5.6.08

Melancolia: um direito universal e fundamental


Uma das coisas que observo que mais pena me dá no sistema actual que impera no mundo dito desenvolvido é a incapacidade das pessoas para lidar com a tristeza.

A tristeza, a depressão, a infelicidade, o sofrimento, são tudo palavras quase malditas. Todos querem escapar-lhe, todos querem o seu contrário, e muitos preferem fazer que não são infelizes, que não têm os seus momentos de tristeza, solidão e melancolia. E se a têm e não conseguem escondê-la e ignorá-la, combatem-na ferozmente. Para mim é amputação. É castração pura.

Vê-se por aí gente a alardera de quase tudo, menos gente a admitir, com naturalidade e sem grandes dramatismos, a sua tristeza, e até um certo agrado para com a melancolia. Vejo gente a criticar tudo e todos. A culpar o mundo e o “sistema” de todo tipo de males no mundo. Vejo gente e livros e profissionais dos mais diversos a vender a liberdade e a felicidade. E a liberdade é em parte a liberdade em relação à tristeza, é uma fuga à melancolia, é uma libertação de grande parte das suas vidas, a parte infeliz. Vejo gente a tentar vender a si mesmos e aos outros uma continua imagem de felicidade, de exuberância, de satisfação, de êxtase. E no caso, provável, de não a ter realmente, ao menos convencem-se com projectos permanentes para alcançá-la. Sair à noite, foder, tomar drogas, comer, fazer surf, fazer amor, apaixonar-se, saltar de paraquedas, ir de férias a paraisos longinquos e caros, comprar e consumir até à exaustao, rir com os amigos acerca de qualquer coisa, empreender um caminho espiritual. Tudo vale para encontrar a felicidade e fugir à tristeza, à solidão, à melancolia. Ninguém parece aceitá-la como algo normal, natural. Diria mais: agradável.


Outro dia falava com uma amiga que estava num desses dias e inconformada. Disse-lhe: eu até gosto de estar assim. E ela, que não é nenhuma tonta, antes pelo contrário, não deixou de ter a mesma reação do costume: a sério?! E por ela ser especialmente inteligente até lhe dou confiança suficiente para admitir que estou e gosto de estar em tal estado. A maioria da gente não se pode dizer tal coisa. Fogem. Fogem com medo que os contagie. Dá-lhes medo. É como se lhes disséssemos: olha para a tua própria infelicidade, vazio, tristeza e solidão latente, essa que te esforças tanto por enterrar debaixo de toda essa actividade frenética e imagem esteriotipada de felicidade. Não compartilhe com os seus pais, a sua namorada ou os seus amigos que está triste. É como um vírus supostamente mortal o qual todos temem. Ainda são capazes de o aconselhar um psicólogo, ou melhor ainda, um psiquiatra que erradica rapidamente esse estado terminal e profundamente doente chamado tristeza. Aliás, agora já ninguém é triste, agora somos “depressivos”, e nessa condição já podemos tomar prozac e outras drogas legais. E mais: podemos, finalmente e sem remorsos, entregar-nos a ter pena de nós mesmos e ao prazer de não fazer nada, esses pequenos prazeres tão essenciais que hoje toda a cultura se esforça tanto por nos retirar! Querem tirar-nos o direito fundamental a estar tristes!

Hoje a idéia de ser feliz tornou-se quase uma ditadura. Deixou de ser uma simples idéia para passar a ser um direito. E este direito é quase um dever. Queremos obrigar-nos a ser felizes! Nem que seja à força!

Se diz que quer uma vida tranqüila, calma, e não quer nada da Vida, só estar quieto, pode ter a certeza que a maioria das pessoas vê nisso sintomas de depressão aguda. Aconselham-no a sair mais, a ir viver para uma grande cidade, mexer-se, animar-se a algum projecto, a fazer curso de motivação ou de outra coisa qualquer. É preciso querer mais, ter planos, projectos, ambição! Para sernormai se aceites como tal temos de quer ter “êxito”, ou pelo menos mostrar que estamos a procurá-lo, dar a idéia que é feliz ou que pelo menos está tentar ser feliz. Seja lá o que o êxito e a felicidade forem! Senão é um fracassado, ou seja, um doente, e dá medo. Veja-se, não dá pena, dá medo. Medo porque reflecte algo muito presente que está em todos, mas que quase ninguém quer ver, muito menos aceitar: o nada!

Pois bem, já aqui disse várias vezes neste meu diário aberto: às vezes estou triste, algo depressivo, com medo. E isso não me assusta. Não muito. E até gosto! Sim gosto. Não é que procure e cultive. Nao pretendo que me aturem, nem sequer quero descarregar a tristeza sobre ninguém. Só nao fiquem aflitos e perturbados se algumas vezes estou assim. Ou pelo menos nao me perturbem a mim no meu bem estar melancolico. Não fujo a esses estados. Admito-os, aceito-os como normais e até desfruto deles. Em toda a sua plenitude.

