7.1.08

Portugal e Espanha vistos por um emigrante

Umas voltas mais pelo estado dos países ibéricos

Como não podia deixar de ser, não por enquanto, fui a Portugal. À terrinha. Às terrinhas. Dois dias em Lisboa, dois em Alcobaça, dois no Porto, mais ou menos. Como costume não deu para fazer metade do que queria. E o que queria era ver os amigos, família e colegas. E passear por alguns sítios que me recolocam nas minhas raízes e se possível até repetir a dose mais que uma vez. Mas não dá. É tudo fugaz. E talvez por isso fico logo com saudades outra vez. E talvez por isso veja a nossa terra com outros olhos. Lisboa continua linda. E diga-se que, cada vez mais, Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Para o bem e para o mal.

Desde já se diga que a paisagem, na qual incluo Alcobaça, dá-me imenso prazer. Alcobaça parece-me cada vez mais parada, em alguns momentos parece mesmo senil, mas, e para contrariar esta velhice, está cada vez mais bonita e nesse aspecto mais jovial e agradável. E para quem vai uns dia de férias até sabe bem estar tudo calmo, mesmo que seja calmo de mais. Houve tempos em que Alcobaça atraia mais gentes de Lisboa e arredores, que se juntava em amena cavaqueira e fazia umas festas valentes. Agora parece-me que até já sobram poucos dos próprios Alcobacences! Talvez não tenha mudado quase nada, a perspectiva é que é outra. Mas ainda é a terrinha, e esta desertificação no litoral até me faz pensar que se alguma vez optar por uma vida de recolhimento “espiritual”, o que se me afigura como cada vez mais provável, possivelmente o farei regressando a esta casa! Afinal, para um recolhimento ligeiro está perfeito Alcobaça, pois não se passa lá grande coisa, mas está relativamente perto de onde tudo se passa! Se o aeroporto se construir de facto na OTA, creio que este sossego não resistirá. E a esta altura já nem sei se isso é bom ou mau! Crescimento de betão à portuguesa dá-me asco. Mas às vezes é melhor esse que nenhum.

O futuro aeroporto da zona centro, para mim é paradigma do que se passa me Portugal: muita conversa, muito estudo, muitas criticas, pouca acção. Há 30 anos ou mais que se fala nisso. Vários governos já decidiram avançar. Já se escolheu o sitio. Já se mandou parar tudo. Já se abriram e reabriram várias hipóteses, e os partidos já voltaram atrás nas suas posições conforme a se estão no governo ou na oposição! Toda a gente tem opinião e como é óbvio as opiniões tendem a apoiar mais as hipóteses contrárias às decisões tomadas. Afinal, se os políticos dizem uma coisa o melhor deve ser o contrário! Ninguém toma decisões. Pois a mim é-me indiferente. Que construam ou não e qual a opção. Se tivesse de votar escolheria a OTA mas as otras opções não serão muito piores. Se não querem construir não construam, mas se é realmente necessário deitem mãos à obra! E ao TVG. O aeroporto de Madrid, Barajas, já vai no terminal 4, que só por si é maior de o da Portela, e está em obras de ampliação constantes, tem até Metro dentro! A discussão em torno do novo aeroporto é sintomática do que Portugal é. Muitas promessas, muita conversa e pouca acção.

