22.8.06

Crónica de uma viagem

Sud Express

Viajo no Sud-express. Apanho este comboio assumindo uma situação que ainda não assimilei: sou "emigra".

A viagem começa antes mesmo do embarque. E já me vai lembrando que Portugal ainda não está no 1º mundo. Até já temos computadores e Internet, mas muitos dos operadores (e clientes) deste país profundamente estatalizado, ainda trabalha numa produtividade do século onde se formaram: o século XX português, que, na maioria dos casos, foi o equivalente ao século XVIII de outros países ditos mais desenvolvidos.

O vendedor disse-me que já não havia bilhetes no comboio de hoje, pelo que lhe pedi um para o dia seguinte. Passado uns minutos, já mentalizado para mais um dia de férias na terrinha, apareceu-me com o bilhete para hoje…

Somos uma comunidade transeunte composta principalmente por emigrantes e jovens a fazer o “interail”. A maioria dos outros passageiros deve mais facilmente identificar-me com um desses jovens cada vez mais iguais, que também já fui há dez anos atrás. Mas agora, depois já em andamento, estou consciente que estarei mais bem integrado na categoria do emigrante. O "emigra" português, essa casta tão especial.

Viajo uma vez mais neste corpo expedicionário que leva de Portugal em direcção à Europa. Em direcção…porque a sensação que dá é que Portugal é um país desaparecido num seu próprio “quadrado das bermudas”, entre Europa, as Américas e Africa. Pelo menos temos um bom posto de observação! E é uma contemplação desta boleia que aqui deixo.

Passou há pouco por mim um "portuga" daqueles que nos dá orgulho. Bigode, cabelo moreno encaracolado, baixinho e gordito, mas aperaltado com vaidade e com maneiras de pintarola. “Á pois!”. Fala muito. E ri. Para mim é uma versão mais autêntica e melhorada do Ron Jeremy, embora não tenha chegado a exames mais detalhados!

Nesta viagem (alucinógénica?!) traçamos uma transversal do país, de Lisboa a Vilar Formoso. Do nosso mais “in” ao nosso mãos “out”. “Out” de abandono e atraso.

Partimos do nosso litoral, a nossa faixa de solo fértil onde plantamos cada vez mais prédios, servidos por um número cada vez maior de novos e velhos caminhos, que mesmo assim ainda são insuficientes. A nossa ex-agricultura das hortas de subsistência, perde-se num labirinto cada vez maior, aparentemente sem fim, onde é impossível percorrer um minuto sem ver sinais de humanidade. Sempre sonhei e viajei à procura das praias, florestas e campos sem sinais de ocupação, onde o olhar se perde no horizonte, sem perceber confrontos e apertos entre irmãos. Aquelas paisagens que se vêm ás vezes nos filmes “amaricanos”. Imagino os problemas urbanísticos e burocráticos de correntes da nossa (des)ordenação do território.

Já vamos com uma hora de caminho e ainda é dia. O corredor ao lado das cabines está lotado. Quase todos são homens na faixa dos 40 a 60 anos, com inegável aspecto de emigrante trabalhador. A maioria olha para fora, para as imagens das mil e uma aldeias e vilas que passam depressa pelo ecrã deste cinema itinerante. A maioria deste cenário é pouco ou nada bonito. Mas é nosso. É, ainda e sempre a nossa casa. Talvez por isso a mirada de muitos indica que já estão a cultivar a saudade de mais este adeus. Junto-me a eles. Na mirada e no sentimento.

Perante estes homens naturalmente me inclino interiormente em respeito. Não só porque agora sou um deles, mas porque sei que à maioria não sorriu a minha sorte. Estes trabalhavam muito e duro para sobreviverem, eles lá fora e as famílias cá dentro. Agradeço mentalmente as suas remessas do estrangeiro sem as quais o país teria entrado em bancarrota. E também por isso tento manter a tolerância o número crescente de brasileiros, chineses, ucranianos e pretos de sul incerto que estão representados neste comboio como reflexo perfeito do que se vê no país e em toda a Europa.