Gosto de estar quieto, calado, em silêncio, sozinho e sem fazer nada. Gosto de me deixar afundar em sonhos mais ou menos acordado, com a sensação de que estou a desperdiçar o meu tempo vital e não me apetece fazer nada. Gosto de meditar, de contemplar, aceitar tudo sem participar em nada. Somente observar e registrar, como se não existisse.

Creio até mais: a melancolia, até uma certa tristeza é essencial para a criatividade. É essencial para as artes e para a filosofia. E para a filosofia eu sei que é muito mais interessante estar quieto e calado, algo entre o tranquilo e satisfeito e o triste melancólico, do que estar premanentemente em acção, permanentemente em fuga para a frente, a tentar escapar de parte essencial da nossa consciência. Essa parte chamada medo, morte, nada! A quietude da melacolia, e até a angustia da tristeza, sao a mae onde medra a beleza e o sublime.

Do nada vimos, para o nada vamos. E o nada está aí, sempre. É preciso aceitá-lo. E só assim poderemos ter também verdadeira alegria, satisfação e felicidade. E só assim poderemos criar, aceitar a criação como um todo, que está aí, em permanente renovação.

Se você é um dos que se deixou traumatizar por esta doença moderna chamada “medo ao medo”, ou “medo à tristeza”, digo-lhe eu o seguinte: anime-se, a tristeza também é bela. A tristeza está aí, é sua amiga, a sua amiga mais intima. Aceite-a. Desfrute-a. Não a tente ignorar pois ela não vai desaparecer. Não a tente combater porque ela voltará ainda mais forte. Aproveite-a. Ela pode ser a sua mais leal e verdadeira companheira neste caminho. Ignorá-la é ignorar-se. Aceitá-la é aceitar-se. E afinal de contas ela não é assim tão terrível. É apenas e só aquela suave e até agradável melancolia...

Não roube a si mesmo esse seu direito fundamental!

P.S. Escrevi isto num momento em que até nem estou nada melancólico...

6 comments:

Vero said...

Me gusta mucho tu manera de ver las cosas, y lo digo desde un punto de mi vida bastante raro, pero aunque todo es extraño no me engaño a mi misma, somos seres que necesitan tener altibajos.
Gracias, me gusto leer tu post!

Mario Bernardes said...

O ideal de vida de "quase" toda a humanidade é o "ser feliz e com saúde". Foi um modelo que se criou e que parece que tem de ser aplicado a todos.

Claro está que estar em plena harmonia junto da felicidade é sempre um estado em que nos sentimos melhor. Mas é como tudo... Se não temos o lado mau, como poderemos dar valor ao lado bom? Se não sentimos o gosto da tristeza, da melancolia, como vamos apreciar a felicidade?

Não seria monótona a vivência na felicidade eterna?

Estes momentos em que estamos em "baixo" também são necessários, pois também nos ensinam, nos enrijessem, nos dão por vezes uma perspectiva melhor da realidade.

Agora o principal ponto é, a grande maioria das pessoas fica infeliz por tudo e por nada, entram em depressões por problemas fúteis e deixam-se ir abaixo por detalhes sem qualquer valor... Aqui é que tem de haver algum trabalho, algumas interiorizações e reflexões.

Arthur K. said...

Mario Bernardes, tens certeza de que leste o que foi dito? Porque teu comentário é um tanto ambivalente. Me parece que concordas discordando ou discordas concordando. De qualquer forma, dizes que ser infeliz por nada é que o problema. Justamente o contrário do que Antônio fala.

Ao meu ver, ele fala de malancolia no mesmo sentido de Victor Hugo, como a felicidade de se estar triste. E o que difere melancolia de tristeza é precisamente a falta de motivo aparente da primeira. Um estado de espirito em que tudo perde o viço, nos levando à passividade e à contemplação. Não deve ser evitado nem combatido, mas desfrutado e perscrutado.

porto said...

ora finlmente, alguêm desperto, vivo! Alguêm com coragem para viver em liberdade interior. Gostei. Não sei o que diz Victor Hugo nem conheço os filosofos, mas parece-me a mim que o Antonio encontrou a Felicidde. Não aquela que sorri sempre feito idiota, mas aquela que conhece a profundidade e beleza de se ser natural, de aceitar a Vida como ela vem. Aquela que,quer estando tristes ou alegres, estamos bem mesmo quando não gostamos do que estamos a sentir.
Atimati

CoaBreca said...

Subscrevo o ultimo comentario.
Vivi anos em tristeza, que me foi querida e produtiva, mas ao mesmo tempo castradora. ainda renasce por vezes, mas ja tenho a naturalidade que me deixa coexistir com ela. Sim isso é a felicidade.

Anonymous said...

Cara seu texto tem personalidade, com toda essa profundidade onde se mistura o doce e o amargo, como já se pode dizer: A melancolia é a mistura do doce com o amargo, da capacidade de ver as coisas de uma forma muito mais profunda. Só porque é um estado de tristeza, não significa que não tem seus valores individuais.