11.12.09

Padrões morais múltiplos, paralelos e paradoxais.



Que a moral muda, que é diferente conforme ao tempo-espaço relativo, isso a maioria das pessoas não tem problemas em aceitar. O que ontem faziam as classes dominantes tendem hoje a querer imitar os que se seguem... O que as classes dominantes dizem ao povo para não fazer, fazem-no eles, em surdina. O que ontem era proibido hoje é moda. O que está bem (não) vestir na praia ou piscina, do outro lado do passeio pode ser considerado obsceno e provocativo. E por aí vai.

O moral são os costumes. Costumes são os habitos, o que se faz. O que se deve fazer, o que se pode fazer, conforme a prespectiva. Da moral retiram-se noções como Bem e Mal. Bem é o que se faz, o que se deve fazer, o que se pode fazer. Mal é o que não se deve fazer.

Em última análise, bem é o que nos convém e mal o que não nos covém. Seja a cada um, individualmente, seja a cada grupo, seja a um conjunto de grupos, a tal de sociedade, a humanidade. Bem é o que convém à Vida, mal é o que não convém à Vida. E cada um terá o seu bitaite a dizer sobre o assunto, que muitas vezes varia em cada momento. Com guerras santas pelo meio e tudo...

O que me tem feito pensar é a complexidade disto. Porque isto até é simples teóricamente. Mas na pratica complica-se. Complica-se porque somos muitos, muitas pessoas, muitos grupos, todos em mudança. Com possibilidades e necessidades que evoluem, com habitos que mudam. Com acções e reações em cadeia, a maioria das vezes com pouca consciência sobre o que se está a passar. Com mudanças que nunca mudam realmente nada. Com um perpetuo equilibrio que na practica exige permanentes reajustes, muitos deles tremendos. E a moral fica aí no meio de tanta gente, de tanto grupo, de tanta mudança, meio perdida. Hoje em dia é dificil dizer o que é bem e mal, o que está certo e errado. Como diz o meu pai “está tudo na moda”. Tudo vale. Quase tudo se aceita. Não, não se aceita. Se fragmenta, e cada um aceita ignorar os outros, e não se chateia muito até que a mostarda lhe chegue demasiado perto do nariz. É um relativismo e individualismo acentuado, que para mim é liberdade, para outros é demência. Que a mim me dá espaço para me encontrar e perder, vezes sem conta, e que a outros dá horror, exactamente pelo mesmo. Enfim, indo a um caso concreto.

Caso concreto

Os recentes anúncios de lingeri que estão omnipresentes pela cidade, nomeadamente da “Intimissima”, e ainda mais os da “Triumph”, puseram-me a meditar sobre este assunto. A questão da moral complexa, plural e paradoxal.

Veja-se um exemplo, os anuncios actuais da “Intimissima”. Uma mulher, belissíma, veste apenas uma lingeri branca numa pose ao estilo... “humm sinto-me tão...hummm...quero...”, algo por aí. Enquanto os homens babam as mulheres sentem, ou querem sentir, o mesmo. E compram. O que acho desde já interessante é o facto de a marca se chamar “Intimissima” e expor por todo lado mais público da cidade uma mulher em trajes menores numa pose de conteudo altamente sensual, provocativo mesmo. Coisa que a maioria das pessoas jamais faria em público. A própria modelo não o faria. Se a modelo, ou qualquer mulher, andasse assim (não) vestida em público muita gente não consideraria certo, bem, moral, e os homens que gostariam também não lidariam com isso como algo normal. Mas nos cartazes, bem grandes, bem visivéis, colocados para exibir bem a modelo e sua pose, é normal, ninguém se queixa, antes pelo contrário. Portanto não se trata de uma mudança de moral, ou de uma moral diferente relativa a tempo-espaço diferente. Trata-se de moral plural, paralela, múltipla e com uma bela dose de paradoxo à mistura. Morais diferentes coabitam no mesmo tempo espaço, nas mesmas cabeças.

Não é este um caso isolado.


Anúncios do genero, mas ainda melhores (para mim) têm sido exibidos pela marca “Triumph”. O actual, da modelo com lingeri vermelha a apelar ao espirito natalício, está óptimo. Mas o anterior, que está na imagem deste post, é ainda melhor. Quando cheguei de viagem, depois de alguns meses num ambiente mais...reprimido, e vi aquilo fiquei num estado... seria de choque, de apogeu, de excitação, de deslumbramento perante tanta beleza? Nem me lembro bem. Foi bom. E eu nem era o público alvo!

Não consigo deixar de me perguntar como a família da modelo, ou a própria modelo, encara a situação. Óptimamente suponho. Mas se a modelo usasse o seu corpo para fazer filmes erotico-pornográficos, que visam excitar as cebeças alheias, tentaria provavelmente fazê-lo sem que a familia e amigos o soubessem, com vergonha, provavelmente nem o faria. A modelo e sua família não achariam bem as pessoas andarem pelas ruas só com aquelas roupas vestidas, muito menos naquelas poses altamente sensuais. No entanto, muito provavelmente, a modelo encara muito bem o facto de lhe terem pago para exibir sensualmente os seus atributos fisicos, para chamar a atenção das pessoas, em cartazes gigantes por toda a cidade. Porvavelmente até gosta que os homens se babem e as mulheres a invejem e admirem. Muitas pessoas até o fariam sem terem de ser pagas para tal, se ao menos tivessem a desculpa, para dar a si mesmas e aos demais, de que “é um trabalho”, é “profissional”, é “arte”. É?!?

Por mim tudo bem. Óptimo mesmo.

Não sei dizer o que é bom, bem ou certo. Mas gosto de que “tudo esteja na moda”, de que tudo seja possivel, aqui e agora.
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A minha 7ª Vida...segue dentro de momentos!

Antes de este ano (de trabalho) começar mentalizei-me para 2 trabalhos. Um, pequeno pequenino, manter-me a dar aulas de yoga, ao Sábado, só 3 aulas. Fácil. E outro era voltar a faculdade e fazê-la bem. Voltei a faculdade, a de Letras, departamente de História, Estudos Asiáticos. Estudos Asiáticos é o nome que actulamente se dá ao que antigamente se chamava “orientalismo”, o estudo das culturas dos países da Ásia. História, geografia, línguas (no meu caso chinês e hindi), filosofia, sistemas politicos, relações com o ocidente, etc. Estes dois trabalhos incluiam um poiso, uma casa confortável, e praticar yoga e desporto para me sentir bem comigo próprio e poder dar o máximo nos dois trabalhos. Pressuponham estabilidade.