O governo do PS do Sócrates está a governar tão absolutamente ao centro que está a deixar a oposição enrascada mesmo tentando fazer algumas reformas incomodas em tempos de crise. No fundo governa como qualquer governo social democrata da Europa ocidental faria. Todos influenciados pela terceira via do Blair, que nada mais é que neo-liberalismo com bom senso, e pelos mandamentos da politica da UE e pelos ditames do FMI e da globalização. Não sobra muita margem de manobra. E assim o gov aproveita a maioria absoluta, que dá um mínimo de estabilidade e confiança a um sistema politico que favorece governos fracos e instáveis, para tentar fazer aquelas reformas que já se deviam ter feito há muito tempo, quando ainda não eram tão urgentes, quando o $ da UE dava margem de manobra. Reformas que já o Cavaco deveria ter começado mas ainda era cedo se pensarmos de onde vínhamos. Reformas que o Guterres “sondagens” não fez. Reformas que o Durão “vou mas é para a UE” não fez. Reformas que o governo da dupla Santana-Portas não fez, nem poderia fazer pois era um governo me minoria e me dupla, condenado à partida. Que reformas? Ora, ele não pode mudar o país todo, só pode mudar o Estado e o que dele depende. E já não é pouco. Assim, está a tentar controlar as finanças (o que não seria se a UE não nos impuse-se limites!) e com elas justificando os cortes nos benificios trabalhistas dos diversos serviços da função pública, como por exemplo no sector da educação! Eu até tenho mãe e sogra no sistema nacional de educação. Elas estão à beira de um ataque de nervos e por elas tenho pena, e compreendo que depois de mais de 30 anos de trabalho num sistema de autonomia, facilidades e regalias não é fácil perder privilégios. Mas acho que, em geral, as mudanças estão MUITO bem! Ao fim ao cabo estão a pedir ás escolas e aos professores um pouco mais de rigor e profissionalismo, algo mais próximo ao que se faz no sector privado, e acho muito bem. O ensino não vai melhorar. Como se sabe em Portugal o sector privado da educação ainda não é melhor que o público. Mas também não é por causa destas mudanças que vai piorar (está a piorar porque os “miudos” não se enquadram nas escolas, pura e simplesmente). E pelo menos acaba-se com a atitude de desperdício e impunidade que reinava neste e em outros sectores do Estado. Até havia bons professores e boas escolas. Mas também havia muitos muito maus. E os bons não eram reconhecidos e recompensados, e os maus não eram castigados e afastados. Pelo menos o Estado já está poupar dinheiro, o que já não é pouco. Tendo em consideração que a maioria dos alunos hoje em dia faz tudo o que é possivel para desaproveitar ao máximo o sistema nacional de educação (que como em todos os países está a ter dificuldade em adapatar-se à geração da Tv e internet), creio que evitar desbaratar dinheiro nele é um bom começo. Gostava muito de ver o Estado central a impor um forte rigor financeiros nos municípios portugueses, porque aí também há muita corrupção, desperdício e impunidade.

Assim, o governo, que de “esquerda” só tem apelido, tem uma aprovação nas sondagens relativamente alta. Porque a maioria compreendem que se está me crise, que é preciso fazer alguma coisa, que é preciso estabilidade e que afinal é preciso acabar com o desperdício e com “mamanço”. Claro que todos reclamam quanto o “rigor” chega ao seu sector, mas aplaudem e aprovam o que se faz nas outras areas. Pelo menos em casa, porque no café não se deve correr o risco de apoiar alguma coisa que afecta a um amigo, familiar ou colega, pelo que o melhor é dizer mal de tudo! Dizer mal cai sempre bem. Mas como o Governo PS está a governar relativamente bem, como governaria o PSD se tivesse lá com uma boa equipa e maioria absoluta, então não se critica o que se faz e sim quem e como se faz. É um clássico. Como o PSD (até o PP e o PCP) está 99% de acordo com a politica económica do governo então critica-se o “despotismo” e arrogância do PM. Supostamente há falta de dialogo! E fala-se até em pseudo falta de democracia! É só rir. Mas o que queriam? Que o PM governa-se ainda menos, não fize-se nada e pedi-se opinião, autorização e sondagens para tudo? Outro Guterres? Já ao Cavaco acusavam do mesmo! Lembro-me de dizerem que a direita tinha voltado ao poder, controlava a informação, etc. Agora dizem que é o Sócrates que manipula a comunicação social, e que esta é maioritariamente de esquerda! Mas a SIC e o expresso do Pinto Balsemão são empresas de “esquerda”? E a TVI, e o DN/JN, e o Público? E a revista Atlântico e o Independente e uns quantos mais, também são de esquerda? E os blogs da internet também são controlados pelo PM e pela “esquerda”, a famosa mão invisível que controla o mercado? ! Haja queixas, bodes expiatórios e teorias da conspiração!

