20.12.08

Frases feitas e discursos vazios sobre a crise

Tive a infeliz ideia de me deixar estar a ouvir o programa “Prós e contras” da RTP, que tinha o titulo de “O que vem aí?”.

Naturalmente estava um corpo ilustre de pensadores e especialistas diversos a analisar causas e consequências da tão falada crise, a tentar fazer previsões e dar soluções... tudo bem.

Os primeiros diagnósticos saíram disparados.

Porque este
sistema faliu. Porque é preciso reformular o sistema. Porque o sistema não poder ser tão individualista, egoísta, imediatista. Há que tentar distribuir melhor a riqueza, minorar as diferenças sociais, evitar misérias e revoltas sociais. Até aqui até o mais convicto capitalista estaria mais ou menos de acordo. Afinal, o que todos querem é salvar este sistema, pois ele permitiu o melhor nível de bem estar economico-social alguma vez alcançado em toda a história ocidental. E pelo caminho também no oriente... Claro que este facto agora ninguém diz, até porque quase ninguém o quer ver. Mas pronto, até aqui tudo bem, é um discurso razoável. É só bom senso, um apelar a maior ponderação e racionalidade, que nos últimos 10 a 15 anos se foi evaporando levando aos exageros de optimismo e leviandade que agora o próprio sistema está a corrigir através das perdas, as perdas a que chamamos crise. Tal qual quando bebemos demasiado e ficamos com ressaca. É normal, ou já nem os altos e baixos da vida são compreensíveis e aceitáveis? Parece que não...

Ás tantas, alguns dos ilustres convidados, começam com o discurso mais ou menos anti-sistema.

O primeiro a discursar foi o auto intitulado cientista. O seu discurso foi quase místico de tão profundamente idealista e optimista. Segundo ele “a ciência” (para os cientistas a “a ciência” é algo á parte, não é só saber mais...) está aí a fazer novas descobertas a cada minuto, o Homem está a conhecer-se, a autoconhecer-se através da ciência, a expandir-se a si mesmo á medida que expande o seu conhecimento deste universo em expansão, conhece mais a natureza de que é parte, e por isso todos os problemas serão resolvidos e novos mundos conquistados. Há esperança portanto, sejamos optimistas... Estava a ouvi-lo e parecia-me mesmo o discurso místico-idealista que tanto abunda no meio do yôga! Só se esqueceu de mencionar que o conhecimento que a humanidade vai gerando tem como causa e consequência o aumento do seu poder destrutivo, e não só o construtivo. E que a cada nova solução aparece um correspondente novo problema. Um problema causado pela própria solução! O nosso exito é também a nossa cruz. Para cada avanço um igual recuo. E neste momento estamos a uns cliques de distância de um apocalipse nuclear que recicle a humanidade rapidamente, e isso também é o resultado directo do trabalho cientifico. No fim fica tudo na mesma. Ou até um passo mais próximo do precipício! Avé “a ciência” avé.

Mas tudo bem, o Homem tem direito a sonhar, e hoje os delírios mais místicos vêm pela mão dos ditos cientistas...curioso.

Mas depois o discurso descambou para algo mais comum, vieram os chavões e frases feitas mais...interessantes?! Tipo: há que voltar a valorizar voltar ao bem comum. Hummm?! Mas o que raio é o bem comum? Que eu saiba o bem comum da Rússia da China comunistas foi aquele argumento que sacrificou muitos milhões de pessoas para construir rapidamente um ideal que alguém impôs ditadurialmente. Aliás, sempre que é preciso mandar o povo para a guerra é o bem comum que se invoca! Quando é preciso aumentar os impostos e baixar os salários é o bem comum que se invoca. Quando se salvam os bancos e fortunas dos ricos que andaram a jogar os dinheiros nas bolsas é o bem comum que se invoca. O bem comum é a sacrifico para as maiorias, para os mais fracos. O bem comum assusta-me! Mas os chavões não ficaram por aí. Diziam até que o individualismo era o pecado moderno, e que as liberdades individuais tinham de ser repensadas...Se não fosse um padre a dizer isto eu diria que era o discurso socialista-comunista do PCP a sair da cassete. Mas não. Era um padre com mesmo exacto discurso em versao moralista crista. Eu realmente sempre os achei bastante iguais, um filho do outro. Ao apelo ao bem comum juntava-se o apelo à ética. Qual é essa ética? Não chegaram a dizer. A esse junta-se o apelo à justiça. Qual justiça? Ninguém concretizou (como se diz no futebol). Mas o melhor veio depois: “há que querer ser melhores, melhores no verdadeiro sentido da palavra”, “há que ser mais autenticamente humanos”. !?!?!? Mas do que raios é que estão a falar? De que ética e humanidade é que estao a falar? A do tempo do Salazar onde éramos pequeninos, ignorantes, sós e miseráveis? A do século XVIII e XIX de capitalismo selvagem que fabricaram o ambiente económico-social dramático que fez surgir os idealismos comunistas, socialistas e anarquistas? A da década de 20 do século XX dos tempos da grande depressão que desembocou no século XX das duas guerras mundiais, da guerra civil espanhola, da guerra fria e em muitíssimas outras? A dos regimes comunistas do pós guerra? A da igreja católica inquisitorial longo da história ou a dos casos recentes de pedofilia? Afinal qual é essa ética, a ética de que tempo, de que humanidade? Que suposta ética e humanidade perdida e essa?? Cá para mim estamos a falar do eterno sonho do paraíso perdido, estamos no campo onírico...

O que raios é “ser melhor no verdadeiro sentido da palavra” (melhor)? O que raios é “ser mais autenticamente humano”?

Chavões. Frases feitas. Discursos vazios.

Ser autenticamente humano é ser egoísta, ter medo, ser insatisfeito, neurótico, é fazer fugas para a frente, querer sempre mais neste jogo selvático pela sobrevivência, criando problemas novos com cada soluão. Pelo menos é isso que eu vejo quando olho a minha volta, quando olho para mim, quando estudo a história, e quando percebo a realidade por trás das máscaras destes moralistas cheios de belos discursos...

Mas o que pessoal quer isto. Discursos. Sonhar com mudar tudo, grandes revoluções, deitar abaixo e fazer de novo, salvações. Eu ao pé disso até prefiro um bom e velho queixar-se e dizer mal de tudo, ao tipo deste que alguém muito querido me enviou e me pareceu delicioso:

“Tou a fazer capas de … , já tenho várias mas nem sei qual é a melhor, é fazer até cair.
Nao tenho mais grandes novidades para além de que o governo é uma merda, que o socrates comprou o curso, que a ministra nao percebe nada, e os sindicatos é que sao bons, e o manuel alegre é o maior, mais um partido, mais um bando de mentirosos, enfim, nao sei o que se pode fazer, a nao ser seguir em frente, dar o melhor e esperar que passe, a crise? ou que passem para o outro lado todos os mentirosos deste país, e com eles o maldito magalhaes!!”


Se formos a ver bem está sempre tudo em crise (pelo menos a avaliar pelo que dizem os mass media e os seus especialistas), e se alguém soubesse mesmo o que se passa nunca estaria, mas a verdade é que ninguém pode prever sequer o que vai acontecer no próximo mês, e por isso a única coisa que se pode fazer é exactamente “enfim, nao sei o que se pode fazer, a nao ser seguir em frente, dar o melhor e esperar que passe, a crise?”. Agora e sempre.

1 comment:

Pedro Miguel de Moura said...

http://jonjayray.tripod.com/watson.html