Azar. A Vida não corre como queremos. Nós fazemos a Vida acontecer, através das nossas acções, mas, e é mesmo assim, somos apenas parte de algo mais vasto, um Todo, e portanto a vida não nos pertence. E não a comandamos, apenas a influênciamos, um pouco, ás vezes, através daquilo a que chamamos actos de vontade, a maioria deles pouco ou nada concientes, e ainda menos livres, seja lá o que isso for. Azar, a Vida escapou-me “ligeiramente” das mãos.

Como se não bastasse mudar mais uma vez de local onde vivo (em cerca de 8 anos mudei de casa, e ás vezes de trabalho, cidade e até de país, mais de 8 vezes), como se não bastasse voltar a faculdade e o curso ser bastante mais puxado do que tinha imaginado, em vez dos 2 trabalhos planeados tive 4. Em vez de estabilidade tive uma brutal instabilidade, e logo, bastante stress. Um dos trabalhos imprevistos, e bastante problemático, e que agravou as dificuldades dos outros todos foi não ter poiso. Na altura em que precisava, e em que deveria entrar naquela que seria a minha casa, descobri que a coisa estava com um “ligeiro” atraso de cerca de 2 meses! Primeiro tentei ir e vir. Viver no campo e estudar na cidade. Por mais idílico que isso pareça não deu resultado. Rápidamente percebi que tinha de arranjar poiso temporário. Por acaso foi fácil e duas amigas facilitaram-me o acolhimento. E boa companhia diga-se. Mas não era a minha casa. E por vias que não vale a pena explicar já ia no meu quarto ou quinto mês a não dormir mais de 2 ou 3 noites no mesmo sítio, e com a roupa algures perdida por malas, e sem o minimo de estabilidade e rotinas tão necessárias. Até porque quando se fica muito instável, além de se perder muito tempo com adaptações permanentes, a tendência é o desgaste geral, e o organismo começa a exigir que se pare, e lá se vão yogas, desportos, horarios de estudo e coisas do genero. Entretanto a “minha” casa lá ficou disponivel, embora não pronta. Os pedreiros ás vezes ainda entravam e saiam, faltava pintar, colocar o gás, luzes, limpar, mobilar, re limpar, etc.

Hoje, finalmente, acho que tenho casa. Ainda não está tudo. Falta pintar umas coisitas, falta limpar outras melhor. Falta montar um ou outro movel. Mas ontem vieram colocar o gás. E por um milagre (com nome de pessoa) a instalação passou à primeira. E por isso agora tenho água quente, fogão e tudo!!! Só esta semana, desde ontem para ser mais preciso, é que sinto que tenho casa, base, um poiso, algum sitio onde gosto de estar e onde posso estabelecer-me e criar concentração e estabilidade, como se diz para fazer no yoga...

Ainda não estou concentrado nem estável, ainda não estou como queria. Mas estou bem melhor agora. Desde ontem! Uuufffff...

P.S. Estou a viver entre Arrois e Anjos, uma zona cheia de velhos, estudantes, brasileiros e chineses. É algo decadente, mas também cosmopolita. Acho que esta zona está a começar a tornar-se quase...chiq! Num raio de poucos Km vejo um numero crescente de igrejas evangélicas, sobretudo brasileiras. Aleluia, viva o senhor.
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18.9.09

Surfwise! Sonho ou pesadelo? Os dois...

Há um mês vi um filme-documentário chamado “Surfwise”. É sobre uma família de surfistas relativamente conhecidos, os Paskowitz. Conhecidos no meio, principalmente para quem já acompanhava o meio surfistico nos anos 70!

Resumindo: um médico judeu formado em Standforf, Dorian "Doc" Paskowitz, que era surfista já nos anos 50, sendo um dos pioneiros do surf moderno no Hawai e em Israel, viu-se...infeliz!
2 casamentos falharam e a vida profissional como médico e dirigente profissional (com perspectivas de carreira politica) estavam a deixa-lo...infeliz! Solução? Surf. Surf e família. Lá achou uma terceira mulher que adorou a ideia de ser a mães dos seus filhos e a partir daí tiveram 9 filhos! E toda a vida deles foi passada numa auto-caravana! Os 2 pais e os 9 filhos numa auto-caravana. De um lado para o outro, pela a América do Norte, e em geral com muito pouco dinheiro, no limite da sobrevivência, o que alias fazia parte da filosofia de vida adoptada pelo mentor, que procurava não só liberdade mas também uma certa volta ás origens da animalidade humana, la luta pela sobrevivência diária e um certo ideal de saúde plena a isso associado. Sempre sem escola formal e muito surf. Nos anos 70 durante a contra cultura e da explosão do surf como cultura popular, e estilos de vida ditos alternativos os Paskowitz eram um exemplo de que o sonho era possível, uma inspiração, fonte de invejas, admiração, imitação...

O interessante: a partir dos 20 anos os filhos, a maioria deles surfistas e sem qualquer educação formal, fartos de viver sem dinheiro e confortos, fartos dos apertos, fartos da disciplina espartana instaurada pelos pais (disciplina férrea diga-se), começaram a rebelar-se a abandonar o barco. O melhor, a auto-caravana. Entretanto começaram a chatear-se todos. Os irmãos uns com os outros, com os pais, etc. Discussões sobre (o pouco) dinheiro envolvido claro que afloraram logo. Enfim, o que parecia um éden invejável visto de fora desmoronou-se por dentro. Implodiu. Hoje o velho Paskcowitz ainda faz surf ocasionalmente e continua firme e convictos das escolhas que fez para si e para os seus filhos. Mas aos 80 e muitos anos tem mais ou menos a mesma saúde de muitos outros octogenário (ou seja, pouca). Pelo menos fez muito surf e viveu como quis, com a sua família sempre perto. Até certa altura.... Já os irmãos cada um derivou para seu lado, poucos ainda surfam e só um pretende seguir o mesmo estilo de vida preconizado pelo pai. Um em 9. Os outros todos têm as suas mágoas, as suas frustrações, as suas culpas, muitas das quais dirigem directamente ao que os pais lhe deram. Ou melhor, não deram! Nomeadamente uma educação académica formal.

