24.4.08

O consumismo, o Porto, a crise, filosofias de Vida...

O Porto e a suposta crise

Os nossos pais viveram razoavelmente bem. Estavam longe de ser ricos, mas em geral foram tornando-se cada vez mais ricos. E quando tudo se expande, tudo é mais fácil.

Até há 30 anos Portugal era um país essencialmente atrasado, ainda muito rural. Era pobre. O nível de alfabetização era muito baixo e o de alcoolemia era alto. Muita gente vivia da hortinha que tinha atrás de casa, ou na casa do patrão. Alguns sobreviviam como operários de fábricas que na sua grande maioria tinham surgido nos anos 60, a quando a nossa primeira e minúscula revolução industrial. Os nossos pais nasceram ainda no tempo da “outra senhora”, quando o regime dizia que éramos “pobres mas dignos”, e estávamos “orgulhosamente sós”. O banco era debaixo do colchão. A maioria dos nossos pais não chegaram ás universidades e não se tornaram profissionais liberais, muito menos empresários. Mas chegaram lá muitos mais que os nossos avós. E muitos operários fabris, já depois do 25 de Abril, abriram as suas próprias fábricas, com as quais geraram rápidos e volumosos lucros, com os quais compraram Mercedes e casas de praia. E o regime altamente centralizado do Estado Novo preparou o caminho a um Estado burocratizado que pouco a pouco, e muito no pós 25 de Abril, criou muitos empregos estáveis e medianamente bem pagos na função pública, que inchou sem freio. Alguns dos nossos pais emigraram, ou foram à guerra colonial, mas a maioria safou-se, voltou, e Portugal esteve pelo menos uns 25 anos seguidos em crescimento económico sustentado, desde 1975 a 2000, e principalmente de 1986 a 2000, com os biliões e biliões que chegaram da UE com os quais nós devíamos ter preparado para o mercado comum da Europa e global. Bem, os nossos pais passaram dificuldades, queixavam-se, mas foi sempre a subir, cada vez melhor. Cada vez mais emprego, pensões, subsídios e serviços sociais (que se substituíram ao suporte familiar, que como instituição decaiu). E nós só vimos isso, o cada vez melhor, cada vez mais fácil, cada vez mais, mais, mais. Mais férias no estrangeiro, mais roupa, mais comer fora, mais carros, mais casas de praia, mais telemóveis, mais sair à noite para consumir drogas e conviver, mais, mais, mais e mais!

Pois, tudo vai mais ou menos bem, em festa mesmo, quando está a crescer, a subir.

Mas nós, a geração MTV, a geração “rasca” segundo alguns, porque já não temos ideais e interesses políticos e só queremos é “foder”, assumimos que ter lugar na universidade, seja numa publica ou privada, era um direito, algo óbvio, que os pais pagam. Acostumámos-nos a pensar que sairíamos de casa dos pais para a casa que os nossos pais nos dariam. Nós habituámos-nos a ter dinheiro para gastar desde cedo, desde os 5 ou 10 anos, que os pais e avós dão, gratuito, no Natal e aniversário, e nas visitas de fim de semana, e porque sim. A escola e o hospital é gratuito, o Estado, "o papão", tem o dever se assegurar (mesmo que nos escapemos aos impostos). Habituámos-nos a receber sem ter de lutar por isso, a ganhar sem suar. Sem responsabilidade. E talvez por isso adoptamos com tanto gosto a cultura do gastar fácil e rápido, sem receio de ficar sem, sem pensar em poupar. Habituamos-nos a uma cultura americana, de fast food. A consumir e deitar fora, comprar novo, acumular, comprar mais. O consumismo é a nossa filosofia de Vida. Consumir bens, serviços, sensações, “estados de consciência”, etc...

Mas a festa acaba. A festa tem conta. O consumo tem preço. A cobrança vem, mais tarde ou mais cedo, de palitó ou à bruta.

Bem, a Europa e o mundo globalizou-se, as empresas não se modernizaram ou reconverteram como deviam, as poucas novas que surgiram não chegam para empregar a todos, o dinheiro da EU diminuiu, a concorrência aumentou ainda mais, não só dentro da Europa mas sobretudo fora, contas do Estado foram obrigadas a ser levadas com mais rigor e o Estado não pôde continuar a empregar mais gente, nem sequer a pagar subsídios e pensões para tudo e todos.

Entramos em crise. Mas continuamos a consumir como uns loucos.

O país mudou-se para as cidades mas em muitos casos continuam com mentalidade rural e ainda há muita gente deslumbrada por um consumo fácil cujo crescimento parecia não ter fim. E trabalhar que é bom nem gostamos, nem o fazemos bem, nem há suficiente. E consumimos muito mais do que produzimos.