Enfim, eu creio que
não está tudo tão mal como se diz e as coisas não vão mudar substancialmente, nem para melhor nem para pior. O governo está apertado, e mesmo que quisesse não poderia fazer muito melhor. A classe média está e vai estar cada vez mais apertada e nem por isso vai deixar de ser Estado-dependente para passar a ser empresário-empreendedora, não de um momento para o outro. Os empresários não vão surgir do nada de repente com novas atitudes fulgurantes, corajosas e empreendedoras. Por isso vai tudo ficar mais ou menos como está, “à rasca”. Vamos continuar a desconvergir ligeiramente com a Europa, vamos voltar a ser cada vez mais periféricos numa europa que gira mais a leste, e vamos continuar a sumir-nos tanto na globalização como num mundo que é cada vez mais de zero e uns, de bits e coisas que tais. E aí estão também as melhores oportunidade que só alguns poucos vão saber aproveitar.

Entretanto em Espanha...

Em Espanha o cenário é diferente. As contas da economia publica à 3 anos consecutivos
que dá superávit! O governo PSOE do ZP e algumas regiões administrativas espanholas até se dão ao luxo de dar dinheiro a quem tem filhos, subsídios de arrendamento jovem, fala-se em subsídios para as crianças que ficam nas “guarderias” e em passar o ordenado mínimo (que já é bastante superior ao português) para cerca de 1000 euros ao mês. As autoestradas (a maioria não pagas) e os TGV já percorrem quase todo o país e estão em vias de ir até todos os lados. Há dezenas de aeroportos internacionais. Os gays podem casar-se. Ainda não se vê tanto BMW per capita como em Portugal, mas o consumismo de um espanhol médio faria inveja a muitos jet set portugueses. A sensação nitida é de que nunca aqui se viveu tão bem.

A sensação de quem? A minha. Porque a dos espanhóis não é essa. Eles estão satisfeitos com os últimos governos que ajudaram a construir este cenário, seja ele o actual ZP do PSOE, ou o anterior Aznar do PP? A esmagadora maioria não. Estão satisfeitos com as suas famílias, amigos, trabalhos, patrões, com eles mesmo? São felizes? Não. Como se sabe o materialismo é como o hedonismo: nunca se satisfaz e ainda deixa grandes vazios. As neuroses individuais, familiares e sociais dos espanhóis devem ser das mais altas do mundo, não fossem eles tipicos latinos de sangue quente com tendência para o exagero em tudo! Como não se pode falar em crise, de há uns anos a esta parte passou a falar-se na...crise que vem aí! Antes o Governo ajudava pouco (apesar de a segurança social aqui ser melhor que a portuguesa) e por isso criticava-se. Agora critica-se pelos subsídios que dá! “É uma vergonha” . Segundo a “direita”, o PP e os sectores da igreja (que aqui não é um poder espiritual paralelo e sim alinhado) o Governo PSOE está nas mãos dos terroristas e e dos maçons republicanos ateístas que vão acabar por destruir a democracia, a Espanha e os valores cristãos sagrados! Segundo grande parte da “esquerda” o PP e a igreja já são pouco mais que uma sucursal da Opus dei.
A menos de um ano de eleições gerais o clima político e social é crispadissímo se comparado com o português! Parece que há duas seitas, com os seus jornais, rádios e televisões e com os seus partidos. Os espanhóis queixam-se de tudo! Eu só me rio!

Entretanto, algo perdido, anda o Porto! Salvo seja o FCP, pelo menos enquanto o Pinto lá governar. Valha-lhes o FCP, porque em quase tudo o resto o Porto está de rastos! Ainda me lembro de se dizer que no norte se trabalhava e em Lisboa se gastava. Já não é bem assim. Não é que se trabalhe muito mais em Lisboa. É que agora se trabalha muito menos no Porto e arredores. O calçado, o têxtil e os móveis que eram o sustento de milhares de famílias estão à beira da morte. O pequeno comércio tradicional foi quase absolutamente substituído pelos chineses, pelo comércio de hipermercado e de
shopping, concentrado em muito menos franchisings, alguns dos quais estrangeiros. E isso significa muitos milhares de famílias mais pobres e em dificuldades. Isso significa menos consumo para todas os outros negócios de PMEs. As maiores empresas que não faliram, sejam bancos ou Sonaes já não têm sede no Porto. Aliás, algumas já nem têm sede em Portugal. Isso significa que os recursos humanos estão na capital e para candidatar-se a um emprego há que ir a Lisboa. Não só ir a, quase sempre envolve ir para. Imigração. E até emigração para Madrid, ou a Barcelona, Londres, ou Amesterdão! Há novas vagas de emigração. De todos os tipos, desde pedreiros a milhares de licenciados. E muitos são do norte. Não acho que Portugal estejam tão mau como se costuma dizer. Mas o norte está! Acredito que como ali nunca se dependeu tanto do Estado também vai ser mais facil recuperar, através de iniciativas privadas que aproveitem melhor a mão-de-obra disponível. E barata diga-se. Espero estar certo. Gosto das gentes do norte. Força norte. Força Porto. Muita força para os amigos e colegas do Porto.

