31.8.08

Meu querido Portugal - a volta...

Meu querido Portugal-a volta do emigra!

Pois é, estou de volta! Estou de volta ao meu querido Portugal. Não sei definir Portugal, nem o que é ser português. Não sou especialmente orgulhoso de Portugal, nem de ser português (nem de quase nada). Nem triste ou envergonhado. É só a minha terra, a terrinha, as terrinhas, onde nasci e cresci. E gosto. Gosto mais que da Espanha onde vivi os últimos 3 anos, e da qual também gosto muito. Mas, como diz um amigo meu, há duas coisas que um Homem nunca renega: os pais e a terra. (mais tantrico que isso é difícil!) E cá estou de volta, numa mudança que se motivou por razoes pessoais, familiares e profissionais. Cá estou para um ano de transição, algo sabático, onde espero aproveitar para fazer umas boas viagens e experimentar outras formas de viver, de ser. Vamos ver.

Nos primeiros dias foi a mudança. Aproveitei para finalmente reunir minha biblioteca (umas das poucas coisas há qual sou “agarrado”), e montar o meu próprio escritório privado. E que prazer isso me trás! Depois começaram as férias, a praia, o surf, o rever dos amigos, ler uns livros pendentes e não pendentes, umas pequenas escapadelas por um e outro cantinho especial deste meu querido Portugal. E tem sabido tão bem! Até já passou aquela sensação inicial de que só estava de férias, aquelas férias curtitas, de duas semanas que não davam para nada, as duas semanas de férias de emigrante que a qualquer oportunidade volta à terrinha. Até surgiu uma practica de yôga estável e disciplinada, muito autodisciplinada e autosuficiente, bastante concentrada, consciente, de prazer, como poucas vezes vivênciei antes. Ai tão bom! Até férias de internet tirei...

O estado da nação!

O estado da nação é mais ou menos o mesmo de sempre. A economia não está famosa, o pessoal está um pouco mais apertado, queixa-se de tudo como sempre, mas a cultura popular, individual e colectiva, o sistema, está mais ou menos na mesma. Cada vez mais cultos, ou pelo menos mais educados pelas universidades, mas ainda essencialmente inertes, sem iniciativa e empreendorismo. E o profissionalismo vai aumentando, mas pouco a pouco, e sempre a remar contra a maré do laxismo e improvisação, que é uma espécie da nossa versão negativa do laissez faire laissez passe.