Até agora o desenvolvimento do país, e principalmente o consumo, foi financiado primeiro pelo dinheiro dos emigrantes, depois pelos subsídios vindos da UE (que nos comprou o mercado) e depois pelas poupanças dos avós, os ordenados dos nossos pais de classe média estável (o Estado) e entretanto também pelo crédito. O crédito fácil, aparentemente barato, subvencionado pelo Estado, mantido com juros baixos à força de políticas macro-económicas, o crédito diluído por 50 anos, misturando o crédito da casa, carros, computadores, LCD´s de 42”, férias, roupas, e outras coisas essenciais, tal como o 20º par de sapatos, ou a 10 carteira (que rosa choque para combinar com os sapatos do ultimo baptizado não tinha), e outros coisas essenciais sem as quais não se pode viver.

Os emigrantes já não mandam dinheiro. Agora são outros emigrantes que o mandam para fora. Os subsídios da UE vão diminuindo. As poupanças dos avós estão em vias de desaparecer ainda antes dos próprios. Os ordenados dos papás estão a encolher e com os créditos completamente no limite. E os créditos sobre créditos, para pagar os próprios créditos, são uma ilusão, que mais tarde ou mais cedo nos abeiram ao abismo. E o abismo está aí. Neste momento os nossos créditos, ou seja, o nosso consumo, paga-se com base em créditos que os nossos bancos fazem no estrangeiro, porque já nem os bancos estão com grande liquidez. Uma crise financeira global era mesmo o que nos vinha a calhar bem! Será que é desta que vamos passar a viver do que produzimos, do dinheiro que nós ganhamos, daquilo que realmente criamos?

Mas o pessoal, que se queixa de tudo e até de coisas que ainda não aconteceram, continuam a consumir como loucos, como senão houvesse problemas, como se os problemas se resolvessem como antes, com a prenda de natal da avó, com um subsídio mais vindo da UE.

O Porto, a área metropolitana do Porto, que neste momento liga todas as aldeias e vilas no raio de 50 Km, e já tem quase 3 milhões de habitantes (ainda um pouco menos que a área metropolitana de Lisboa), e o que se ali passa é sintomático do que se passa no país.

Vai abrir mais um mega centro comercial na região, mesmo colado ao Ikea, que por sua vez é gigante e veio para acabar com as poucas marcas e lojas de moveis que ainda havia na região. Mas já havia cerca de uns 10 centros comerciais, todos grandes ou gigantescos. O maior deles está a pouco mais de um Km deste novo que vai agora abrir. Estes novos mega shoppings têm muitos mais lojas que o Porto tinha antes, até há 15 anos atrás. Mas não têm proporcionalmente mais empregados. E sobretudo têm muito menos donos, pois a maioria são franchising internacionais que se repetem iguais em cada um dos shoppings de Portugal tal como de qualquer outro país similar. E a maioria desses franchising são estrangeiros, pelo que a única coisa que aumentou, os lucros de cada loja, revertem na sua grande parte para uns poucos donos estrangeiros. Os portugueses ficam com os empregos a prazo de 6 meses com ordenado mínimo (co-subsidiados pelo Estado para parecer que temos baixo desemprego). E o mais ridículo é que há muita gente que está satisfeita com isso!

O comercio nas ruas do Porto, senão fossem os cafés-taberna, os chineses e as putas, já tinha desaparecido por completo. A ultima vez que ali fui, naturalmente fui a um desses shoppings. Que remédio, não há gente e actividade em mais lado nenhum! Estava tudo cheio e a gente que consumia como sempre, freneticamente. Não era Natal. À noite iriam fazer o costume: exibir as compras do dia enquanto consomem drogas em jantaradas, nos bares e nas discotecas, que é o mais comum. Li uma noticia que os portugueses bateram recordes de férias no estrangeiro! Não me pareceu uma região em crise! Mas está.

O Porto está mal, muito mal. A outrora famosa indústria do norte está em profunda decadência., a desaparecer. As poucas empresas portuguesas que ainda restam e as novas que se vão implementando (a maioria são estrangeiras, com delegações em Portugal) preferem naturalmente ter escritórios em Lisboa (quando não em Madrid), mais perto da burocracia do Estado e do centro do país. E a maioria dessas empresas são de serviços ou logística. Não produzem realmente bens materiais, não são indústria. Ora, sem Estado e sem empresas uma região vive de quê, se esta nem sequer é turística?!