Esta história faz-me lembrar outra, a de uma amiga de uma amiga minha. Os pais dessa amiga de amiga soa hippies de toda a vida. Ela cresceu em comunas, blablabla... E pelo que sei está desesperadamente a procura de um gajo com o qual casar e ter filhos e assentar! De hippies a redneck amaricano em apenas uma geração!

Moral da história: seja lá o que for somos sempre contraditórios, desequilibrados e descompensados. Sempre a procura de outra coisa, a outra, o que não temos. Insatisfeitos, incompletos. A galinha do vizinho é melhor do quea minha. O melhor que podemos fazer é fazer escolhas responsáveis e tentar viver segundas as nossas convicções. Por mais que sejam apenas mais uma, nem melhores nem piores que as dos demais, são as nossas. Sejam elas quais foram. Não garante a felicidade, mas...o que a garante? Mais vale errar com os próprios erros...
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26.6.09

O Portugal dos pequeninos...

Acho que daqui a uns meses, nas eleições legislativas, se for votar, provavelmente vou votar no partido que está no governo. Acima de tudo para ser nos que lá estão! Se fosse o PSD a estar lá provavelmente votava no PSD…Vou votar na manutenção!

Como bons portugas que somos, sempre queixosos, tão queixosos como impotentes (dizer cobardes seria ainda pior) agora como sempre, na maioria, alinhamos pelo discurso negativo que nos caracteriza: está tudo mal, pior que nunca, os políticos são todos uma merda, uns malandros, uns incompetentes, fora com os políticos, as politicas definidas pelos políticos são más, são péssimas, e vou votar em quem me prometer fazer o contrário… Que me lembre os políticos da oposição dizem sempre ser contra tudo o que o governo disser que é a favor e depois chegam lá e fazem mais ou menos o mesmo, até porque boa parte das politicas já estão pré determinadas e condicionadas pelo quadro internacional e sobretudo Europeu, definido em Bruxelas pelo parlamento, esse que 62% dos eleitores não esteve para se incomodar em ir eleger. Outra coisa que todos dizem é que vão descer os impostos. E os portugueses, na sua maioria, são burros, e acreditam. Merecemos. Agora o que está a dar é dizer que se é contra o novo aeroporto e contra o TGV. O PSD nem é contra essa obras, nunca foi, mas como está na oposição agora faz que é, pelo menos até as eleições…O PSD nem é contra a avaliação dos professores, mas como está na oposição diz que é, claro. E se é difícil discordar da decisão politica podemos sempre criticar a “forma” e dizer que o governo é arrogante e não sabe dialogar! O mais engraçado é ver pessoas brutalmente arrogantes e sem capacidade de dialogo a dizer isso... Qualquer mudança que mexa alguma coisita me Portugal exige 20 ou mais anos de avanços e recuos, vários estudos, vários governos, até se tornar inevitável!

O novo aeroporto acredito que seja necessário, afinal, já se fala em construí-lo há cerca de 20 anos, e o tráfego aéreo só tende a aumentar muito mais. Pressuponho que ter um aeroporto decente na a servir a região não deveria sequer ser objecto de grandes discussões. E também sou a favor do TGV. Quanto a mim o TGV já deveria era estar feito há mais tempo!Ter comboios de alta velocidade, não só a ligar a Espanha, mas também a ligar o norte ao sul, parece-me que também não é nenhum luxo, é só o básico de um país que se quer desenvolvido. Sempre estudei nos livros da escola e nos meios de informação em geral que ter muitas e boas vias de comunicação é condição e consequência de desenvolvimento a todos os níveis, é quase seu sinónimo! Os países ditos mais desenvolvidos estão cheios de muitos e bons comboios. Não é só no Japão que até tem comboios rápidos para trajectos curtos! A Alemanha está cheia deles. A França também. A Espanha não só já tem muitos como está a fazer os possíveis para ter um comboio de alta velocidade a menos de uma hora de TODAS as cidades espanholas. Desde a Coruña a Badajoz TODAS as cidades do Estado que partilha connosco a Ibéria vão ter um comboio de alta velocidade a servi-las! O tráfego de todos os tipos está a aumentar, não só o rodoviário, mas também o marítimo e aéreo. E nos comboios também! Em 50 anos 1 só TGV será pouco. Teremos concerteza de fazer outros mais. Será que nós (que sofremos de periferia) somos tão especiais e tão espertos que descobrimos que não precisamos de mais e melhores meios de comunicação?! Somos especiais sim. A nossa especialidade é ser pequeninos. Quanto a mim o TGV já deveria era estar feito há mais tempo!

Dizem que estamos em crise… e daí? Para mim é uma constipação do sistema. O melhor sistema que existe. O sistema que criou o maior nível de riqueza e desenvolvimento que já existiu em toda a história da humanidade. Mas tudo bem, digamos que é uma...gripe! E daí? Este é o tipo de investimento que se vai prolongar por décadas, décadas durante as quais tudo pode acontecer, e durante as quais vamos entrar e sair de varias crises. Este tipo de investimentos ou é bom ou não é bom. Não tem nada a ver com crises conjunturais. E pelo que vejo pelo mundo fora até pode ajudar a enfrentar esta crise momentânea. Ora, se até o governo dos EUA, paradigma de pais capitalista liberal que advoga a não intervenção do Estado, está a intervir na economia, inclusivamente com lançamento de grandes programas federais de obras publicas com o intuito de estimular a economia e ajuda a sair da crise, porque raios é que em Portugal deveria ser diferente? Eu sei: porque aqui temos uma mente pequenina, achamos que isso é para os outros, para os grandes, os outros que não se assustam com grandes números, porque para nós falar em milhões e milhões ainda assusta…

Em Portugal preferimos gastar os milhões e biliões em coisas pequeninas...