Portugal está no meu coração. Não por orgulho nacionalista que simplesmente não tenho. Pura e simplesmente porque nasci e cresci aí. Aí estão
as gentes que mais gosto e me ensinaram o que é saudade. E sinto-a.

13 comments:

Zé da Burra o Alentejano said...

Qual centro, qual quê? o aeroporto central e principal de península Ibérica é e será sempre o de Barajas (Madrid). Qualquer aeroporto português, será sempre um aeroporto numa ponta da península, mas se o novo aeroporto de Lisboa for construído em Alcochete, a cerca de 200 Km da fronteira, tem potencialidades de captar uma parte dos passageiros na raia espanhola até Mérida, para rotas que possa estar disponíveis em Alcochete. É que Barajas fica a mais de 300 Km da fronteira portuguesa.

Será que a Ota tem essa capacidade?

António Matos said...

Mas a OTA não está a 20 minutos de Alcochete?

Sinceramente se tanta discussão fosse por isso parece-me ainda mais ridiculo.

Eu pessoalmente prefiro na OTA por ser mais perto de Alcobaça, Leiria, Torres Vedras, Caldas da Rainha, Coimbra, etc, ou seja, da minha zona, e da zona de grande parte dos portuguesese uma das zonas mais turistica sde POrtugal deposi do Algarve. Pareceme qu eficava mais central. Mas por vinte minutos por mim não me chateia muito ir a Alcochete. Agora, espero que se escolhem Alcochete tenham outros bons motivos. A mim dá-me igual, façam-no, e ao TGV.

Pedro Miguel de Moura said...

Mas ris-te de quê? Para mostrar alguma pseudo-superioridade?

Essa crispação, preocupação constante com o futuro são apanágio das sociedades economicamente mais desenvolvidas.

Portugal não cresce porque o povinho não se importa, ainda está muito habituado a ser levado.

O conflito e crítica social (até certa medida - claro que não como no Ruanda ou no Darfur!) é directamente proporcional ao desenvolvimento económico.

António Matos said...

Caro “zé da burra do alentejo”,

Parece que Alcochete sempre é melhor e vai ser ali mesmo. Parece! Espero que não percam muito mais tempo com mais estudos, com as aves, com a comissão européia, com outro governo que venha... Façam-no!

António Matos said...

Amigo Pedro,

A rir-me, certamente não por superioridade, pois considero-me português e sou pobre, e não tenho nenhuma satisfação ou orgulho por Portugal estar pior que Espanha ou por ser não ter mais dinheiro! Antes pelo contrário.

Rir-me porque é certamente melhor que chorar, queixar-me neuroticamente de tudo, cultivar a insatisfação e a própria miséria existencial, como aliás os espanhóis são excelentes em fazer. Rir-me porque quando eles me veem contar as suas misérias, depressões e doenças neuróticas e esquizófrénicas eu penso para mim que quem não tem problemas tem de os arranjar. Rir-me porque cada vez mais vejo que riqueza material e desenvolvimento social não tem nada a ver com ser feliz.

E mais um facto: isto dos espanhóis não é preocupação com o futuro! A maioria dos espanhóis, principalmente estes que se queixam e criticam tudo, vivem para o consumo desenfreado, para a última moda, para o próximo fim de semana, para o próximo snif e para a próxima f***, já quase não fazem poupanças, etc. Isto não é preocupação com o futuro e sim insatisfação com o presente!

António Matos said...

Amigo Pedro e as suas teorias criticas à pressão...