Alguns homens conversam animados. Ouço: “antigamente os emigrantes até a mobília traziam! As malas pareciam arcas!” E riem…

Passa por mim mais um homem de bigode. Está vestido de fato de treino, não oficial, da selecção. Mas não é isso que me para o pensamento. São os seus cabelos lisos, esbranquiçados, que acentuam a expressão de cansaço e desilusão. Traz-me o imaginário dos cinquentões frustrados por uma vida adulta que não correspondeu ás expectativas de uma juventude entusiasta, cheia de esperança, do Maio de 68 e do 25 de Abril. Esta imagem traz-me pena, compaixão e medo. Fico triste.

O comboio serpenteia agora os pequenos montes do interior beirão, feitos de pedra cinza corroída pelos fungos negros. Ás vezes, nas curvas, vejo a locomotora lá à frente a puxar por todos nós. É lindo. Aqui e ali uma aldeola e muitas casas perdidas feitas de pedra que os nossos avós tiraram dos quintais para os tornar um pouco mais criativos. Não resultou. Os citadinos, com seu iludido saudosismo da “província”, acham que adoram! Aqui já percebo a fronteira óbvia com Espanha. É feita de um terreno pedregoso e infértil que não atrai, e que atrai cada vez menos. Está abandonado. Na fronteira, que é absolutamente natural, tudo muda. Começa o planalto espanhol. É ainda mais seco, mas menos pedregoso. E é também o motivo das cidades vermelhas, cor de argila feita tijolo que faz as cidades quentes parecerem de fogo. E os espanhóis, com politicas mais certeiras, o mesmo dinheiro da UE que nós desperdiçamos, e tantas vezes recorrendo aos rios que também são nossos, estão a tornar o árido produtivo. Mas ainda resta muito km sem ver vivalma o que para mim é agradável à vista, mas nunca ali poderia viver pois é demasiado longe do mar.

O pintarolas de camisa vermelha e sapato quadrado em pele branca e o amigo fumam um cigarrinho 5 cm abaixo de um autocolante vermelho a dizer: não fumar. Daqui a pouco lançam as beatas pela janela onde está um autocolante a dizer: não atirar objectos pela janela. A beata estava bem apagada, não há-de ser ela a provocar um fogo…Olham para um espanhol que os vê e avisa e dizem: “Tu quietemã. No hay problemas!” E riem…

São 20h30m . O vagão restaurante (esqueça os filmes, está mais para taberna) está intransitável. Não arrisco, até porque o empregado do estabelecimento está a refilar alto e com maus modos, queixando-se dos próprios clientes! Pelo caminho de volta, por entre as cabines percebe-se a variedade do farnel: muitas “taparueres” cheias de sandes de panado, pernas de frango, latas de sardinha, e coisas com ar a caseiro que não adivinho o que serão. Tudo regado a tintol e sobretudo cervejinha, que é cada vez mais rainha.

Como bom português ignorei absolutamente o nº do bilhete e sentei-me no primeiro lugar desocupado que encontro onde só estão mulheres. Duas francesas e uma de parte incerta. Mais tarde tenho de mudar porque chega o dono. O meu lugar também está ocupado. Agora sai ele. Na nova cabina está uma senhora brasileira que fantasio ter um certo ar a dominadora sexual. Aproveita para mandar os últimos beijos antes de passar a fronteira e perder a “rede” nacional. Demora um pouco pois coloca muito mais que as despedidas em dia. Ouço-a e recordo como os brasileiros são muito mais carinhosos que nós no trato pessoal. Pelo menos nos mais superficiais. Outra mulher, à minha frente, diz-me para esticar as pernas no banco, para o compartimento parecer mais cheio e não entrar mais ninguém. A filha está semi deitada ao meu lado, com as pernas para cima. Diz que é uma posição de ióga. Deve ser. Chegam mais duas passageiras, que pelo menos eram giras. A mulher e a filha queixam-se. Está lotado. Para mim melhorou. Estamos cinco nacionalidades agora. Falamos do óbvio: "...os portugueses são so melhores do mundo em línguas. Falam tudo e todos ententem...". Até os analfabetos, penso eu para mim.

Um outro brasileiro, com pelo menos 60 anos e ar frágil de velho tolo, passa pela terceira vez pela cabina e repete os números: 71 –123. De facto é aqui o 71. Mas o vagão 122 é o outro a seguir. Não se sabe porque os vagões não estão pela ordem dos números. O 123 está no seguimento de 121 e antes do 122. Não é de admirar que o senhor não entenda. Todos rimos muito.