Aqui preferimos gastar o dinheiro (inclusive o que não temos) em coisa mais pequenas, que dêem menos nas vistas mas que possamos conceber como mais nossas. Exemplos. Furar a Madeira toda com túneis caríssimos que permitam ligar algumas aldeias ao Funchal mais rapidamente. Construir piscinas municipais, que têm custos de construção e manutenção elevadíssimos, em todas as vilas (e até aldeias) do país, mesmo que muitas delas não funcionem nem a 50% da sua capacidade. Criar parques industriais municipais em cada concelho do país, porque cada um tem de ter o seu (?!?), mesmo que seja a 1 ou 2 km do do vizinho e nenhum dos deles tenha empresas para encher sequer um terço do parque. Ceder terrenos, serviços e outros incentivos (todos caríssimos) para alguns empresários privados encherem o país de campos de golf, boa parte dos quais vão estar sem clientes a maior parte do tempo. Criar vários centros de congressos em todas os concelhos do país, a maioria dos quais vão estar a gerar custos o ano inteiro apesar de estarem sem actividade alguma 90% do tempo. Fazer o maior numero de rotundas por Km2 e colocar lá no meio estatuetas tao feias como caras. Esse tipo de investimentos são mais pequenos mas são em muito maior número e no conjunto são caríssimos. Mas pelo menos são mais perto, podemos relacionar-nos mais directamente com eles, a até vão gerando empregozinhos no sector Estado, mas estáveis e menos exigentes, e sobretudo são mais pequenos. Pequenez é a palavra chave! É isso que nos agrada! Já alguém se manifestou contra a construção de mais uma piscina na sua freguesia? Alguém se manifestou contra os túneis na Madeira? Não, são mais pequenos, dão menos nas vistas, e o que se vê é no “meu” quintal… Até os 10 estádios de futebol o pior investimento público de sempre, para uma festa de menos de um mês, todos criticaram, mas não muito, e nunca ao ponto de sair para rua em manifestações! É que aí já se falava de crise (fala-se de crise sempre!), mas não era tão grave, eram os estádios de clubes da qual boa parte dos portugueses é simpatizante ou fanático e afinal de contas até gostamos mesmo da bola e de festa, por isso até se aceitou…E claro que muita gente achou muito bem comprar (mais uma) casa recorrendo a um crédito de 50 anos, isto apesar de mal ter dinheiro para pagar os outros créditos com que comprou o mobiliário e os carros, e as férias. E até poderiam ter comprado por metade do preço, mas gaita, é investimento… Investimento na imagem talvez! Quanto é que o governo gasta todos os anos (e por muitos mais) em bonificação ao crédito? De quem é a responsabilidade? Do sistema, do governo, dos bancos e da publicidade. Minha é que não é... Já alguém se questionou quanto gastam os portugueses em consumo de drogas recreativas? Eu já. Se contarmos só o café, álcool e tabaco já chegava e sobrava para pagar o TGV, o aeroporto e as autoestradas. Se somarmos outras drogas, como haxixe, cocaína e tal poderíamos fazer um fundo de investimento maior do que o que nos vais,um dia, esperemos, pagar a reforma! Pelo caminho diminuíamos os custos com problemas de saúde e aumentávamos a produtividade e longevidade. Mas mudar nunca, jamais. Mudem os outros, mudem os políticos mudem o sistema, mudem tudo, mas não mudem nadinha me mim. Esses prazeres são sagrados. Os pequenos prazeres. São sagrados também porque são pequenos! Que ninguém se atreva sequer a pensar em mexer nisso, era só o que faltava...

E acresce a isto tudo o seguinte. Alguém acha que se não investirmos no TGV, esse dinheiro iria parar aos nosso bolsos de outra forma mais útil? Por exemplo, alguém acha que esse dinheiro iria ser investido na área educacional ou cultural? Eu não acredito. Mais facilmente iria para salvar mais algum banco cujos capitais desapareceram algures numa ilha com paraíso fiscal! E eu prefiro fazer o aeroporto do que meter 2200 milhoes de euros em outro BPN! Na melhor das hipóteses, se fossemos um pais realmente organizado, racional e com capacidade de fazer boas escolhas, iria para ao apoio ás PMEs, pilar fundamental de qualquer economia. Infelizmente também não acredito que o dinheiro do TGV fosse aí parar. E se fossem nada garante que fosse bem aproveitado. Desde logo porque as PMEs dependem de acima de tudo de pessoas competentes, ambiciosas e com visão, pessoas que arriscam, que têm coragem. E como se sabe isso é um bem muito escasso em Portugal. E claro que assim que alguém ganha dinheiro em Portugal passa a estar sob o olhar da inveja e da suspeição! Quero crer que a minha geração e as seguintes talvez já esteja mais para aí virada, nem que seja por desespero, mas mesmo assim sou pouco crente. A geração anterior já se sabe o que fez com o pouco dinheiro que ia gerando: construiu casas que dão para 35 milhões de habitantes (o sonho máximo do português é ter a sua casinha)! Também compraram muitos Mercedes e automóveis afins. Mas não foi tanto o espírito de empresário que criou riqueza para tudo isto, foi mais as poupanças dos avós, as remessas dos emigrantes, a descoberta do crédito barato e a esperteza do marialva que lá conseguiu aceder a algum dos muitos subsídios que os ingleses, franceses e alemães mandam para cá, para comprar o nosso mercado! Assim, deixar de fazer investimentos grandes não garante que se poupe e canalize esse dinheiro para os pequenos. E muitas vezes os pequenos ainda utilizam o dinheiro pior que os grandes! Nas câmaras municipais é uma verdadeira festa. E nas contas pessoais dos portugueses sabichões ás vezes é pura e simplesmente surreal!

Portugal está muitíssimo melhor hoje que em qual outro momento da sua história. Desde que nasci Portugal nunca parou de melhorar. O nível económico e cultural melhorou muito. E mesmo não esquecendo que foi com a ajuda da UE que isto deu um salto maior, creio que algum do mérito é de todos nós. E também, e até sobretudo, dos políticos. Os políticos não são assim tão maus! São tão maus como a maioria de nós. São o espelho da nossa sociedade, merecemos os que temos. São tão corruptos, incompetentes e egoístas como a maioria de nós. Provavelmente menos. Em vez de estar sempre a dizer mal de tudo e todos, em vez de estar sempre a culpar o bode expiatório do costume (os políticos, os grandes, o sistema, os EUA, o Bush…) estou a favor de olhar para o que temos de bom, para o que podemos fazer de bom. Considero que o pior governo que tivemos nesta democracia foi o do Guterres. Cerca de 6 anos de governo minoritário e cobarde, em que se deveria ter feito reformas e dado outro salto. Não faziam nada, (não) governavam por sondagens e referendos. O pior é que os cerca de 3 anos seguintes foram ainda piores, mais instáveis, menos concretizadores, até o primeiro-ministro eleito cagou nisto e se pôs a andar. Foram cerca de 8 anos completamente perdidos, em que nos limitámos a gerir as contas para manter o défice dentro dos limites necessários para pertencer ao Euro. Que me lembre a única coisa minimamente certa e sólida feita nesse tempo foi o...Alqueva, uma grande obra! Então, já algo desesperados, demos maioria absoluta a este governo. O governo do Sócrates, por muitos defeitos e erros que tenha, parecia apostado em mexer nalguma coisa. Nem chegou a mexer assim tanto mas mesmo assim, só de tentar, consegue ter quase todos contra ele, e desde logo todos os que vivem mais directamente no Estado como professores, médicos, juízes, militares e policias. E isto que muitos deles, nos cafés e blogs, gostam de exibir discursos nos quais repetem a verdade de pseudo liberal de sempre: “o problema é Estado a mais”. Mal se tentou mexer nos privilégios, status e incompetências de tal gente e agora é de bom tom maldizer o homem e estamos contra tudo o que ele faz e queremo-lo o mais rapidamente de lá para fora para, para…para… para desfazer, recomeçar do zero, para não mexer em nada! Inacreditável! A nossa cabecinha pequenina, tacanha, conservadora e invejosa a funcionar.