Talvez esteja a ver mal as coisas, mas não concordo nada com essa tua teoria de que "a critica e conflito sociais são directamente proporcionais oa desenvolvimento economico”

Primeiro, esta crispação política sectária que se vive em Espanha actualmente nada tem a ver com economia e finanças, ponto no qual os vários governos têm sido seguidistas uns dos outros. O PP aprofundou os pontos de governação que já vinham do PSOE de Filipe G. e o actual PSOE continua pura e simplesmente o que vinha do PP de Aznar. Nesse aspecto não há crispação, e sim seguidismo, consenso e estabilidade. Aliás, os governos democráticos em Espanha têm sido mais longos, mais fortes, mais estávéis que em Portugal, e isso é um dos motivos que conjuram para a sua boa governação.
Esta crispação tem mais a ver com valores tradicionais no que toca casamento (de gays), igrejas (a Opus dei é realmente MUITO influente), educação (a educação religiosa já não faz parte do curriculum base), os diferentes estatutos e pesos políticos das várias regiões espanholas, e outras coisas do gênero, e, obviamente, o facto de estar tudo tão bem a nível economico-financeiro, que só resta discordar crispadamente de coisas laterais e acessórias. Assim criaram-se sectraismos políticos e sociais em volta das negociações de paz quanto à questão do terrorismo nacionalista basco (ETA), que avivam os bandos sectarios instalados na política, comunicação social, etc.... e são essas e outras coisas do gênero (e não a economia que está a ser o factor de união e estabilidade, apesar de se dizer sempre mal de tudo) que levaram a um clima profundamente sectarista e crispado onde algumas pessoas até falam da possibilidade de uma nova guerra civil! E isto para mim é sintomático da esquizofrenia intrínseca do ser humano, e nomeadamente dos espanhóis.

Ou seja, esta bonança da economia e finanças espanhola tem vários factores que se conjugam, e um deles muito importante é precisamente a estabilidade política e económica.

Aliás, se observamos o último século vemos que os maiores crescimentos económicos de Portugal e Espanha foram na década de sessenta, quando eram ditaduras uniformistas e “pacificadoras” bastante repressivas, com censura, etc. Já quando o clima de critica e crispação política e social esteve no auge (durante as primeiras républicas) houve grande instabilidade e pobreza, e em Espanha até houve uma guerra fratricida absolutamente asquerosa.

O mesmo se poderia observar em Angola e Moçambique, por exemplo, Quando havia critica e crispação, quando havia bandos sectaristas e suas guerras, eram a miséria mais que total. Um dos bandos ganhou, a política estabilizou-se e esses países estão a começar a sair do inferno.

O mesmo se pode ver por exemplo na Argentina que havia quem considera-se a “Europa da américa do sul”. Quando a crispação política e social se foi elevando a economia entrou pouco a pouco em colapso. Caiu numa recessão profunda, de onde ainda está a tentar sair.

O mesmo se diga da Rússia. Quando caiu a ditadura comunista e houve um exacerbar das criticas e crispação política e social todo o sistema entrou em rutura profunda. Até que o Putin assumiu um papel mais dominante e autocrático, pôs mais ordem naquilo, deu estabilidade ao sistema e começaram (com a ajuda do $ do petróleo que com a ordem puderam começar a aproveitar) a crescer ao dobro da velocidade da economia européia.

Quais são os casos de desenvolvimento com instabilidade, critica e crispação? A Índia e o Brasil. Mas é uma critica e crispação aparente, mais folclórica. Por detrás de todo aquele colorido e ruído há na realidade Estados fracos que permitem há economia crescer com base num liberalismo constante, estável, que aproveita os abundantes recursos naturais e a mão de obra barata para crescer.

A Alemanha, França e Inglaterra têm os seus maiores crescimentos econômicos associados a períodos de franca estabilidade política e social. Governo de “esquerda” de Blair, grande estabilidade, o maior crescimento econômico do pós guerra. Já a Itália, onde por natureza há muita critica e crispação política e social, está em decadência continua.

E o Japão e Coreia do sul, profundamente estáveis desde a segunda guerra mundial e duas das economias e sociedades mais desenvolvidas no mundo.

E a Suécia, Noruega, Finlândia? E o Canadá e Austrália? Paradigmas de estabilidade e de desenvolvimento econômico e social.

E a China?! A próxima grande hiper potência mundial? Uma ditadura repressora, que mantém um forte controlo social com sentido uniformista, com censura, partido único, etc. E a China é o país que mais cresce no mundo e vai mandar nisto tudo em breve.

