7.1.06



Primeira crónica do novo ano.

Um amigo pôs-me a pensar no assunto. Foi uma boa oportunidade para organizar ideias sobre um assunto que lá em casa era omnipresente desde o berço!

Comunismo…o sonho!

“I have a dream!” o grande M.L.King repetiu vezes sem conta no seu mais celebre discurso. Um slogan que ouviu de um plebeu. Uma frase que o conectou com grande parte dos povos do mundo. Pois todos sonhamos. E o nosso sonho é um “remake”. Um “remake” que se renova vezes e vezes sem conta. E que vende sempre!

Se é de comunismo que falamos primeiro afloremos o sonho. Pois o assunto é absolutamente onírico!

O Homem sente-se limitado. Preso pelos condicionalismos da vida. Na sua condição de ego presente a sua própria morte na sua actual solidão. Por mais poder que disponha nunca é suficiente: acaba por sofrer. Por mais problemas que resolva a “cozinha” volta sempre a precisar de arrumação (solução). Não tem fim. Chega a ser desesperante.

Deve haver algo mais. Devia. Tem de haver!

Algo pleno. Ilimitado. Infinito. Eterno. Integrado. Integrante. Uno. Perfeito, justo, livre e feliz, seja lá o que isso for!

Estamos a caminho!

É esse o sonho.

E o Homem sonha. A dormir e, supostamente, acordado. Deseja. Pensa. Espera. E sonha! E volta a sonhar! E o horizonte, por mais que andemos, continua a existir…

Mas alguns sonhos parecem mesmo realidade.

Ao longo da história há alguns mais famosos.

O cristianismo, nas sua múltiplas formas, teve bastante êxito por estas bandas. Mas a certa altura tornou-se demasiado conservador, aprisionando a evolução. Começou a perder o encanto e a ser posto em causa, pois já não satisfazia tanto e tão bem a necessidade de situar o homem na sua existência (quem sou? E as perguntas que se desdobram…as da praxe.) e dar-lhe (vã) esperança e segurança.

Assim, abriu-se espaço cultural e sacou-se da cartola outro “remake”. Um nova linguagem, mais de acordo com os racionalismos positivistas “científicos” da moda. Junte-se a utopia de Thomas Moore com outra ideia pouco original: a dialéctica evolutiva esplanada por Hegel. Troque-se o idealismo transcendente por um apetitoso (e ambicioso) existencialismo sociológico e voilá: mais do mesmo!

Agora o paraíso tem outro nome. Chama-se comunismo e, basicamente, é igual ao “céu”. Ninguém sabe concretizá-lo muito bem mas todos sabem que lá tudo está certo e não há mais o que preocupar. Melhor ainda. Este “céu” é na terra! E está a ser processado pela própria História, ela própria protagonizada por novos seres divinos: nós! O sacrifício agora tem fim a vista e é materializável! E é em nosso próprio nome (ou pelo menos dos nossos netos. Bem…talvez da Humanidade um dia mais tarde…). E também há um diabo, pois claro: o sistema capitalista. E um purgatório: o socialismo real (heheh). E uma igreja: o partido (e depois o Estado) comunista. E um profeta: Marx. Um profeta que, como Cristo ou Mahomed, deve dar muitas voltas na sepultura (talvez a rir) se de alguma forma pode ver o que se faz em nome das suas revelações. (Desculpem os crente as comparações. E aos crentes do comunismo desculpem chamar as ideias e teoria de revelações, que sei que é um vocabulário irritantemente comprometido com outras ideologias. Mas que s… f…!)

Marx. O homem devia ser judeu e burguês pois percebeu bem o sistema que funcionava na época. E acabou por explana-lo na mais importante tese sociológica dos últimos 250 anos. Basicamente percebeu o óbvio: as desigualdades sociais reflectem-se nas diferentes capacidades energéticas ($) de cada um. Perspectivou a Era industrial a partir de um elemento mais básico, o económico, e assim criou o capitalismo. Conclui que favorecia os patrões (que têm as ideias e/ou a coragem e capacidade para as concretizar) em comparação com os empregados (que simplesmente servem como pilhas!). Julgou esse sistema como problemático e teorizou uma solução: o comunismo. Tudo de uma só acentada. Convenhamos que foi genial. Não tanto como os seus séquitos o pintam, mas ainda assim genial.

Entretanto muita água já rolou.

Tudo o que em Marx é profecia (ops…previsão) falhou. Os comunismos brotaram todos em sociedades analfabetas, agrárias e muito pobres, facilmente manipuláveis por ditadores sanguinários, e nunca evoluiu do chamado capitalismo, que soube equilibrar-se tornando-se socialmente preocupado. O que por aí houve de experiências ditas comunistas mais se assemelharam a uma ditaduras senhoriais e medievais que a uma civilização democrática ultra evoluída. O comunismo real mais bem sucedido é o muito especial caso Chinês, cujo o lema hoje é: “um pais dois sistemas”! Um sistema cada vez mais liberal e capitalista!

Mas, não obstante as aspirações goradas, fé é fé! Não se discute. Quem acredita, acredita e pronto! E o que não falta é gente que acredita. Que precisa de acreditar que um mundo melhor é possível. O homem é dotado de muita fé. De muito sonho. Vamos salvar o mundo!

Assim, a falta de comprovação material de um sonho não o mata. Até pelo contrário. Dá-lhe espaço para se recriar. Aos comunistas da era pós queda do muro de Berlim abre-se toda uma nova liberdade para sonhar com o intangível. Agora, de novo, sem estar presos à dura realidade de ter os pés acentos na terra. No mundo dos sonhos tudo é possivel. Todas as ideologias podem ser perfeitas e perfeitamente realizáveis. (Até o Liberalismo...)

Nós (os iluminados, quero dizer) não precisamos de acreditar num mundo idílico transcendente. Sabemos que o mundo é assim. É só isto. E é perfeito. Está aí cheio de possibilidade e oportunidades para ser vivido. E é para isso que cá estamos: para viver. Para desfrutar. Retribuímos o privilégio da existência…existindo!

E a apaixonante luta para salvar o mundo? Sim é interessante. Como um jogo. Um jogo a que nos integramos absortos porque está aí, para ser jogado. E por ser divertido.

Sinceramente, é preciso qualquer coisa excitante (para o ego) de forma a evitar a insatisfação de uma existência simples, despretensiosa ou apenas contemplativa. E, no caso dos países ricos: fácil. Fácil demais. Sem desafio.

E por isso, sabendo que é apenas um jogo, jogamos. Jogamos com prazer e satisfação. Lutamos por objectivos, conquistamos e morremos. E repetimos tudo de novo até sair um jogo novo, mais aliciante. E igual.

E para os que não têm fé no jogo, não gostam dele ou simplesmente não sabem jogar, o jogo tem sempre um botão “terminar sessão”. E este abre várias hipóteses de “encerramento”. Algumas muito existencialistas. Por exemplo: Sky diving sem pára-quedas!

3 comments:

Luis said...

Excelente!E so o que tenho a dizer!

m said...

Uma (r)evolução!!!

JV said...

Grande análise, especialmente qdo dizes que " Nós (os iluminados) n precisamos de acreditar..."
Esse "iluminados" podia-se substituir por "privilegiados" no sentido em que temos educação, acesso a informação e as necessidades e liberdades básicas garantidas ha muito tempo.
O jogo de tentar mudar o mundo (ou salvar, como pensam os que o jogam)não é realmente nada mais do que isso.
Grande análise.abraço.