Muito provavelmente vou votar no Sócrates. Se fosse o PSD a estar lá votava no PSD. Há que criar estabilidade e confiança. Há que arriscar e investir. E é mais fácil investir e arriscar com estabilidade e confiança. Eu confio em quem faz, erra, aprende, e continua a tentar fazer. Em Portugal há demasiadas mudanças de líderes partidários e demasiadas trocas governos, que na sua maioria são bastante fracos. Agora pelos vistos já nem um governo de maioria absoluta tem condições para governar com legitimidade os 4 anos para que foi eleito! Prefiro menos governos, mais estáveis, mais longos, mais fortes, mais realizadores. Como em Espanha ou Inglaterra por exemplo. A não ser que ainda se tenha crenças em ideais utópico religiosos tipo comunismos e tal, as escolhas agora já não são ideológicas. É mero pragmatismo e bom senso. Bom senso para mim não é ficar a contar tostão a tostão com a inveja dos pequeninos, deixar-nos isolar de um mundo cada vez mais interligado e impedir que se governe e produzam adaptações necessários no sistema. Bom senso é investir, é arriscar, é criar estabilidade e confiança.

Ou muito me engano ou vou votar nos vencidos. Ou muito me engano ou isto vai ficar tudo na mesma, para bem e para mal, consolidaremos o nosso lugar na cauda da Europa, em todos os sentidos! Estou cá, gosto de Portugal, não sou melhor que os outros, mas há dias em que me apetece emigrar outra vez!
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16.6.09

Portugal é mesmo bom!

Portugal é um país mesmo bom. Apresento provas!

Livro: Marching powder

Autor: Rusty young

O livro conta a história real de um traficante de droga inglês que foi preso na Bolivia. É um relato autobiográfico. Mas é...surreal!

O tipo é preso por uma traiçao do chefe da policia do aeroporto a quem tinha subornado para lhe garantir um salvo conducto em caso de necessidade. Dali é enviado para a prisao temporária, durante a instruçao do processo. Ali, onde esteve cerca de 1 mês sem ser ouvido em tribunal, quase morre de fome e doença porque como não tinha dinheiro para pagar aos guardas para eles lhe levarem comida. Logo, nao tem comida! Nem comida nem nada mais que uma cela fria e imunda. Dali, e quase a morrer, extremamente doente, implora para o levarem ao tribunal e enviarem a prisao. Consegue porque os guardas percebem que ele não tinha mesmo dinheiro para dar-lhes. Depois de uma rápida passagem pelo tribunal despejam-no na prisao, a principal de La Paz, a capital da Bolivia. Quase a morrer passa a primeira noite na prisao, entre alucinaçoes e incredulelidade. Ninguém lhe diz nada, nem qual é a sua cela, nem como alimentar-se nem nada. Dorme ao relento num canto imundo. No dia seguinte, e já convicto que ia morrer, é abordado por um boliviano-americano que fala inglês e que tem pena e o orienta. Acolhe-o e explica-lhe como funciona tudo. Básicamente funciona tudo como fora da prisao: tudo é pago. Se quer comer é pago. Se quer assitência médica é paga. Se quer uma cela é paga. !!! Mas como alguém que acabou de ser preso e despossado de tudo (roubado pelos guardas) tem dinheiro para pagar a própria cela!? Pagar a própria cela! Ou seja, comprá-la! Literalmente. As celas, que iam desde mini apartamentos a cantos imundos, sao compradas e vendidas entre os presos, com contrato de compra e venda, e o seu valor oscila tal qual em qualquer outro mercado! O mercado varia, por exemplo, se ao EUA decidem fazer pressao para controlar o tráfico, e há uma repentina remessa de novos presos, o valor das celas sobe... E também há bairros e classes sociais dentro da prisao. E restaurantes. E lojas. E...

Os guardas, desde o director da prisao, ao mais baixo ranking sao todos corruptos. TODOS. Inclusivé, há luta entre os guardas prisionais para serem destacados para aquela prisao, já que tem fama de ser nela que se conseguem mais e melhores “ajudas” e “comissoes”. Os advogados e juízes também estao todos metidos no esquema. Boa parte dos custos judiciais sao para untar o juiz. Não que isso signifique ser absolvido, mas pelo menos é menos provavel receber sentença máxima. Outra coisa que quase todos fazem é consumir drogas, nomeadamente cocaina, que se consome quase como café, apesar de ser ilegal e a causa principal do sobrelotamento das cadeias.

O tipo, entretanto já recuperado e integrado descobre que a cadeia é o sitio onde se fabrica grande parte da droga produzida na Bolivia, e sem duvidas a de maior qualidade. Ou seja, a droga que ele comprava fora da prisao e traficava, e pela qual foi preso, é frabicada dentro da própria prisao! Na prisao também vivem mulheres e crianças. As mulheres e crianças dos reclusos! Reclusos? Sim, mas não tanto. Pagando pode-se sair. Numa dessas saidas acompanhadas (e pagas) e heroí de ocasiao conhece uma tipa na discoteca. Uma israelita que estava de férias. Ele leva-a a passar a noite na sua cela na prisao! Ela gosta, apaixonam-se. Ela acaba por ficar umas semanas! E acaba por convidar os amigos dela a vir ver também este cenário surreal! Aí começa o novo negócio do nosso traficante: visitas guiadas à prisao, sobretudo para turistas ocidentais! Em algum tempo tornam-se tao populares que passam a fazer parte do roteiro turístico de guias internacionais! Mais tarde esse negócio é roubado e continuado por outros gangues da prisao! Uma das coisas normais que os turistas fazem na prisao, naturalmente, é consumir a melhor cocaína da Bolivia!