Lá se vai a teoria da critica e crispação social como factor de desenvolvimento.

O meio termo, com estabilidade e equilíbrio é que são a chave, parece-me.


Uma coisa concordo contigo: parte do problema de Portugal é o facto dos portugueses serem conformistas. Não só e nem tanto com o Estado, do qual estão habituados a receber mais do que a dar, a reclamar mais do que a ajudar. O problema é o conformismo consigo mesmos. Faz falta mais iniciativa privada, mais assumir riscos, investimentos, apostar na criatividade e nas próprias idéias. Fazem falta muitas mais pequenas, médias e grandes empresas. E muitos mais pequenos, médios e grandes empresários. Não é fácil, sei por experiência própria, por isso não critico e não levo a mal. Mas pelo menos tento.

Pedro Miguel de Moura said...

Amigo Tó,
Li de alto o teu comentário. Fico feliz por dares tanta importância ao meu comentário que merecesse uma resposta de alto nível (por certo queimaste uns neurónios ao fazê-lo :)
Infelizmente não me encontro nos meus tempos áureos da blogosfera e não me apetece esgrimir argumentos. Só queria dizer que até certa medida, como é óbvio, a crítica social é benéfica. E com isto quero dizer importar-se com as eleições, procurar estar informado, criticar e apresentar alternativas às decisões políticas e/ou económicas do governo ou empresas, participar em movimentos de cidadania. E acima de tudo conseguir integrar a crítica no funcionamento civilizado. Num certo país eu poderia chamar-te um fanfarrão com a mania das grandezas para disfarçar a sua própria pequenez e isso ser aceite como parte da existência normal em democracia e noutro país dizer-te o mesmo e tu logo pensares em dar-me um tiro.
Mas atingiste quando dizes que os tugas se queixam pouco; falta dizer que quando se queixam não o sabem fazer, exageram, querem tudo ao mesmo tempo. Mas principalmente não apresentam soluções e ainda pior que isso: não exigem que rolem cabeças! A culpa morre só. Tenho dito várias vezes, em Portugal falta accountability! E se achas que os espanhóis fazem bastante disso, então acho que estás a ser um pouco ignorante ao criticá-los. É uma das razões porque se estão a desenvolver...

Quanto à esquizofrenia intrínseca do ser humano...lol não me apetece...mas parece-me que no mínimo esta definição se encontra em conflito com a das próprias palavras com que se define.

Pedro Miguel de Moura said...

Eu a mim parece-me que esta conversa toda vem da muito actual moda de apregoar felicidade, como se fosse "superior" não se importar com o desenvolvimento económico ou material e concentrar-se na parte "espiritual" ou transcendente da vida.
Esquecendo-se da base, ao estilo da pirâmide de Maslow, que lhes permite essas afirmações grandiosas!
É como ir à Índia, por exemplo, em busca de uma suposta iluminação, rodeado de uma pobreza extrema cujo único sonho é um dia poder permitir-se a futilidade e extravagância de ir à Índia procurar por uma luz no topo da cabeça...

António Matos said...

Pedro,

Isto não é uma competição, é uma mera toca de experiências e ideias entre amigos. Ainda assim eu dou-lhe importância.Poucas coisas na minha Vida são mais importantes do que os meus amigos e família e leio sempre tudo com atenção por educação, cortesia e com prazer, especialmente se vou comentar.

Até para no meu comentário não demonstrar que não li nada e entendi tudo mal...

Neste caso não foi mal, foi precisamente ao contrário!

Eu não apregoou felicidades, a qual nem sequer acredito existir, nem transcendências, e decerto não me considero superior ou inferior a ninguém (e está lá escrito bem explicito), e 90% dos portugueses e espanhóis estão menos "importar-se com as eleições, procurar estar informado, criticar e apresentar alternativas às decisões políticas e/ou económicas do governo ou empresas, participar em movimentos de cidadania." do que eu. A esmagadora maioria nem sequer lê ou ouve os jornais! Mas queixam-se MUITO mais. E o ponto da questão é precisamente esse...

Enfim, não te quero fazer perder mais do teu valiosíssimo tempo com questões menores num blog de um fanfarrão com a mania das grandezas...

Pedro Miguel de Moura said...