Mas os centros comerciais continuam cheios. As pessoas até passeiam por lá. Se não podem comprar pelo menos vêm, e desejam aquilo que não podem comprar, mas gostariam, e invejam. Que lindo. É o efeito FCP: enquanto há circo para entreter não à mal que não se aguente. E viva o Pinto da Costa.

Consumir é essencial. O sistema está feito para consumir. Se não consomes não existes, não participas, não podes descontar impostos... Consumir é absolutamente necessário para fazer o sistema sustentar-se e os portugueses colaboram com prazer nesse “sacrifício”! Mas esquecem-se que para consumir é preciso produzir para gerar riqueza. E como não temos petróleo só resta trabalhar, ser criativos, acrescentar algo.

A festa acabou. Mas ainda ninguém se foi embora. Embora para onde? Voltar a casa? Qual casa, a dos nossos pais e avós, de há uns 15 ou 20 anos atrás? Cair na real? Ressaca? Não. Vou continuar a consumir como se não houvesse amanhã. Quer dizer, como se hoje fosse ontem!

O país está à espera de um milagre. Um milagre de Estado. O Estado, que na nossa cultura é omnipresente, é o culpado por tudo e tem de ser ele a resolver. Ele quer dizer, os “políticos”. Espera-se um Dom Sebastião, um salvador. O Portas e o Louçã contentíssimos, porque quanto pior melhor, mais hipóteses de revolução, de eles terem o seu momento. O país está à espera de um milagre. Mas um milagre que não vai acontecer. Nada vai voltar atrás. E as mentalidade não se vão mudar de um momento para o outro. O consumismo vão continuar a ser a filosofia básica de vida. Ou pelo menos o sonho. Os ricos sê-lo ao cada vez mais, mas serão cada vez menos os ricos. A classe média está aos poucos a deixar de sê-lo, e os portugueses não estão preparados para passar a ser mais criativos, a ter mais iniciativa e ser mais empreendedores, a arriscar mais. Antes emigrar...

Eu emigrei. Eu e cada vez mais amigos que conheço que estão em Londres ou em Madrid a trabalhar mais e melhor, com melhor rendimento. No norte, por exemplo, voltaram também a emigrar muitos pedreiros e empregadas domésticas para Espanha, Alemanha, GB e França, tal como em outros tempos.

Mas curiosamente neste momento questiono-me, não sobre trabalhar mais e melhor, nem sequer sobre a economia portuguesa, que está mal e não melhorar grande coisa nos próximos anos, mas o que me questiono é sobre o sentido destas Vidas cuja filosofia de Vida é o consumo puro e duro. E isso não é um problema Português. Em Portugal só é mais grave porque se pretende consumir sob padrões ingleses e norte americanos com uma produtividade e rendimentos que nem a metade chegam. Eu questiono-me sobre esta filosofia de Vida como uma opção quase global, e sobretudo sobre se é a minha opção individual.

Para que raios é necessário ir às Maldivas passar férias, comprar mais um sofá no Ikea, ou de ter 10 relógiose 25 pares de sapatos?!

Os nossos avós jamais pensaram nesse tipo de coisas. Sim eram mais pobres. Miseráveis muitos deles. Mas nós não somos mais felizes e realizados que eles. Nem que ninguém. Aliás, pelo que tenho visto de um ponto de observação privilegiado é que esta filosofia de vida consumista se tornou uma prisão e que deixa muita gente stressada, ansiosa, à beira de ataques cardíacos consecutivos, frustrada, e principalmente perdidos, sós, vazios!

6 comments:

jaime said...

Exactamente. E tudo baseado no conceito de que é possível ter crescimento permanente (sustentável incluído)num meio ambiente que tem sempre o mesmo tamanho. Os "génios" que nos governam aplicam o conceito a todas as áreas da actividade humana com os resultados que se conhecem. O progresso só se encontra no crescimento permanente, e assim caminhamos alegremente para o abismo.
O verdadeiro problema está na natureza humana (que para ajudar não se manifesta da mesma maneira em todos os humanos e na maior parte dos casos manifesta-se da pior maneira...)e dela apenas a ciência e a tecnologia nos poderão salvar. O passado (e o presente...) demonstram à saciedade que as religiões e as ideologias não servem para grande coisa pois apenas aqueles com a "versão" boa de natureza humana nelas encontram sentido e apenas esses (infelizmente a esmagadora minoria) as levam a sério. Em todo o caso meu caro surfista prateado, espera-nos no tempo em que (previsivelmente) estaremos por cá, uma era determinante para o futuro da espécie e pode até acontecer que esta pressão sobre a espécie desencadeie um salto evolutivo (como é agora certo que acontece o processo evolutivo das espécies, ao contrário do que se pensava até à pouco tempo: um processo gradual distribuído ao longo do tempo). Em todo o caso tanto pode ser muito interessante, como pode ser horrível. Resta-nos esperar e ver.
Jaime

António Matos said...