Depois deste livro, quando leio noticias sobre a América central, sobre golpes de Estado, instabilidade politica, revoluçoes, Chavez e Morales, esquerdas e direitas, sobre a violência, sobre a produçao e o tráfico de drogas, sobre eleiçoes, sobre turismo, etc., fico sempre com aquela sensaçao de que não faço a minima ideia do que se passa realmente por lá. É outro sistema, ou outro nivel. Quem sou eu para mandar bitaites, apoiar este ou aquele, ditar soluçoes, salvaçoes e razoes?!

Ao pé disto o sistema português até é...bastante...quase legal...mais ou menos sério...relativamente confiável...razoavelmente eficiente! Portugal é mesmo bom.
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3.6.09

Sublime

Quando os não filósofos dão lições de filosofia aos pretensos filósofos (eu, por exemplo)...

Há pouco vi na RTP2, no programa Bairro alto, uma entrevista biográfica com uma mulher maravilhosa chamada Carminho, uma nova fadista. Ás tantas, ao ir falar de uma viagem que fez respondendo a uma necessidade de autoconhecimento, e falando do voluntariado que fez antes e durante dessa viagem, disse algo que definiu a meditação na mais absoluta perfeição. Foi algo mais ou menos assim:

"...como temos de nos esquecer de nós, e isto que vou dizer é paradoxal mas é totalmente verdade, como temos de nos dar ao outro, o outro tornar-se uma perfeito espelho de nós! Reflecte-nos."

Não sei se já se dedicou a alguma filosofia de autoconhecimento que envolva meditação, ou se relacionou as coisas. Mas de uma só assentada definiu o Tantra, e mais especificamente a meditação, de forma sublime.
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11.5.09

Super interessante!

A normalidade absoluta…

Quando pessoas "normais" fazem coisas "anormais" com a mais absoluta "normalidade"


Hoje, na Sic noticias (um dos poucos canais televisivos onde vale a pena absorver informação, desde que em pequenas doses), vi um programa muito interessante. Escolheram uma serie de candidatos, homens e mulheres, adultos, “normais”, para uma experiência científica. Só que os escolhidos eram as próprias cobaias sem o saberem. Eles pensavam que estavam a ajudar a fazer outra experiência, na qual interrogavam outro suposto participante da experiência (que não viam, só ouviam). A experiência fictícia consistia no seguinte: Faziam perguntas e se o entrevistado errava ou não dava resposta eles (supostamente) descarregavam uma carga eléctrica de potência crescente no entrevistado. Essas (supostas) descargas iam subindo até atingirem um máximo de 450volts!!! Nesse processo de sofrer choques cada vez mais fortes o entrevistado gritava de dor, implorava para o retirarem dali e ficava em silêncio para fingir perda de consciência ou morte.

Resultados: 7 em cada 10 dos “entrevistadores” continuaram a experiência até ao fim! Até descarregarem 450 volts no “entrevistado”. Uma descarga que se supõe fatal! Ou seja, 70% por cento destas pessoas normais deixou-se facilmente envolver num processo no qual tortura e mata outra pessoa, sem grandes resistências. Alguns fizeram-no de sorriso na cara.

Claro que a maioria destas pessoas normais transferiu a responsabilidade para o suposto médico-cientista que estava junto a orientar a sessão e a assegurar-lhes que era essencial e correcto continuar a experiência. Esse médico ainda por cima representava a Ciência, e esta o Bem, tudo cheio de credibilidade. Por isso a maioria dos candidatos simplesmente confiou, transferiu a responsabilidade. Em parte até transferiram a consciência dos próprios actos. Mas ainda assim dá que pensar!

Veja-se que isto não foi passado na ex-URSS, ou na China, ou em algum país obscuro da Africa. E as pessoas submetidas á experiência também não são loucos psiquiátricos. São todos pessoas como nós, como eu, "normais".

O que a mostra esta experiência, que na realidade era uma reposição de experiências anteriores que mostraram os mesmos resultados, é que cerca de 70% dos cidadão "normais", 70% de nós, em condições especificas, não muito estranhas ou dramáticas, simplesmente situações que gerem confiança, credibilidade e ou santidade executam tarefas de tortura e matança sem grandes hesitações, resistências ou sequer avaliações de consciência ético morais. Dá que pensar!

Esta experiência vem no seguimento de outra, nomeadamente da famosissíma experiência levada a cabo na universidade americana de Standford. Ver os links aqui e aqui.

E assim se compreende que cidadãos alemães "normais" se tornassem carcereiros de campos de concentração e extermínio nazis, ou a prisão de Guantanamo, por exemplo.

Sobre este tema sugiro o excelente filme: O leitor.

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30.4.09

Homenagem a Mario Soares e o drama do existêncial


Mário Soares é omnipresente na politica portuguesa dos últimos 50 anos. Mas não é consensual.

Nos que se dizem de direita raramente é bem dito, devido aos proselitismo obrigatórios do discurso partidário, do discurso sectário, da dialéctica, essência da democracia. Mas muita gente, mesmo nessa direita, o admira, ou inveja, desde logo porque foi ele que mais fez pela sobrevivência da direita em Portugal logo após o 25 de Abril, pela possibilidade dela (co)existir.

Nos que se dizem de esquerda o MS é ainda menos consensual. Para a maioria dos ditos comunistas é um verdadeiro
inimigo, o inimigo numero 1, até porque depois da simpatia, tolerância e cooperação mutua até ao 25 de Abril, o Soares e o seu PS tornaram-se os mais eficazes de todos os opositores ao comunismo em Portugal. Percebe-se portanto essa inimizade, uma aversão que aliás é mutua. E mesmo dentro do PS o Soares não é fixe para todos. Porque ele sempre se manteve leal ao PS, mas não de forma cega e muda, mantendo sempre uma grande independência, principalmente a partir do segundo mandato presidencial, uma independência que não o inibe de criticar o próprio PS, se assim acha certo. Ele diz-se do PS, mas acima de tudo assume-se esquerdista, e parece-me que é acima de tudo Soarista. Porque tipos deste calibre conseguem superar os próprios grupos que integram...