Lol, tens uma sensibilidade maravilhosa com a qual eu nunca vou saber lidar...é um dos teus charmes! ;)
E eu também só queria dizer isto: é bom criticar! É saudável, até certo ponto... Noto essa característica nas sociedades mais desenvolvidas. O cidadão "médio" desses países está mais informado que o tuga "médio".
Mesmo os "low-lifes" vivem explorando as possibilidades, as falhas dos sistemas, para viverem À margem dele, e isso envolve trabalho, pesquisa; não ao calhas, sem preocupação.
Mas é só uma opinião e uma generalização.
Mas tens razão, se não tinha tempo para blogar não devia ter começado.

Um abraço.

António Matos said...

Realmente eu também concordo que “é bom criticar! É saudável, até certo ponto...”

Eu faço, ouço, sujeito-me e até aprecio uma boa critica. Nitidamente dou mais valor às criticas que me fazem (incluindo as tuas, e mesmo as que fazes depois de “ler por alto”) do que tu, que fazes sempre apologias à critica mas nçao digeres muito bem as que te fazem a ti, tratando-as com descaso e pseudo superioridade, como aconteceu com a aquela que me dei ao trabalho de fazer neste post, com respeito e boa argumentação, a uma tese que apresentas-te.

O próprio post é uma observação crítica. É uma análise informada, é o plasmar de uma opinião interessada. Eu participo em discussões, ouço e leio diversas fontes e pontos de vistas (muitos antagônicos ao meu) e procuro criticar com argumentos, propondo medidas e alternativas com humildade, se por acaso tenho alguma a acrescentar.

E as criticas maiores faço-as a mim mesmo, como é óbvio.

Isto apesar de procurar cultivar a ambição e satisfação em relação ao que sou e tenho. E estou mais ou menos satisfeito com o que sou e tenho, embora procure ajustar sempre as coisas para melhor, para mim e se possível para os que me rodeiam. E cultivar a satisfação não é fácil.

É a actitude oposta à que observo na maioria dos espanhóis e portugueses que apesar de viverem no apogeu das suas sociedades em termos de bem estar economico e social, e apesar não estarem nem querem estar bem informados (poucos lêem e ouvem jornais e outras fontes, a maioria prefere o Big Brother, o Alonso e o futebol), não estão realmente preocupados com o futuro (senão investiam e poupavam, ao invés de gastar o que não têm em drogas, carros vistosos roupas, e outras coisas que não precisam), não são minimamente críticos construtivos e não propõem alternativas (somente reagem histericamente, na maioria das vezes com ataques pessoais e não com criticas bem estruturadas às políticas), NÃO SE LEVANTAM E FAZEM MELHOR, e meramente exibem insatisfação e queixas generalizadas com o que são e têm.

NÃO SÃO CRITÍCAS, são espasmos histéricos e neuróticos de insatisfação total. É uma forma de catarse ao stress e à insatisfação consigo mesmo. É o cultivo à insatisfação com o governos, com o patrão, com o namorado, com os pais... Eles NÃO CRITICAM. Lamentam-se, maldizem, QUEIXAM-SE. De tudo. Talvez isso seja normal, estejam satisfeitos, sejam felizes e eu é que seja neurótico e insatisfeito com o mundo tal como ele é, e o mundo é assim! Mas não é isso que eu percebo.

Eu não me rio por algum tipo de superioridade ou inferioridade. Rio-me da natureza humana, da insatisfação genética. Rio-me, também, de mim mesmo. Não me rio deles, rio-me COM eles.

António Matos said...

P.S. Procuro ser educado e cortês, principalmente com os que mais prezo. Não sei se tenho uma “sensibilidade” especial (?!), mas creio que isso era um elogio... Obrigado.:)

Pedro Miguel de Moura said...

Lol...
Olha a tua posição faz-me lembrar uma inscrição na pedra, encontrada em escavações de uma civilização antiga (Suméria?), e que dizia mais ou menos isto:
- "A nossa sociedade está perdida! As cidades são grandes demais, poluídas e barulhentas, não há respeito pelo bem comum e pela vida saudável do campo e os jovens não têm respeito pelos mais velhos, preferem vadiar em bando, sem rumo a aprender um ofício e contribuir."

Isto sem dúvida antes da industrialização, do automóvel, das megalópolis ou da globalização. Ring a bell?