Também vejos as coisas mais ou menos assim. Só nao creio que seja culpa dos politicos ou dos "genios" que nos governam. Em ultima análise quem nos governa somos nós mesmos, e a primeira e principal responsabilidade é individual. Embora neste caso a tradiçao e efeito grupo pese. Mas é a natureza humana. E disso nem ciencia nenhuma nos salva, porque essa ciencia é...humana.

A nao ser nos dias mais pessimistas (rsrsrsr) nao creio em grandes saltos evolutivos, nem em grandes probabilidades apocaliticas. Creio mais que no nosso caso vamos assitir a um suave e continuo definhar e suplicio, com muita emigraçao vinda de africa e muita emigraçao para o norte, só para os chineses e indianos tomarem conta de quas etudo...

Mas como agora há bombas atómicas, doenças estranhas e tal creio que tudo é mesmo possivel.

Sei lá. Seja láo que for o panorama está entre o interessante e o assutador.

Só espero que seja "interessante". E nós cá estejamos para contemplar a cena...

Cidrais said...

" Só nao creio que seja culpa dos politicos ou dos "genios" que nos governam"
Ora ai e que discordo completamente, e como homem do Norte, aonde estive ate aos 27 anos ( entretanto fui forçado a emigrar ), assisto com enorme tristeza o definhar de uma região que no meu tempo de vida ja foi grande, económica e culturalmente.
E alem de todas as razoes que apontas no teu texto e que sem duvida sao validas...aponto ao dedo aos politicos de Lisboa e as suas politicas de investimento, sem me ssentir hipocrita. Recuso e refuto a responsabilidade individual, porque tanto no meu caso quanto no de ( cada vez mais ) amigos que conheço e tiveram iniciativa para fazer mais, foram confrontados com uma realidade deprimente: a de que Portugal economomicamente ( e falo na economia de serviços, a proxima economia ) so existe num perimetro que engloba a região metropolitana de Lisboa. o que existe fora ou sobrevive a custa de feudos e compadrios, ou não existe... E eu para feudos e compadrios não tenho paciência, prfiro usar o meu tempo aprovidenciar um bom serviço, que acrescente valor e de qualidade sempre crescente.

António Matos said...

Parte de conversa interessante sobre o tema:


A:Opa, ao escrever aquele texto
ate me apreceu ainda pior
o cenario visto assim é terrivel
mas na practica nao deve ser tao mau
acho que estou a ficar profeta da desgarça
velho do restelo
lol

C:
na pratica e mesmo mau
fala com quem la esta
para teres uma visao completa
queres ouvir a conversa do meu pai...

“Nasceste num mundo de merda, e eu nasci num mundo bem melhor, que acreditavamos não puder ficar senão mais perfeito, rumo à felicidade universal. Éramos ingénuos? Sem dúvida, mas isso fez parte da beleza do momento. Agora, tudo é feio e mau. acredita, não é fácil envelhecer num mundo de que não se gosta e em que se deixou de poder acreditar. Mas vocês pertencem a outros tempos, ficarão mais endurecidos e assistireis ao fim das esperanças que a revolução francesa fez nascer na humanidade. Cometeram-se muitos crimes e enganos em seu nome e dos seus princípios, mas talves a bestialidade da condição humana tenha estado por um breve momento mais longe dos corações dos justos . Pois é, até a religião voltará a ser necessária como refúgio dos fracos e defesa dos cobardes...

Rico mundo, que vos faça bom proveito.
E, no entanto, tudo continuará...”

...o meu pai eh um poeta

A:
por acaso esta bastante interessante e honesto

C:
pois
ele basicamente ja me confessou que a geração dele fodeu tudo para nós
foi roubar enquanto dava
agora nos e que nos fodemos

A:
opa
mas eles fizeram o melhor que souberam
e acredito que a maioria tinah boas intençoes
ou pelo menso foi na onda do aproveitar enquanto da e sobreviver

C:
bla bla bla
é pa nao ha festa sem ressaca
eu qd tiha 20 anos ja sabia isso
isso a proposito do teu texto...

JV said...

Concordo com a tua analise, que resume, como sublinhaste , "o consumismo 'e a filosofia de vida".
Claro que se procuram culpados pelas consequencias, porque 'e aparente que nao se pode consumir indefinidamente a este ritmo.Para mim so ha um culpado , muito para alem de figuras, politicos ou politicas.Natureza humana.