Entre os meus familiares, tal como entre os meus amigos, independentemente das várias simpatias politicas mais ou menos assumidas, o Mário soares também não é uma figura consensual. Aliás, para a maioria de uns e outros é uma figura que colhe mais antipatias que admiração. Parte creio que é pura e simplesmente devido a ser politico. Como politico que é, é “mau” à partida, até prova em contrário! A partida e a chegada! E durante... E como ele está metido na política há tanto tempo, tendo-a exercido tantas vezes e com tanta importância, teve tempo de recolher mais criticas e reprovações que qualquer outro. É mesmo assim. Mas ele não se importa, ele é politico por vocação, com convicção e orgulho.

O MS já era político antes disso lhe poder trazer qualquer perspectiva de grandeza. Quando se deixou assumir essa vocação isso significava ser um emigrante, um refugiado politico. E na altura, uma mudança de regime era uma esperança de poucos, algo incerto, longínquo. Com o 25 de Abril o MS teve o seu momento. E a partir de aí mostrou, para mim, uma grande lucidez. Como MNE acabou com a guerra colonial (que estava perdida á partida e que esteve na génese da revolta militar do 25/Abril/1974) e procedeu ao processo de descolonização em tempo recorde. Portugal, em pouco tempo, recebeu mais de 1 milhão de “retornados”! Sem grandes problemas, sem guerras, sem mortos, sem conflitos nos novos subúrbios. Foram quase todos mais ou menos bem integrados, ou melhor, souberam integrar-se muito bem. E foram bem aceites. E assumiram um papel primordial no desabrochar da sociedade portuguesa no pós 25 de Abril. Considero esse facto o mais fascinante dos últimos 50 anos de história portuguesa, juntamente com a adesão à UE (então a CEE), que por sinal também teve o cunho do MS. Além de ser peça chave e pró-activa nesses dois movimentos essenciais, foi também peça chave no ano quente do pós 25 de Abril, quando a revolução militar se tornou popular, e o fim 50 anos de ditadura deixaram a pressão sair com os ímpetos revolucionários de extrema esquerda, que na revanche queriam transformar isto numa Albânia mais. Na altura o esquerdista MS teve lucidez suficiente para não aderir aos ímpetos de vingança (por mais idealistas e bem intencionados que fossem, e sei que o eram) mantendo-se firme nas suas convicções de pluralidade democrática, de abertura e interacção entre diferentes, entre pessoas, partidos, organizações e países diferentes. Uma convicção de que para haver evolução, ou seja, dialéctica, é preciso diversidade, tolerância para que o que é diferente conviva, e as sociedades democráticas ocidentais, com todos os seus problemas e contradições, acabam por ser precisamente as mais tolerantes, e logo mais dialécticas, e logo mais desenvolvidas a todos os níveis, e logo têm o melhor sistema político. As tentações da extrema esquerda pelo uniformismo (em nome da “igualdade”) não iria desembocar em liberdade nenhuma, antes em outra ditadura, não muito diferente da que acabávamos de deixar para trás. O esquerdista MS fez o impensável para um verdadeiro revolucionário esquerdista da altura: negociou com os americanos, com a CIA, e com o apoio escondido destes conteve o avanço da Albanização do país. E no também negociou com o FMI e deteve o caminhar de Portugal para uma bancarrota iminente, que se devia tanto aos gastos com a guerra colonial como depois à fuga de capitais para o estrangeiro e aos excessos revolucionários. Mais tarde, depois de todos esses actos, que são “só” os mais importantes de todos os actos políticos me Portugal nos últimos 35 anos, o MS teve lucidez para manter-se firme nas suas convicções sobre a democracia ocidental que ele idealizava, que ele chama esquerdista, que se poderia chamar social-democracia, ou seja, um capitalismo preocupado, e por isso mais ou menos equilibrado. Assim, e quando o muro de Berlim caiu com o ruir da ex URSS e seu domínio imperial no Leste, o MS foi uma das poucas vozes que não embarcou num discurso neo liberal (também ele imperialista), disfarçado na Europa sob a designação de “terceira via”,(supostamente de esquerda) e que sem contraponto se julgava perfeito, sem limites. E foi um dos que, tendo sido um dos principais aliados dos americanos em Portugal e Europa, se tornou um dos seus maiores críticos, uma voz de alerta para os excessos. Para o excesso do consumismo (e do consumismo como filosofia de vida), para o excesso de liberalismo económico, para os excessos de imperialismo americano no que isso tem a ver com guerras militares e económicas, e sobretudo contra o Bush que se tornou imagem de tudo isso e muito mais, e muito pior. Acertou mais uma vez!

O MS cometeu sem dúvida erros. Só não os comete quem não faz coisa alguma. Terá as suas contradições, como todos temos. Mas no geral foi uma figura primordial no construir do Portugal moderno, que em geral está melhor em tudo do que estava há 35 anos atrás. E o dedo dele está nos momentos e decisões mais quentes, mais importantes, e mais acertados. “Só”.

E hoje continua a impressionar-me com a jovialidade e lucidez que apresenta. Continua a pensar, continua a manifestar-se. Continua firme nas suas convicções. Continua a querer entusiasmar os jovens por uma actividade que o apaixona, que julga importante, e nobre: a política. No entanto creio que vai falhar nesta última luta.

O drama do...êxito!?