Esta é já a viagem mais cheia e caótica onde estive, destronando experiências italianas e excitando a imaginação com uma mistura filmes da índia e cheiros africanos.

Os outros membros desta feira ambulante são os jovens turistas que partilham os mesmos vagões, e são cada vez mais iguais: europeus, americanos e até japoneses. Até os portugueses! Para minha infelicidade o substrato mais numeroso é de franceses. Todos partem dos seus países para ver a Europa, e, principalmente, buscam aventura. Romance. Ou pelo menos sexo! Viajam sem parar e quase sempre em bando, de vários ou de casal, no qual se fecham, pois é essa a dinâmica dos grupos em viagem. E sem conviver com autóctones não se conhece minimamente nada. Acabam por ver muito e conhecer pouco.

Olho para eles e fico a pensar: é este o comboio, antiquado, ruidoso e sujo, que marca a primeira e última impressão de Portugal aos futuros cidadãos do mundo? Será uma opção pela honestidade ou pura falta de bom-senso?

Outros dois jovens que se tratam por “ó moço”, estacionam perto. Uma “garina” passa a pedir licença em todas as línguas que conhece: merci; gracias; por favor (sotaque brasileiro), etc. O tripeiro diz logo: “De nada. Já marchavas, já!”. Como nestas coisas um homem nunca envelhece, um gajo ao lado, com os seus bons 60 anos (e bigode) concordou: “É carapau!”. Passa outra menina linda, de ar nórdico e camisa fina, nitidamente sem soutien deixando em evidências os seios. O “Ron” repassa as mãos no bigode instintivamente, enquanto se revira para acompanhar a passagem da moça, ele como todos nós, de olhos bem postos nas maminhas da bendita. Cumprimenta-se em júbilo com o amigo, felizes como crianças mas com uma luxúria muito adulta, pela bênção que a vida lhes acabou de presentear. E riem…

O “moço” tenta desesperadamente ouvir o relato do jogo da supertaça, mas capta cada vez menos sinal, que as rádios espanholas, muito piores na programação e muitos mais fortes na emissão, são cada vez mais omnipresentes. Parece que o FCP está a ganhar ao Setubal...pena!

O comboio, já em Espanha, continua a encher ainda mais. As espanholas, como as portuguesas, são pequeninas e arrumadinhas. Morenas e sensuais. Mas falam muito alto!

Já é noite. Muitos dormem e alguns roncam sem dó nem vergonha. Outros tentam não se impacientar com as muitas horas de viagem que têm por adiante. Um quadradinho atafulhado de bagagens é dominado por um amontoado jovial de varias procedências e destinos que, com a guitarra a dar o mote para uns coros acústicos, fazem lembrar as reuniões à volta da fogueira que os amigos tantas vezes improvisam em qualquer noite de Verão. Cantar em grupo é dos Yôgas mais poderosos e instantâneos que podemos praticar. É tão agradável a profunda e serena a sensação se integração…é mágico!

A feira ambulante continua em direcção a Irún-Hendaye, com destinos mais longínquos, ainda além de “Paris Francia”. Saio para escala em Salamanca para a minha conexão em direcção a casa. Casa?!? Sim, também, cada vez mais.

A procissão passa e eu fico feliz por não mais seguir esse cerimonial dos Agostos deste comboio. Saio e aproveito as próximas 4 horas para me colar a outro ritual, este bi-semanal e muitoo mais massificado, mas igualmente cheio das suas regras e rotinas, esperanças e desacertos: o rito dos fins-de-semana à noite! É só juventude com o cio…e a noite de Salamanca é uma bela eucaristia!

3 comments:

memento mori said...

sim senhor...gostei bastante da narrativa descritiva...

muito mesmo...acho que o senhor esta a apurar-se...

espero com ansiedade o relato das noites salamanquenses...do cio e que tais...

eh eh eh

mt bem...

Pedro Miguel de Moura said...

tb gostei bastante...

Joana said...

Muito boa a crónica!
Continua a escrever...sabes que entretens toda a gente com as tuas peripécias...