Pedro Miguel de Moura said...

Eu neste momento so me sinto capaz de dar opiniao nesta discussao da perspectiva de um viajante (nao emigrante)...ou seja algo que nao se sabe bem o que e.
Mas realmente quando se viaja por algum tempo e por onde se encontra pessoas de muitos lados da vontade de defender o que "e nosso"; farto-me de dizer que lisboa e a cidade mais bonita que ja vi, que portugal e um optimo pais para se viver, que as praias sao magnificas e isso realmente e aquilo que sinto neste momento. O engracado e voltar e sentir o stress da vida diaria, dos problemas, e comecar novamente a dizer mal de tudo lol e novamente a desejar estar a viajar. Faz-me pensar que os alemaes, ingleses e demais "camones" que vao a portugal pensam de nos o que eu penso dos indonesios, dos croatas, dos marroquinos (para dar alguns exemplos): "ainda bem que estes caralhos nao fazem muito da vida para eu poder vir aqui uns diazinhos, aproveitar os precos baixos e sentir-me um lorde e sair daqui a pensar que vi qualquer coisa da cultura deste lugar para depois me poder gabar das proezas dos precos baixos e daquilo que fiz com os amigos". E eu ainda tento mesmo ficar em casas de gente local (taxistas, putos do liceu, ou nas casas de banho dos casinos lolol), o que dizer da vasta maioria dos turistas que so quer mesmo e uma pausa da pressao da vida "normal"?
Os japoneses que encontro quando viajo sao dos mais pitorescos. Eles parecem mesmo contentes so de estar ali, so estar fora da opressao do japao, nem querem saber da lingua (nem o ingles falam bem), nem da comida, nem dos precos. So estar fora ja e o paraiso. E claro que nao conseguem libertar do ritmo que estao habituados: toca a correr para ver mais este e aquele sitio antes que acabe o tempo das ferias para se poder dizer que se viu mais coisas e depois comparar. Pelo que me dizem muita gente se suicida nestes dias por terras niponicas. Nao posso dizer que me admiro...

Viajar parece que se tornou uma corrida para ver quem vai a mais paises: os americanos entao sao os piores, cheios de estatisticas, "i visited 46 countries in 6 months", e coisas do genero. Claro que estao sempre a falar de tudo, menos do sitio onde estao. E sao uma praga, barulhentos e desrespeitadores de tudo. Um bom exemplo e florenca aqui em italia, que mais parece a disneyland que uma perola do renascimento...
E nao e facil fugir a este consumismo: "entao mas tu so vais aqui? No mesmo tempo podias ir a 30 sitios diferentes!"

Tudo isto para dizer o que? Que como ja se diz ha algum tempo, o nosso pais se esta a tornar uma fabrica de empregados de cafe e secretarios para os ricos do norte que por ca vem beber uns copos, comer umas gajas e voltar para a barafunda dos seus paises com a ideia que em portugal e que se vive bem, aqueles pacovios "really know how to party".
Mas tambem como me disse uma japonesa, existe um equilibrio: no japao ganha-se bem mas morrem a trabalhar, em portugal morre-se de exaustao de tanto ocio e contas para pagar lol no fundo estamos como queremos...

O real problema e se se comeca passar como no montenegro, por exemplo: cheio da russalhada que trata aquilo como o quintal de praia deles; cheios da guita da mafia pagam o que for preciso e entao os precos sobem sobremaneira enquanto os ordenados ficam na mesma, quase ao ponto de sufoco. Num pais onde nao se dorme por menos de 50 euros, um taxista quase que deu gracas a deus por me ter encontrado para dormir em sua casa (com direito a pequeno almoco e historias da ex-jugoslavia) para poder dar 10 euros ao seu filho para poder ir passar o feriado grande fora e embebedar-se.

Realmente em muitos aspectos culturais fez-me lembrar o portugal de ha 10-15 anos atras...

Mas agora tambem ha que tirar conclusoes: ja nao da para todos, da para quem sabe ou quem pode. Nos nao temos tamanho para competir. Se para competir e preciso concentrar tudo em lisboa, ou se o norte e mais provinciano e tem menos iniciativa entao peco desculpa mas que se foda o porto...amanhem-se com o turismo que pelos lonely planets que tenho visto vem muito bem cotado.

Acredito que portugal vai recuperar...nao sera e mais o portugal "tradicional" a que nos habituamos. Vai falar muitas linguas, especialmente espanhol e essa coisa estranha chamada brasileiro, menos provinciano; e claro, bem menos hospitaleiro e caloroso. Digo eu de que...