Ele a a sua geração, a dos meus pais, construiram o Portugal moderno. Poderia estar melhor. Deveria. Mas fizeram o que puderem, o melhor que souberam. Creio que, depois de uma monarquia decrépita, uma primeira Républica anarquista, e uma ditadura miserabilista, Portugal, os portugueses, não davam mais. Mas evoluiu-se muito. O nível económico e cultural deu um passo de gigante. E deu para construir um país essencialmente pacifico, aberto e integrado na comunidade internacional, estável, democrático, onde as condições de vida sao, em geral, boas. Muitíssimo melhores que há 35 anos. Eles já fizeram a revolução. Agora é a vez da minha geração, esta que tem entre 18 e 48. O que nos resta fazer? O nosso trabalho não é tao apaixonante. Nós já apanhamos isto mais ou menos pronto em termos de sistema politico-económico. Não há lugar a revoluções nesse sentido. Esta democracia ocidental, com todos os seus problemas, é o melhor que sistema que há. Só podemos regenerá-la, aperfeiçoá-la, melhorá-la, mantê-la. E isso não é coisa de revoluções, não permite canalizar toda a insatisfação e agressividade que contemos através de uma luta politica entusiasmante. Até porque as regras do sistema tendem a querer perpetuar-se e resistem até pequenas reformas. Reformas que têm de ser continuas, mas leves. Rotina, paciência... Nada disso é muito empolgante. Aliás, nem deve ser. Se o sistema funciona bem a maioria de nós não deveria necessitar de estar sempre a pensar nele. Deveríamos simplesmente aproveitar a liberdade e condições económicas favoráveis para nos expressarmos individualmente, para sermos criativos, construtivos, empreendedores. Para criarmos valor acrescentado, dando o nosso contributo à sociedade através da realização da nossa vocação individual. E isso pouco aponta para a política. A responsabilidade política principal hoje não está em ser político, nem sequer em votar em um ou outro político, muito menos perder tempo a ver (tele)jornais onde nos hipnotizamos com uma imagem muito pior da realidade do que ela realmente é. Hoje o acto "político" é dar algum contributo criativo e positivo á sociedade enquanto cidadão individual, enquanto empregado, enquanto ONG ou empresa capitalista. Até enquanto consumidor.
E hoje, com condições de vida são muito melhores que antes, as pessoas, que supostamente são (mais) livres e por isso seriam mais responsáveis individualmente, deveríamos assistir a um maior índice de felicidade e realização pessoal. Afinal, é em nome disso que todas as revoluções se legitimam. Todos poderíamos escolher o que queremos fazer, o que queremos ser. Só que esse poderíamos transformou-se num presente envenenado. O poderíamos transformou-se num deveríamos, e mais pesado ainda, transformou-se num "tem de" fazer escolhas, cada um tem de saber que quer fazer, com quem, como. Há que saber-se “quem sou?”. E para falar a verdade isso nunca foi de todo transparente. Quero ser agricultor, formar um novo partido político, aderir a um exército e andar a brincar ás guerras, ser empresário criar empregos ganhar dinheiro e criar algo, ser actor ou criar um banda musical, ser um acomodado empregado do Estado, ser pai, amante, surfista, pensador...uma mistura complexa e instável disso tudo? O quê? Qualquer individuo minimamente consciente e honesto consigo próprio consegue responder a si mesmo: quero ...TUDO! E sobretudo quero o que não tenho. Somos geneticamente insatisfeito ou não? Viva a neurose! Enfim, delírios de egos e alter egos a parte a maioria das pessoas percebe os seus limites da Vida, e percebe que esta é um compromisso constante, há que fazer escolhas. Até porque a realização não vem de termos tudo, mas sim de encontrar o todo em alguma das suas partes. Temos de nos concentrar dizem os gurus... Dentro todas as possibilidades, dentre todas as oportunidades e capacidades ao meu dispor o que é que quero? Qual a minha vocação, o que me realiza? Escolhas, escolhas e mais escolhas! Isto de ser humano, "livre" e responsável é um fardo constante. Perante tanta (suposta) liberdade a maioria das pessoas parecem mais perdidas que nunca. Sempre a queixar-se e lamentar-se, a esconderem-se de si mesmos nos gritos críticos que dirigem aos demais, completamente insatisfeitos, tão absolutamente infelizes como sempre.

Não fomos salvos pela ciência,
nem pelo comunismo, nem pela democracia, nem pelo consumismo. E a religião já lá vai... Agora a última tendência é depositar as esperanças numa via espiritual new age, ou pelo menos orientalizada. Não fomos salvos porque não há de quê salvar-nos. Porque continuamos a viver, como sempre, no mesmo sítio, no centro do Universo: em nós mesmos! Vamos salvar-nos de nós mesmos?!?! Hoje vemo-nos confrontados com ser realmente adultos: assumir que a Vida é isto, só isto, não há fugas, nem salvações. É "só" isto, o drama existencial...

A não ser que isto descambe, e fique de tal forma mal em termos económicos que o povo comece a achar razoável embarcar em radicalismos, a minha geração deve continuar a desinteressar-se pela política porque os políticos até não são assim tão maus, e até têm gerido isto bemzinho, até ligeiramente melhor do que a maioria das pessoas gere a sua economia individual e familiar... Sim porque todos vemos defeitos nos outros, nos poderosos, nos ricos, nos dirigentes, no sistema (o sistema somos nós) , etc., mas a maioria não consegue nem mesmo gerir minimamente bem os seus próprios relacionamentos, ou a suas próprias micro finanças. Não conseguimos salvar-nos a nós mesmos mas achamos sempre que sabemos como salvar o mundo! Treinadores de bancada é o que somos: sabemos sempre tudo, tudo o que está mal, e que deveria ter sido feito, depois do jogo e sobretudo fora do jogo, debitando receitas milagrosas para o mundo ao sabor de mais uma mini! Apesar de dizer mal de tudo e todos raramente nos dispomos a assumir o protagonismo, e por isso confiamos nos outros, nos que inevitavelmente maldizemos. Mas se nos distraímos muito, se nos desinteressarmos por completo, pode ser que até aquilo que tanto criticamos , mas que afinal damos por garantido, talvez nem isso seja de grande solidez, e se desvaneça de um momento para o outro, e até sem isso fiquemos. Esperemos que não. Esperemos que a esperança que o Soares continua a ter e proclamar nos mais jovens (talvez até mais jovens que eu), na sua lucidez e bom senso, seja certeira, mais uma vez.

P.S.
Eu não sou esquerdista, nem de direita, nem sequer Soarista. Só admiro o homem...
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15.4.09

Outros blogs de viagens...

Adorei este post, e desde logo o seu magnifico titulo, que aqui transcrevo.

"Viajar é viver lentamente uma vida mais rápida, num Mundo onde o tempo não tem importância nenhuma"
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14.4.09

"Você já é adulto mesmo?

Então pare de reclamar,pare de buscar o impossível,pare de exigir perfeição de si mesmo,pare de querer encontrar lógica para tudo,pare de contabilizar prós e contras,pare de JULGAR os outros,pare de tentar manter sua vida sob rígido controle. Simplesmente , DIVIRTA-SE! "

Martha Medeiros (algures na net)
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