blogs, gostam de exibir discursos nos quais repetem a verdade de pseudo liberal de sempre: “o problema é Estado a mais”. Mal se tentou mexer nos privilégios, status e incompetências de tal gente e agora é de bom tom maldizer o homem e estamos contra tudo o que ele faz e queremo-lo o mais rapidamente de lá para fora para, para…para… para desfazer, recomeçar do zero, para não mexer em nada! Inacreditável! A nossa cabecinha pequenina, tacanha, conservadora e invejosa a funcionar.
Muito provavelmente vou votar no Sócrates. Se fosse o PSD a estar lá votava no PSD. Há que criar estabilidade e confiança. Há que arriscar e investir. E é mais fácil investir e arriscar com estabilidade e confiança. Eu confio em quem faz, erra, aprende, e continua a tentar fazer. Em Portugal há demasiadas mudanças de líderes partidários e demasiadas trocas governos, que na sua maioria são bastante fracos. Agora pelos vistos já nem um governo de maioria absoluta tem condições para governar com legitimidade os 4 anos para que foi eleito! Prefiro menos governos, mais estáveis, mais longos, mais fortes, mais realizadores. Como em Espanha ou Inglaterra por exemplo. A não ser que ainda se tenha crenças em ideais utópico religiosos tipo comunismos e tal, as escolhas agora já não são ideológicas. É mero pragmatismo e bom senso. Bom senso para mim não é ficar a contar tostão a tostão com a inveja dos pequeninos, deixar-nos isolar de um mundo cada vez mais interligado e impedir que se governe e produzam adaptações necessários no sistema. Bom senso é investir, é arriscar, é criar estabilidade e confiança.
Ou muito me engano ou vou votar nos vencidos. Ou muito me engano ou isto vai ficar tudo na mesma, para bem e para mal, consolidaremos o nosso lugar na cauda da Europa, em todos os sentidos! Estou cá, gosto de Portugal, não sou melhor que os outros, mas há dias em que me apetece emigrar outra vez!