Cada vez estamos mais americanizados. Mais privatizados, mais vendidos, mais nas mãos de algumas grandes empresas, bancos, seguradoras, construtoras, etc., a maioria internacionalizadas. Até os dois últimos serviços públicos (dignos desse nome) que restam estão em vias de desaparecer. O SNS(aúde), e SNE(ducaçao) estão aos poucos a tornar-se menores, secundários, marginais até. O Estado cada vez mais é mera burocracia, onde se fazem leis conforme aos lobbies das grandes empresas (e não do voto popular), e onde se cobram taxas e impostos e se arca com as despesas de fiscalização e segurança. Até o sistema judicial (que continua a exercer-se em estado dramático) querem privatizar cada vez mais. Ora, eu até sou a favor de maior profissionalismo e rigor na gestão, mas a privatização não é a resposta para tudo! A França e Alemanha (e outros) são muito mais profissionais, rigorosos e produtivos que os portugueses e o sistema deles não é mais privado que o nosso, antes até ao contrário. O problema transcende o Estado e os seus vícios (e virtudes , tantas vezes esquecidas) típicos, é uma questão ampla, de cultura, de passados de décadas e séculos. E isso não muda de um dia para o outro. E também a americanização não resolve tudo. Aliás, estamos num bom momento para ver que o próprio sistema americano tem problemas graves, com os quais se enfrenta neste momento. E se mesmo assim funciona relativamente bem, é preciso recordar que a cultura de base, de gene, é outra. E que os privados até nos EUA colaboram com um poder publico muito activo e dinâmico, que impulsiona o próprio sistema privado seja fazendo a maior rede rodoviária do mundo, por exemplo, seja fazendo a guerra, que compra tecnologia e serviços aos privados, e que ao mesmo tempo lhes assegura mercados e acesso prioritário às matérias primas (muitas vezes através de guerras imperiais). Esse ciclo não se passa em Portugal. Além disso, nos EUA, o principio da propriedade privada convive directamente acoplado ao principio da iniciativa privada, ao empreendorismo, à responsabilidade individual, e à concorrência. Nada disso existe em Portugal. Não existe, desde logo, como cultura de base. Veja-se o caso dos combustíveis. Privatizou-se tudo. As empresas a actuar no mercado agem em cartel. Os preços do crude sobe, e imediatamente o combustível nas bombas sobe, mas se o crude desce, não desce imediatamente, nem em proporção, nas bombas. O combustível em Portugal é ainda mais caro que em Espanha. As empresas petrolíferas estão mais ricas que nunca. A Galp (que já nem é dos portugueses) da mais milhões de lucro que nunca. Que vale tudo isso aos portugueses?! O mesmo se passa na electricidade, com a EDP, e nesse caso nem sequer há concorrência! A própria “entidade reguladora” do sector, que supostamente deveria servir para defender os interesses do consumidor, recomendou que os actuais consumidores pagassem indiscriminadamente as dividas deixadas pelos que não pagaram!?! A EDP dá-se ao luxo de atribuir um numero de TV teóricos a cada casa, em função do tamanho, e cobrar por cada uma delas, mesmo que o cidadão não tenha nenhuma! E as auto-estradas, essas vias de comunicação essenciais? Pago mais para ir de Lisboa ao Porto do que para ir da Coruña a Barcelona! Vendemos as nossas estradas (e pontes) a construtoras. Veja-se, não vendemos a construção, e sim as próprias estradas! E agora estamos a pagá-las muito para além do seu custo de construção!

Tenho receio que estejamos para ficar apenas com o pior do sistema americanizado de economia mundial. Um sistema que demonstra ter problemas graves em si mesmo...

A classe média, depois de ter sido criada e engordada essencialmente pelo Estado e pelos subsídios, está agora a encolher rapidamente, à medida que o Estado se retira de cena e que os subsídios acabam. A maioria da população, entretanto com um nível de educação académica relativamente alto, tem de se adequar ao empobrecimento que avança. Há poucos empregos, porque há poucas empresas, porque há poucos empreendedores. E contra mim falo. Eu fui para o estrangeiro abrir a minha própria empresa, criei o meu próprio posto de trabalho. Não o fiz me Portugal, não sei se o faria, não sei se o farei... Como eu, alguns dos amigos menos acomodados, mais empreendedores e corajosos estão a emigrar. Para a Europa mais do norte, para os EUA, para a Austrália. Até para o Brasil! Volta a haver emigração mão-de-obra desqualificada e barata que emigra para fazer os trabalhos sujos e mal pagos que os europeus mais ricos desprezam, mas agora também emigra muita gente muito qualificada que pura e simplesmente se encontra bloqueada em Portugal. Porque a família, “os contactos”, as cunhas, o Estado, tradicionais formas de contornar a falta de competência e valentia, já não dão para a maioria.

Não sei se tudo isto me chateia. Custa-me ver tanta a gente a ir, agora que estou de volta. Mas é assim e pronto. Eu nao tenho soluçao. Creio que vamos ser assim um tempo mais, à rasca, até que eventualmente assumamos que só temos e valemos o que fazemos. Nem o Estado, nem os pais, nem os contactos, nem a UE, nem os EUA, nem nenhum “outro” nos poderá salvar de nós mesmos.

3 comments:

Anonymous said...

Olá! Estás bem? Vi-te menos vezes este verão do que quando vinhas só 2 semanas de férias. Vê se apareces. Beijinhos. Daniela

Joana said...

Adorei estas férias!Nazaré, Vila, e Londres!
Perfeito...
beijo

Emilio Fernandez said...

Vamos que estas como Dios en casa, pero no puedes parar en ella.
YA Ya la historia de siempre.
Por cierto me voy a quedar vizco intentando leer portugues.

Salud, felicidad y mucho sexo toudos.